A partilha do boi

Publicado por Antonio Carlos Santini 23 de agosto de 2026

boi partilha

Quem não se lembra daqueles circos mambembes que atravessavam o interior do país, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, movidos por inexplicável amor à vida circense? Pelos anos 50, palmilhando as estradas de terra vermelha do Sul de Minas, lá vinha o circo…

A lona em trapos, o palhaço desbocado, a bailarina gordota, o pangaré magrelo e o picadeiro barrento, que o pé de serragem transformava em uma pasta marrom, fornecendo à molecada excelente munição para seus combates.

A vila ficava logo sabendo da presença do circo, apesar da escassez dos meios de comunicação da época. Com a promessa de entrada grátis, os moleques acompanhavam o palhaço pelas ruas, em alegre ladainha:

– Hoje tem marmelada?

– Tem, sim sinhô!

– Hoje tem goiabada?

– Tem, sim sinhô!

– E o palhaço, o que é?

– É ladrão de muié!!!

 

Se fosse um circo menos miserável, teria um alto-falante de campânula, de onde uma valsinha antiga cobriria os ares verdes e pacatos. Nos intervalos, uma voz fanhosa lembrava que naquela noite haveria “função”.

Ora, um dos números que mais fazia sucesso no programa era a partilha do boi. Previamente informado a respeito dos tipos mais populares da terra, o palhaço atravessava o picadeiro arrastando um boizinho empalhado e começava a repartir o boi com o povo. O número era lítero-musical, e o menestrel gemia:

            Vou repartir um boi / para os amigos meus

vou repartir a mão / pro Seu Chico Romão

vou repartir o pé / pro Seu Chico Tomé

e o chã-de-dentro / é do comadre Zé do Bento

e o chã-de-fora / é do compadre Zé da Hora

e o corredor / é do Seu Doutor

pra repartir / com o Seu Promotor

e a rabada / é da rapaziada

pra repartir com a Sá Chica Pelada

e o chifre…

 

E, após longa pausa, cumulada de expectativas, o palhaço gritava:
E o chifre é do tocador!

E o palhaço sacava o berrante da cintura e zurrava para delírio do populacho.

*   *   *

Bons tempos! Tempos de infância e de inocência! Agora, os bois invadem o noticiário do modo mais imprevisto. Como foi que o senador pagou a pensão alimentícia? Com o dinheiro do boi. Pra que foi que o senador recebeu o cheque de dois milhões? Para comprar a bezerra… Que fazer para lavar o dinheiro de procedência impublicável? Comprar a vaca premiada…

Lá no pasto literário, em sua bovina solidão, o Boi Moimeichego funga para o céu e berra um berro soturno, traduzindo as mais profundas mágoas populares. Esse boi é o nosso “eu”. Não foi à toa que Guimarães Rosa compôs o nome do bicho com quatro nomes do “eu”: moi, do francês; me, do inglês; ich, do alemão, e ego, do latim.

Sobreviver, como dói! Os velhos palhaços já se foram. Os circos morreram de tristeza. Agora é a vez do povo bancar o palhaço. Enquanto isso, parece que a vaca foi pro brejo…

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