
Esta manhã, brotou de minha memória, sem nenhuma autorização, a cantiga de encurtar caminho, típica dos grupos escoteiros, que nós cantávamos nos tempos de ginásio, no Instituto São José, de Conceição do Rio Verde. Cito de memória, sujeito a algum lapso:
Yu-caidi, Yu-caidá,
Yu-caidi ai-di aidá
Yu-caidi, Yu-caidá,
Yu-caidi ai-di aidá
Nos meus onze anos, cantávamos a versão feita pelo padre-poeta-músico-arquiteto DANTE ANGELELLI, da congregação dos Padres de Bétharram:
Pelos campos ao redor
Yu-caidi Yu-caidá
Vamos todos caminhar
Yu-caidi ai-dá.
Não há brilhante de bazar
Que se possa comparar
Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá
Ei!
Yu-caidi, Yu-caidá,
Yu-caidi ai-di aidá
Yu-caidi, Yu-caidá,
Yu-caidi aidá
Não existe outro farol
Yu-caidi Yu-caidá
Luzidio como o sol
Yu-caidi ai-dá.
Ele aclara, norte a sul,
Esse etéreo mar azul
Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá
Ei!
A alegria dentro em mim
Yu-caidi Yu-caidá
Tem perfume de jardim
Yu-caidi ai-dá.
Tudo canta, tudo ri,
Tudo pula qual saci!
Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá
Ei!
A composição original vem das comunidades bascas na França. Foi lá nos Pirineus, em seu tempo de seminarista, que o italiano Dante Angelelli conheceu a canção. Digitei no Google: yu-caidi yu-caidá chanson basque française. E surgiu uma gravação infantil deliciosa. Podem conferir.
Quando o professor canta com os alunos, fica em suspenso a ordem hierárquica, pois todos respiram juntos e cantam no mesmo tom. E o aluno pode ver o mestre como um companheiro, um igual.
Sempre cantei com meus alunos, usando a música como recurso didático. Trabalha-se a fonação, a dicção, metro, ritmo e rima. Quando eles me viam chegar com o violão, já ficavam animados…
A exclusão do Canto Orfeônico do currículo escolar foi um pecado mortal. O maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), talvez nosso músico mais respeitado no planeta, utilizou o canto orfeônico como ferramenta pedagógica e política central no Brasil, oficializando-o na educação pública a partir de 1932. Com foco na construção da identidade nacional, o projeto unia canto coral, disciplina e civismo, culminando em concentrações orfeônicas com a participação de milhares de estudantes.
Ainda me lembro do arranjo feito por Villa-Lobos para uma canção indígena, Canindé Yune [Arara azul], que cantamos já em Passa Quatro, 1959, sob a regência do Pe. Michel Callerot:
Canindé Yune
Kwê-kwá-kwa
Kwê-kwá-kwa…
Voltando ao Yu-caidá, notem que aos 11 anos de idade cantávamos adjetivos como “luzidio” e “etéreo”. As crianças cantam aquilo que os adultos passam para elas. E pelo que vejo atualmente, na pornofonia midiática, parece que os adultos merecem ficar de castigo…
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