O regime e a gaitinha

Publicado por Antonio Carlos Santini 17 de agosto de 2026
A garitinha

A garitinha

Dona Ermentrudes era dura na queda. Filha de alemães. Herdara olhos de azul profundo e trazia os cabelos alourados sempre presos num coque empinado. A verruga no nariz era um alerta desnecessário, pois a voz de metal e as faíscas do olhar, associados a seus 90 quilos de mulher, bastavam para manter todo mundo de pé atrás.

Quem sofria com isso era o pobre do Sêu Pacífico, pois o marido é quem convive com a esposa. Na fala do povo, “quem come com ela o seu quilo de sal”.

Sêu Pacífico gostava de tocar sua gaitinha Hering, com duas afinações. Amante das valsinhas antigas, alma sonhadora, o pobre do marido via sempre censurados os seus dotes musicais. Mal soprava umas notinhas, Dona Ermentrudes intervinha:

– Para de fazer barulho! Vai acordar as crianças!

As crianças cresceram, a censura permaneceu:

– Para com essa melódia! Vai incomodar os vizinhos!

Os vizinhos morreram, o interdito foi mantido:

– Para com essa desafinação! Meu ouvido não é lata de lixo!

Sêu Pacífico bem merecia o seu nome. Trancava a gaitinha no estojo de madeira e ia para o quintal, onde passava a manhã arrancando a tiririca dos canteiros. Impossibilitado de fazer sua própria música, ouvia o canto dos sabiás. No fundo, ele invejava a sorte das avezitas, que formavam casais igualmente canoros. Por que não nasci eu um simples passarinho?

Já na casa dos sessenta, estava para piorar a situação do pobre Pacífico…

Foi quando Dona Ermentrudes sentiu umas fisgadas no costado e teve de ir ao Posto de Saúde. Lá, Dr. Milward passou o estetoscópio de leste a oeste e deu o veredicto: “A senhora vai ter de emagrecer!” E, passando da teoria à prática, determinou um rígido regime.

Ora, como é do conhecimento de toda a Vila, Sêu Pacífico gostava de um leitãozinho à pururuca, uma feijoada caprichada, uns torresminhos no arroz. Sem falar no copo de Malzbier para rematar o serviço.

De volta do Posto, Dona Ermentrudes foi logo avisando:

– Estamos em regime! Ordem do Dr. Milward!

Sêu Pacífico tentou argumentar:

– Estamos?! Nós estamos?! Mas eu nem fui ao médico…

Pois a megera fez ouvidos de mercador. Na hora do almoço, Sêu Pacífico se viu diante de uma floresta verde: serralha, agrião, mostarda, pimentão. E o arroz todo misturado em pedregulhos de grão-de-bico e fatias de berinjela. Nem uma isquinha de carne de porco.

E a generala com sua ordem-do-dia:

– Nada de carne por aqui! No máximo, um ovo cozido!

Sêu Pacífico não disse uma palavra. Levantou-se da mesa e foi para o quarto. Dez minutos depois, saiu com sua maleta de lona, a mesma que trouxera para o casamento. Sem dizer adeus, bateu a porta e saiu para a rua.

Dias depois, uma vizinha deu a notícia para Dona Ermentrudes: Sêu Pacífico estava morando na casa dos idosos, bem no trevo para Juiz de Fora. E fazia o maior sucesso com as velhinhas do asilo São Vicente de Paulo. Toda hora, vinha uma das vovozinhas e pedia:

– Sêu Pacífico, toca aquela valsinha…

E o maestro, todo emplumado e feliz, anunciava:

– Bem, já que insistem, vou executar… Saudades de Ouro Preto…

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