Histórias da carochinha

Publicado por Antonio Carlos Santini 13 de agosto de 2026
ali babá mais 40

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Noite tranquila no recesso do lar brasileiro. Papai lê a Folha. Mamãe vê a novela. Áurea Vera, no fulgor de seus sete aninhos, termina o dever de casa. Lá fora, sopram ventos de inverno.

Súbito, terminando o dever, Áurea Vera pede:

– Papai, conta uma história pra mim?

– Seu Inácio baixa o jornal, pigarreia e começa em tom solene:

– Era uma vez, em um remoto país do Oriente, um alto funcionário que foi filmado embolsando a módica propina de 40 milhões de reais…

– Ora, papai! Eu não gosto de anti-heróis! Quero uma história de generais, de grandes vencedores!

-Paciente, Seu Inácio recomeça:

– Era uma vez, em uma região do Centro-Oeste, um general que desviava o trigo integral da merenda escolar e comerciava com ele…

-Para, papai! Isto não é um general! É um safado! Conte uma história com uma heroína, uma mulher corajosa, que enfrenta as correntezas do destino! Como Joana D’Arc! Como Anita Garibaldi!

– ‘Tá bom, minha filha. Vamos lá outra vez…

Áurea Vera se acomodou melhor na poltrona, piscou um olho para a mamãe e aguardou. Seu Inácio ergueu os olhos para o lustre de cristal e recomeçou:

– Era uma vez uma jovem e inocente secretária que foi cercada por um motoqueiro que lhe fazia terríveis ameaças. Ela sabia de segredos ocultos que podiam abalar toda a República…

– Inácio! Para de chatear a menina!

Era Dona Genuína, furiosa com o desenrolar daquela noite. Além de não poder acompanhar direito a trama da novela, onde um casal gay tramava para se apossar da fortuna de um senador que enriquecera grilando terras federais, e cuja filha namorava o chefe do tráfico na Favela da Rocinha, e ainda sofria com o desencanto da filha.

– Você é um pai muito cruel, Inácio!” O que a menina quer é ouvir a história da Branca de Neve…

– Isto mesmo, papai! Aquela mocinha indefesa que foi envenenada pela bruxa má com a maçã enfeitiçada!

– Pois é, Inácio… Ou a história de Joãozinho e Maria – lembrou Dona Genuína.

– Esta é boa, papai! – exclamou Áurea Vera. É a narrativa de duas crianças presas num caixotinho, para engordarem. Quando ficassem bem gordinhas, seriam devoradas, assadinhas ao ponto, pela megera da floresta…

– Tem também a do Barba Azul, Inácio. É uma história que sempre me agradou na infância…

– É verdade, papai. O Barba Azul é joia! Casou com sete mulheres e eliminava todas elas!

Seu Inácio coçou a careca brilhante e admitiu:

– Esta, eu não me lembro direito…

– Bem, querido, e aquela do Ali Babá e os 40 ladrões?

– Ah! Esta, eu me lembro!

E disparou:

– Era uma vez, um governador do Rio de Janeiro…

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