
Em outros tempos, havia muitos sábios na China. Até o imperador era sábio. Um conselho de mandarins formava o ministério douto e incorruptível, objeto da mais alta veneração da parte do povo simples. Naqueles tempos, não eram conhecidos o comunismo, a democracia, o capitalismo e o neoliberalismo. Eram tempos de muita sabedoria.
Ora, ocorreu que a cidade celestial de Peiping recebeu a visita de dois pregadores estrangeiros. Um deles dizia-se proveniente do Tibete, conhecedor dos arcanos profundos do Grande Lama. O outro, com uma barba que lhe chegava aos joelhos, apresentava-se como uma reencarnação de Shiva e como o Messias definitivo.
Curioso (na China como alhures), o povo se aglomerava, ouvia as pregações e um grande número de discípulos começou a ser arrebanhado. Sua Majestade, o imperador Leth-Syi-Ah-Ghem, não gostou das notícias que falavam de cidadãos deixando as famílias, abandonando empregos e vivendo ociosamente à espera do fim do mundo. Mandou a Guarda Imperial deter os dois pregadores para uma real inquisição.
Reunido o magnífico conselho dos mandarins, sob a presidência de Sua Sereníssima Majestade, o primeiro pregador expôs um resumo de sua doutrina.
– Majestade… senhores conselheiros… Sou um homem pobre, de família humilde. Meu pai era pastor de cabras e minha mãe colhia amoras silvestres. Um dia, tive uma iluminação interior. Uma voz me dizia, do alto de um carvalho: “Vá ao Imperador da China e diga-lhe que o mundo tem os seus dias contados. Na primeira lua de abril, o mar engolirá a terra e toda a vida desaparecerá. Existe, porém, uma esperança. Uma nova religião pode evitar a catástrofe. E você, pequeno Chi-Ah-Chiera, será o Sumo Sacerdote da nova religião…”
Neste ponto, o segundo pregador deu um grito no salão:
– Ele mente! É um farsante! Não creiam nele!
Os veneráveis mandarins ficaram chocados com tanta grosseria por parte de um homem religioso. Enquanto cofiavam suas longas barbas e mascavam cristaizinhos de gengibre, o Imperador perguntou ao segundo pregador:
– E qual é o resumo de sua mensagem?
– Grande e inimitável Majestade, vosso é o império desde a grande muralha até o grande rio! E nenhum outro soberano deste planeta chega aos pés de vossa grandeza…
Mas o Imperador Leth-Syi-Ah-Ghem estava entediado com aquela linguagem subserviente, tão comum nos palácios. E cortou rente a enxurrada de encômios:
– Vá direto ao ponto!
– Sim, grande Majestade! Sou um homem muito rico e filho de um notável mercador indiano. Mas abandonei todos os bens materiais desde o dia em que ouvi uma voz que me falava, do fundo de uma cisterna:
– Escute, Ho-Ming-Ahno, esta revelação para o mundo. Você não é quem pensa ser. Eu sou você. Isto é, eu me encarnei em você. Eu sou Shiva. Vá ao Imperador da China e diga-lhe que os deuses não querem templos nem sacrifícios, mas tão somente o Supremo Conhecimento. Escolas em lugar de templos. E você, Ho-Ming-Ahno, será o Magnífico Reitor desse sistema de ensino.
Retirados os dois réus, o conselho discutiu a questão e, por fim, o Imperador ordenou:
– Ambos dizem ter recebido uma revelação divina. Mas dizem coisas diferentes. E os deuses não podem desmentir-se. Sejam levados ao calabouço real até que eles cheguem a um acordo entre si. Se houver acordo, serão libertados.
Uma semana depois, os dois místicos pregadores foram trazidos ao tribunal. O Imperador perguntou:
– Quem de vocês está falando a verdade?
– Ambos responderam ao mesmo tempo, apontando para o outro:
– Ele, Majestade!
E o sereníssimo Imperador mandou decapitar os dois mentirosos.
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