As razões de uma solteirona

Publicado por Antonio Carlos Santini 17 de julho de 2026
Solteirona 1

Solteirona 1

O menino entrou na sala e viu a tia que fazia um bordado. Era um bico de mesa em ponto de cruz, com flores miúdas, em matizes mesclados de azul. O garoto olhou para a tia distraída, cabelos presos num coque, uns traços grisalhos nas têmporas. E veio a pergunta:

– Tia Ocarlina, por que a senhora não se casou?

A solteirona interrompeu o bordado, deixou cair os braços e fez um tempo de silêncio antes de responder:

– Ora, Joãozinho, para casar é preciso achar o marido certo…

– E a senhora não achou?

– Bem, por várias vezes eu pensei que tinha achado… Depois eu me desiludia…

– Desiludia?

– Isso mesmo. Por exemplo, o Carlos, meu primeiro namorado… O Carlitos era inteligente, estudava Medicina, escrevia poemas de amor… Mas fumava demais. E eu não queria um marido cheirando a cigarro. Por isso é que não deu certo…

– Não teve outro?

– Teve, sim. O Feu, o Fernando. Era filho de um banqueiro e frequentava a alta roda. Ele me pediu em casamento e me prometeu um mundo de coisas: viagens à Europa, um triplex na Serra, carro do ano. Mas ele era meio mulherengo. E eu não queria um marido assim. Pensei melhor e recusei…

– Aí a senhora desanimou…

– Não, Joãozinho, ainda teve o Honoraldo. Moço de boa família, honesto, trabalhador, mas era muito pobre. E eu tinha medo de passar necessidade. E para complicar ainda mais, ele torcia para o Cruzeiro. Pensei melhor e acabei o namoro.

– Puxa! E o papai fuma, é mulherengo e pobre. Foi um milagre ele ter casado com a mamãe!

– Ora, Joãozinho, a Giselda não liga muito para essas coisas. Nós somos muito diferentes.

– Então, a senhora desistiu de casar?

– Não, Joãozinho, Eu namorei o Britaldo. Quase fiquei noiva. Mas não deu certo. Ele não parava em emprego nenhum. Na verdade, ele estava esperando que eu terminasse o Curso Normal e começasse a lecionar… Aí, o sustento da casa estava garantido…

– E ele ia fazer o quê? – perguntou Joãozinho.

– Bem, ele gostava era de jogar sinuca. Era o campeão da roda. Eu seria apenas a bola da vez. Mandei passear…

– Foi o último namorado?

– Deixe ver… Ainda teve o Lúcio Bala…

– Lúcio Bala?! Que nome!

– Era o centroavante do Metalusina Esporte Clube de Barão de Cocais. O apelido veio do seu chute forte, que até furava as redes do adversário. Era muito carinhoso e trabalhador. A mãe dele gostava muito de mim…

– E por que a tia não se casou com ele?

– Sabe, Joãozinho, ele era feio, muito feio. Quando a gente saía juntos, eu tinha vergonha dele. Era uma feiura de chamar atenção. Como é que eu ia casar com um homem tão feio? Toda moça quer um marido bonito, charmoso, simpático.

– Sei, tia. E de preferência, rico e trabalhador. Sem vícios e muito caseiro… Sabe, tia, a senhora pensa demais!

De bate-pronto, lá da varanda, sentado em sua cadeira de balanço, o avô que ouvia tudo, confirmou:

– É isso mesmo, Joãozinho: quem pensa não casa!

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