Fábula chinesa

Publicado por Antonio Carlos Santini 1 de agosto de 2026
Fábula chinesa

Fábula chinesa

Em outros tempos, havia muitos sábios na China. Até o imperador era sábio. Um conselho de mandarins formava o ministério douto e incorruptível, objeto da mais alta veneração da parte do povo simples. Naqueles tempos, não eram conhecidos o comunismo, a democracia, o capitalismo e o neoliberalismo. Eram tempos de muita sabedoria.

Ora, ocorreu que a cidade celestial de Peiping recebeu a visita de dois pregadores estrangeiros. Um deles dizia-se proveniente do Tibete, conhecedor dos arcanos profundos do Grande Lama. O outro, com uma barba que lhe chegava aos joelhos, apresentava-se como uma reencarnação de Shiva e como o Messias definitivo.

Curioso (na China como alhures), o povo se aglomerava, ouvia as pregações e um grande número de discípulos começou a ser arrebanhado. Sua Majestade, o imperador Leth-Syi-Ah-Ghem, não gostou das notícias que falavam de cidadãos deixando as famílias, abandonando empregos e vivendo ociosamente à espera do fim do mundo. Mandou a Guarda Imperial deter os dois pregadores para uma real inquisição.

Reunido o magnífico conselho dos mandarins, sob a presidência de Sua Sereníssima Majestade, o primeiro pregador expôs um resumo de sua doutrina.

– Majestade… senhores conselheiros… Sou um homem pobre, de família humilde. Meu pai era pastor de cabras e minha mãe colhia amoras silvestres. Um dia, tive uma iluminação interior. Uma voz me dizia, do alto de um carvalho: “Vá ao Imperador da China e diga-lhe que o mundo tem os seus dias contados. Na primeira lua de abril, o mar engolirá a terra e toda a vida desaparecerá. Existe, porém, uma esperança. Uma nova religião pode evitar a catástrofe. E você, pequeno Chi-Ah-Chiera, será o Sumo Sacerdote da nova religião…”

Neste ponto, o segundo pregador deu um grito no salão:

– Ele mente! É um farsante! Não creiam nele!

Os veneráveis mandarins ficaram chocados com tanta grosseria por parte de um homem religioso. Enquanto cofiavam suas longas barbas e mascavam cristaizinhos de gengibre, o Imperador perguntou ao segundo pregador:

– E qual é o resumo de sua mensagem?

– Grande e inimitável Majestade, vosso é o império desde a grande muralha até o grande rio! E nenhum outro soberano deste planeta chega aos pés de vossa grandeza…

Mas o Imperador Leth-Syi-Ah-Ghem estava entediado com aquela linguagem subserviente, tão comum nos palácios. E cortou rente a enxurrada de encômios:

– Vá direto ao ponto!

– Sim, grande Majestade! Sou um homem muito rico e filho de um notável mercador indiano. Mas abandonei todos os bens materiais desde o dia em que ouvi uma voz que me falava, do fundo de uma cisterna:

– Escute, Ho-Ming-Ahno, esta revelação para o mundo. Você não é quem pensa ser. Eu sou você. Isto é, eu me encarnei em você. Eu sou Shiva. Vá ao Imperador da China e diga-lhe que os deuses não querem templos nem sacrifícios, mas tão somente o Supremo Conhecimento. Escolas em lugar de templos. E você, Ho-Ming-Ahno, será o Magnífico Reitor desse sistema de ensino.

Retirados os dois réus, o conselho discutiu a questão e, por fim, o Imperador ordenou:

– Ambos dizem ter recebido uma revelação divina. Mas dizem coisas diferentes. E os deuses não podem desmentir-se. Sejam levados ao calabouço real até que eles cheguem a um acordo entre si. Se houver acordo, serão libertados.

Uma semana depois, os dois místicos pregadores foram trazidos ao tribunal. O Imperador perguntou:

– Quem de vocês está falando a verdade?

– Ambos responderam ao mesmo tempo, apontando para o outro:

– Ele, Majestade!

E o sereníssimo Imperador mandou decapitar os dois mentirosos.

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