
Tempos de Copa do Mundo permitem uma reflexão a respeito de um tipo mórbido de nacionalismo que envenena muita gente.
Claro, o amor à pátria é uma virtude fundamental: quem não ama sua terra não pode amar o mundo. Do outro lado da fronteira, porém, vive um vizinho que também ama sua pátria. E nós temos algo em comum: somos homens, somos humanos. E esta humanidade vale mais que nosso patriotismo…
Já dizia Terêncio, poeta latino: “Homo sum, et nihil a me humani alienum puto”, Eu sou homem, e não considero nada de humano como estranho a mim, ou então, Eu sou humano, e tudo que é humano me diz respeito.
Se eu avalio meu amor à pátria como algo superior ao amor pela humanidade, estou dando o primeiro passo para um conflito armado. O homem integral sabe dar o salto de qualidade que lhe permite aprimorar sua própria humanidade.
Quando estudei no antigo Ginásio, tive professores que haviam abandonado suas pátrias para trabalharem juntos por nossa educação. Eram franceses, italianos, argentinos, espanhóis, um inglês, um paraguaio – e todos eles romperam seus laços de origem para tecerem um novo bordado, cuja proteção permitiu o crescimento de centenas de jovens brasileiros.
Albert Schweitzer – teólogo, pastor luterano, organista e filósofo alemão – deixou a segurança de sua pátria para fundar o primeiro hospital para pobres no atual Gabão. Antes de morrer, em 1965, Schweitzer recebeu o prêmio Nobel da Paz: era o reconhecimento universal de que o amor à humanidade prevalece sobre o amor à própria terra.
Madre Teresa, nascida na Albânia, estudou na Croácia e na Irlanda; designada para Calcutá, dedicou sua vida aos pobres, mendigos e leprosos de uma Índia que não era a sua pátria. Também ela foi premiada com o Nobel da Paz em 1979.
A Comunidade Europeia – uma confederação de várias nações que viviam em conflito – deve sua existência à interação de um alemão (Konrad Adenauer), um francês (Robert Schuman) e um italiano (Alcide De Gasperi), que uniram seu trabalho para erguer a Europa das ruínas da Segunda Guerra mundial. A Santa Sé já iniciou o processo de beatificação de dois deles.
Em todos estes exemplos, o nacionalismo não impediu seu amor universal e sua contribuição para toda a humanidade. Ao contrário, conhecemos numerosos líderes cujo pretenso nacionalismo causou desgraças para o mundo todo. Peço licença para não citar seus nomes.
Na prática, existe uma modalidade de nacionalismo extremamente negativa, que encoraja o orgulho pelas realizações nacionais, mas, combinada com o ódio racial, torna-se uma ameaça à toda a humanidade, como ocorreu no Holocausto perpetrado pela Alemanha nazista ou pela Rússia soviética. Aqui e ali, este mesmo nacionalismo doentio pretende reerguer antigos impérios, como o movimento MAGA nos atuais EUA.
No tempo de Jesus, um povo que estava à espera de um Messias que devolvesse a Israel a glória e a grandeza de Salomão, acabou rejeitando o Messias que vinha salvar a Humanidade inteira.
Recentemente, vimos a opção errada dos ingleses que, incomodados pela imigração estrangeira, decidiram separar-se da União Europeia, com o Brexit, hoje lamentado por todos eles. No fundo, o sentimento de superioridade que leva ao isolamento, somado à ilusão de se bastar e não precisar de mais ninguém.
Enfim, quando um time de futebol, representando um país, leva uma goleada sobre o terreno gramado, não precisamos descer ao nível dos comedores de grama e deixar que o ódio envenene nossa hemoglobina. Afinal, quando Jules Rimet pensou na Copa do Mundo, ele tinha a intenção de aproximar as nações, e não de excluir estrangeiros imaginados como um risco nacional.
Nós podemos escolher o que somos: homens ou brucutus de All Cop…
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