A música, essa andarilha…

Publicado por Antonio Carlos Santini 22 de junho de 2026
A musica img

A musica img

Certa vez, meu amigo e parceiro musical Tom de Minas, apaixonado pela mineiridade, ficou decepcionado quando eu lhe disse que a conhecida composição “Oh! Minas Gerais! / quem te conhece não esquece jamais” é, na verdade, uma versão da canção napolitana “Vieni sul mar”, com letra do famoso Enrico Caruso, embora apareça na Internet como composição de Manoel Araújo e José Duduca de Morais.

Deh ti desta fanciulla la luna
Spande un raggio s’i caro sul mar
Vieni meco t’aspetta la bruna
Fida barca del tuo marinar

Ma tu dormi e non pensi al tuo fido
Ma non dorme chi vive d’amor
Io la notte a te volo sul lido
Ed il giorno a te volo col cor

Vieni sul mar
Vieni a vogar
Sentirai l’ebbrezza
Del tuo marinar

As músicas são assim. A música tem asas e voa mundo afora, alheia aos direitos autorais. Uma vez composta, voa e recusa toda dominação.

Em meus tempos de ginásio, 1955, em Conceição do Rio Verde, MG, nós cantávamos uma saborosa canção intitulada “Meu Rancho”. A letra era do Pe. Dante Angelelli, desenhista, arquiteto, pintor, compositor e poeta.

Não tenho casas de paredes brancas

Janelas verdes e telhas vermelhas

Nem horta, nem curral e nem abelhas…

 

Muita riqueza há na cidade

Mas liberdade só no sertão…

 

Meu rancho é feito de bambus trançados

Tem teto de sapê e chão batido

Mas eu de bangalô dei-lhe apelido…

Pois bem, quando ouvi pela primeira vez o conhecido “Capriccio Italiano”, Op. 45, de Tchaikovsky, reconheci, cheio de espanto, a nossa cançoneta ginasial. Uma rápida pesquisa revelou que o compositor russo passara uns tempos em Roma e, pela janela do Hotel Constanzi, entravam as canções populares na voz dos vendedores ambulantes. Uma delas foi exatamente a canção folclórica italiana “Bella ragazza dalle trecce bionde” [a bela menina das tranças loiras], que Tchaikovsky iria adaptar com maestria em versão orquestral.

Esta forma de “apropriação” não merece absolutamente a pecha de plágio. O tal “domínio público” se impõe além de nossas posses. Seria inútil tentar verificar se as conhecidas “Czardas” de Vittorio Monti são, de fato, criação do autor, ou mera transposição do folclore magiar.

Aqui e ali, encontro na Internet algumas de minhas composições gravadas sem minha autorização, ou um tanto deformadas em sua alma original, ou cantadas com variado sotaque por uma comunidade de Portugal. A música voou… É tarde demais…

banner

Fundação Metro

Clique Aqui!