
– Entre, compadre! A casa é sua!
Primeiro, o Coronel Matias ouviu o bater da porteira. Só depois o tropel cadenciado da mulinha marchadeira. Chegou à janela e reconheceu o visitante, que ia atravessando o raso do corguinho.
– Ô de casa! – gritou o compadre Janô.
Antes que o dono da casa respondesse, o velho Sultão deu dois latidos meio roucos, só para cumprir a obrigação. Afinal, a visita era conhecida.
– Se abolete, compadre, e venha sentar junto do fogão!
Nada de sala de visitas, que o calor do dia já havia passado e começava a soprar uma aragem fria. À vera, a sede da fazenda não tinha sido construída em local muito apropriado. Quase numa encosta noruega. E junho andava pelo meio, a colheita praticamente finda, a friagem incomodando.
– Chegue-se ao fogo, compadre… Está esfriando…
– Certo, compadre Matias. Já invernou…
O dono da casa tinha acabado de enrolar um cigarro de palha. Voltou-se para o recém-chegado, que segurava na mão esquerda um surrado chapéu de couro, e ofereceu:
– O compadre aceita um pito? A palha é aqui da fazenda…
– É fumo forte?
– Goiano, compadre. E do bom!
Em silêncio, compadre Janô apanhou algumas palhas, prendendo-as entre os dedos. Abriu a lâmina do canivete com cabo de chifre, “JMC Campanha”, e foi alisando as palhas. Depois, sem pressa, como quem celebra um ritual, ia cortando bem fininhas as escaras do fumo de rolo. Quando ficou pronto, debruçou-se em direção ao fogão de lenha e acendeu-o em uma brasa que tinha rolado dos gravetos.
Lá fora, o galo cantou, preparando-se para encerrar o dia. Na boca do forno, o gato rajado espreguiçou-se. Janô percebeu o bichano e notou que ele tinha as pontas do bigode sapecadas pelo calor do fogo.
Compadre Matias raspou a garganta e arriscou:
– ‘Tô notando que o compadre parece preocupado…
– Pois é, compadre. A vida são problemas…
– E que é que lhe incomoda?
– Janô Medeiros olhou pela janela e viu as flores vermelhas do bico-de-papagaio, como se o arbusto estivesse sangrando. Arriscou:
– É o Fidélis…
– Seu cunhado?
– Pois é, compadre. O safado me deu um cheque sem fundos…
– Isso não se faz!
A penumbra ia invadindo a cozinha de terra batida. O silêncio foi longo. Um graveto estralou no fogão, bem debaixo do bule de café que ficava em banho-maria.
– O pior é que minha mulher não quer que eu faça nada. Disse que o irmão dela tem seus motivos…
– Será mesmo, compadre? Esses assuntos de família são meio chatos… E delicados… É preciso muito jeito para lidar com as pessoas…
– Pois eu acho que já esperei o que basta. ‘Tô pensando em partir para a ação.
Compadre Matias resolveu especular:
– E de onde apareceu o tal cheque?
– Bem, foi de uma novilha que eu vendi pro Fidélis. Novilha boa, girolanda. Já faz três meses… Eu nem queria vender. Foi ele mesmo que insistiu…
– E por que não pegar a rês de volta, compadre?
– Diz o safado que já passou pra frente… Que a bichinha era meio cega e vendeu com prejuízo para um boiadeiro que passou por lá… Agora, eu acho que vou ter que tomar umas providências…
– Providências?
– Exato, compadre. E foi por isso que dei uma passadinha por aqui.
E, olhando de novo para o vermelhão do bico-de-papagaio, Janô pediu:
– O amigo compadre não me empresta a sua cartucheira? Aquela 28, de dois canos?
Coronel Matias mudou o cigarro de palha para o outro canto da boca e respondeu:
– O compadre me adesculpe, mas não vou poder atender… Ontem mesmo, passou por aqui o Fidélis e levou a espingarda emprestada.
E antes que o visitante dissesse alguma coisa, o compadre Matias emendou:
– A essas horas, amigo compadre, o seu cunhado já deve estar de tocaia, lá debaixo da paineira velha…
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