Outro dia, amanheci coma avó atrás do toco. O céu estava cinzento, a pia tinha entupido e o gato angorá havia quebrado meu vaso de estimação. Achei que já era demais e fui visitar meu guru.
Como de hábito, encontrei-o sentado no tapete ruço, com as pernas cruzadas, na posição do lótus. A bem da verdade, naquele quartinho escuro, o ambiente não estava muito salubre e achei o turbante do guru mais ensebado que de costume.
Quando abri e fechei a porta, ele ainda continuou de olhos fechados por alguns minutos. Mantive o silêncio, prendendo a respiração, para não quebrar o seu profundo êxtase. Depois, sem pressa, ele abriu as pálpebras, dominado por irresistível pachorra. Com a longa unha do indicador direito, tirou alguma coisa do canto do olho e, arredondando os lábios, emitiu uma sílaba alongada:
– OOOM…
A seguir, sério, perguntou:
– Por que me procuras?
– Problemas… Meu gato destruiu minha orquídea mais rara…
– Troque por um cão. O cão é o melhor amigo do homem. Aliás, é o único amigo que morde.
– Eu gostava muito daquela flor…
– Nunca pise numa flor!
– Por quê? A flor tem alma?
– Nada disso, cara! É que você pode escorregar e quebrar um braço. Ou dois…
Sem saber o que dizer, hesitei um pouco. Fiquei na dúvida se ele falava sério ou se zombava de meus infortúnios. O guru pareceu-me cochilar. Depois, grunhiu interrogativamente:
– Hum?
– Estava esperando…
– Quem espera sempre alcança… Desde que o trem não descarrile…
Confesso que não estava entendendo nada. Afinal, a filosofia oriental é sempre hermética para nós, coisa para iniciados. Consumistas e pragmáticos, demoramos a chegar ao âmago das ideias. Mas fui adiante:
– Minha mulher vive reclamando… Diz que o dinheiro do meu salário não dá para as despesas.
O guru pigarreou e, com o olhar afastado, filosofou:
– O dinheiro não traz a felicidade. Traz o ladrão…
– Pois se o dinheiro não está dando para os gatos, como é que ainda vou comprar um cachorro?
– Quem não tem cão caça com gato, não é? Pergunte ao rato!
Súbito, tocou um celular. Era do guru. Ele enfiou a mão nas profundezas de sua fralda alaranjada e de lá retirou um smartphone da Samsung, top de linha. Sem pedir licença, conversou com alguém. Ouviu um instante e respondeu:
– O sol nasceu pra todos, minha filha. A briga é pela sombra!
Desligou. Ficou pensativo. Depois de alguns minutos, percebeu que eu ainda estava ali.
– Então…
– Bem, vim procurá-lo pensando que Vossa Luminescência poderia me dar uma mãozinha…
– Sim. Uma mão lava a outra. Mas, sem sabão, só espalha a sujeira. Certo?
Seguiu-se um silêncio ainda mais longo. O guru recolheu-se a seus devaneios. Uma criada cor de azeitona entrou com uma tigela de caldo, Achei que minha entrevista tinha terminado. Ergui-me sem fazer barulho, abri a porta e saí de mansinho.
À minha frente, sob um sol de fogo, uma acácia amarela dominava o gramado todo verde. Lá de dentro, entre duas colheradas da sopa engordurada, o guru gritou:
– É proibido pisar na grama!
Quando cheguei ao portão, ouvi que ele acrescentou:
– Comer, pode…
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