Fui visitar o Irineu. Tive de esperar uns minutos na sala. Chegou esbaforido, pedindo perdão:
– Desculpe a demora! Estou escrevendo um livro e não quis interromper a ideia…
– Um livro sobre quê?
– Bem, chama-se “A Arte de Noivar”…
– Uai, Irineu! Pra noivar, agora, é preciso estudar?
– Sempre foi, meu chapa! O noivado existe exatamente para isto: é um tempo de estudos.
– O noivo estuda a noiva… E a noiva estuda o noivo!
– Mas estudar o quê?
– Ora, a pessoa… Seu temperamento, caráter, hábitos, relações familiares… Coisas desse tipo…
-Quer dizer, então, que não basta “gostar”?
– Claro que não! Veja só… A noiva se casa porque deseja viver na companhia do futuro marido, certo?
– Certo.
– Pois então: ela observará se ele é caseiro ou passa boa parte do tempo com os companheiros. É o chopinho no final do expediente, o futebolzinho no domingo de manhã, o papo na esquina, a sinuquinha que avança pela noite. Isso dá várias horas por semana. Durante o noivado ela já pode perceber o marido que terá…
– Estou entendendo…
– Do lado do rapaz, ele espera ter uma esposa afável, cordata e, até certo ponto, obediente. Então, o noivo fica de olho na noiva e verifica se ela obedece à mãe e ao pai… Se ela lhes fala com doçura, respeito, ternura…
– E se ela for rebelde?
– Aí, ele pode tirar o cavalinho da chuva! Ou você acha que a mulher que não obedece aos pais, a quem deve a própria vida, irá obedecer ao marido que caiu do planeta Marte?
– Bem, meu caro Irineu, então noivar é bem mais que uma arte! É quase uma técnica de laboratório!
– Não exageremos! Mas o noivado permite chegar mais perto e prever algo do imponderável que envolve todo casamento.
– Mas os noivos não usam máscara para dourar a pílula e vender o seu peixe?
– Usam, sim. Mas a máscara sempre cai. Acontecem certos atos falhos, aquelas reações instintivas…
– Por exemplo…
– Bem, tem aquele rapaz que estica o olho para toda mulher bonita que passa, especialmente de roupa justa ou quase sem… A noivinha já pode ficar de orelha em pé… Não espere por uma especial fidelidade. E tem moça que só compra roupa de “griffe”. O futuro marido já pode ir azeitando o cartão de crédito…
– ’Pera aí, ô Irineu, desse jeito ninguém se casa!
– Casa, sim, garoto! Casa, sim!
– Mas quem vai querer se casar depois de ver todos esses defeitos do futuro parceiro?
– Aí é que está a arte, meu querido!
– Onde?
– Na cegueira! No véu preto que os noivos fazem questão de usar! Se enxergassem, não casavam! Lembra do romance “A Luneta Mágica”, do Joaquim Manuel de Macedo?
– O Macedinho das Moças?
– Exatamente! Se tivéssemos aquele olhar penetrante que vê a verdade interior, a decepção com a pessoa humana sufocaria o amor no primeiro encontro…
– Então, Irineu, o amor é mesmo cego?
– Claro, menino! Voluntariamente cego! Nunca notou que o Cupido, com arco e flecha, tem uma venda nos olhos?
– Então, a arte de noivar…
– É a arte de não ver!
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