
1953. Eu bem me lembro. O serviço de alto-falantes do Cine Danúbio Azul interrompeu a execução da polca “Barril de Chope”. Acenderam o projetor de carvão e o leão da Metro rugiu na tela com cara de tédio. Comecei a mastigar as pipocas do saquinho de papel. John Wayne vinha com a farda de capitão do exército norte-americano.
Era um daqueles “filmes de guerra”, ainda em preto e branco, com narrativas da Segunda Guerra Mundial. Praias atravancadas de obstáculos e rolos de arame farpado, estradas barrentas e trincheiras enlameadas na noite escura. O Mickey Rooney acendeu um cigarro, imprudente, e levou uma bala no meio da testa.
O inimigo era o exército de ocupação nazista. Ainda me lembro da íntima satisfação quando John Wayne rastejava pelo terreno, contornava o bunker dos nazistas e degolava, um a um, os boches da casamata. No final, bandeiras tremulando ao vento, ao som do hino dos fuzileiros navais, os mocinhos vencedores recebiam ao aplausos da multidão. Eu aplaudia também.
* * *
1963. Você se lembra? O Victor Mature fazia o papel do General Custer. Com o progresso, no Cine Ipê, a fita era colorida. Se não me engano, em Cinemascope. A tela grande mostrava as amplas pradarias americanas, rios de águas cristalinas, logo manchadas pelo sangue dos Sioux, dos Navajos, dos Iroqueses e outros bandidos. Sim, eram bandidos! Os mocinhos estavam do outro lado, na cavalaria ianque. Se os brancos venciam, era vitória. Se perdiam, era massacre…
E você aplaudia – lembra? – quando uma bala certeira derrubava por terra o índio que tentava galgar a paliçada do forte com uma faquinha atravessada nos dentes. Se um comando de nativos se acercava do forte na escuridão da noite, você assoviava, fazia barulho na cadeira, batia os pés para alertar a sentinela branca que cochilava. Você torcia pelos brancos. Lembra? Eu também batia palmas…
* * *
1973. Todo mundo se lembra. O Burt Lancaster fazia o papel do piloto norte-americano que lutava no Pacífico. Pearl Harbor estava na memória de todos e justificava (como um 11 de setembro) qualquer tipo de retaliação. Todos se lembram até do nome que haviam dado ao B-29. Enola Gay, pintado na fuselagem do avião-bombardeiro.
Todos se lembram de que ele levava uma bomba atômica. A primeira da história. E como nós torcemos para que as baterias antiaéreas não atingissem a aeronave! Para que algum zero não surgisse detrás de uma nuvem para metralhar nossos heróis. Também está gravado em nossa mente o suspense da aproximação de Nagasaki, a visão em close do visor do bombardeiro, com as linhas concêntricas que identificavam o alvo previamente escolhido. Quando a bomba começou a cair, apertamos as mãos e rangemos os dentes para que ela acertasse bem na mosca. E acertou! Com alívio, vimos o imenso cogumelo que foi crescendo no céu do Japão indefeso. De volta à pátria, os heróis da missão foram todos condecorados.
* * *
Quando os heróis são aplaudidos e condecorados, eles se sentem valorizados por aquilo que fizeram, mesmo que seja matar alguém. Foi o que aconteceu com Davi, antes manso pastor de ovelhas, agora matador de filisteus. Eis o que narra a Escritura: Por ocasião de sua volta, quando Davi retornou após ter abatido o filisteu, as mulheres vinham de todas as cidades de Israel ao encontro do Rei Saul, cantando e dançando ao som de tamborins, de gritos de alegria e de sistros. E as mulheres, tocando e dançando, cantavam em coro:
“Saul matou milhares,
mas Davi, dezenas de milhares.” (Cf. 1Sm 18,6-7)
Daí em diante, a par do ciúme de Saul, Davi iria tornar-se um homem cada vez mais violento, violência que se voltaria sobre seus próprios descendentes.
* * *
Só quis lembrar que não convém elogiar os heróis. Eles acreditam em seu papel. Afivelam a máscara. Ninguém se admire se, a seguir, lá por 2003, eles invadem o Iraque…
Artigos Relacionados