Fala, guru!

Publicado por Antonio Carlos Santini 4 de novembro de 2026
Fala guru imagem 01

Fala guru imagem 02 Fala guru imagem 01

Outro dia, amanheci coma avó atrás do toco. O céu estava cinzento, a pia tinha entupido e o gato angorá havia quebrado meu vaso de estimação. Achei que já era demais e fui visitar meu guru.

Como de hábito, encontrei-o sentado no tapete ruço, com as pernas cruzadas, na posição do lótus. A bem da verdade, naquele quartinho escuro, o ambiente não estava muito salubre e achei o turbante do guru mais ensebado que de costume.

Quando abri e fechei a porta, ele ainda continuou de olhos fechados por alguns minutos. Mantive o silêncio, prendendo a respiração, para não quebrar o seu profundo êxtase. Depois, sem pressa, ele abriu as pálpebras, dominado por irresistível pachorra. Com a longa unha do indicador direito, tirou alguma coisa do canto do olho e, arredondando os lábios, emitiu uma sílaba alongada:

– OOOM…

A seguir, sério, perguntou:

– Por que me procuras?

– Problemas… Meu gato destruiu minha orquídea mais rara…

– Troque por um cão. O cão é o melhor amigo do homem. Aliás, é o único amigo que morde.

– Eu gostava muito daquela flor…

– Nunca pise numa flor!

– Por quê? A flor tem alma?

– Nada disso, cara! É que você pode escorregar e quebrar um braço. Ou dois…

Sem saber o que dizer, hesitei um pouco. Fiquei na dúvida se ele falava sério ou se zombava de meus infortúnios. O guru pareceu-me cochilar. Depois, grunhiu interrogativamente:

– Hum?

– Estava esperando…

– Quem espera sempre alcança… Desde que o trem não descarrile…

Confesso que não estava entendendo nada. Afinal, a filosofia oriental é sempre hermética para nós, coisa para iniciados. Consumistas e pragmáticos, demoramos a chegar ao âmago das ideias. Mas fui adiante:

– Minha mulher vive reclamando… Diz que o dinheiro do meu salário não dá para as despesas.

O guru pigarreou e, com o olhar afastado, filosofou:

– O dinheiro não traz a felicidade. Traz o ladrão…

– Pois se o dinheiro não está dando para os gatos, como é que ainda vou comprar um cachorro?

– Quem não tem cão caça com gato, não é? Pergunte ao rato!

Súbito, tocou um celular. Era do guru. Ele enfiou a mão nas profundezas de sua fralda alaranjada e de lá retirou um smartphone da Samsung, top de linha. Sem pedir licença, conversou com alguém. Ouviu um instante e respondeu:

– O sol nasceu pra todos, minha filha. A briga é pela sombra!

Desligou. Ficou pensativo. Depois de alguns minutos, percebeu que eu ainda estava ali.

– Então…

– Bem, vim procurá-lo pensando que Vossa Luminescência poderia me dar uma mãozinha…

– Sim. Uma mão lava a outra. Mas, sem sabão, só espalha a sujeira. Certo?

Seguiu-se um silêncio ainda mais longo. O guru recolheu-se a seus devaneios. Uma criada cor de azeitona entrou com uma tigela de caldo, Achei que minha entrevista tinha terminado. Ergui-me sem fazer barulho, abri a porta e saí de mansinho.

À minha frente, sob um sol de fogo, uma acácia amarela dominava o gramado todo verde. Lá de dentro, entre duas colheradas da sopa engordurada, o guru gritou:

– É proibido pisar na grama!

Quando cheguei ao portão, ouvi que ele acrescentou:

– Comer, pode…

 

 

banner

Fundação Metro

Clique Aqui!