
Foi no início da República. O cais do porto do Rio de Janeiro fervilhava de estrangeiros de todos os quadrantes. No meio daquela legião multiforme, um moleque ia e vinha com seu tabuleiro de doces. Filho de um marinheiro inglês com uma liberta, o pequeno Donald trançava pra-lá-pra-cá com seu pregão:
– Doce de leite! Mariola! Pé de moleque! Cuscuz!
Simpático e sorridente, o negrinho dentuça fazia amigos de todas as raças. E logo aprendia a falar no idioma daquele arco-íris humano, dominando os rudimentos do inglês e do francês, os tons do castelhano e da sonora língua de Dante.
– Signore! Confitture!
– M’siê!… c’est bon marché…
A jovem esposa de um secretário do consulado francês apaixonou-se pela criança e adotou-a informalmente. Em pouco tempo, a madame deu-lhe um verniz de boas maneiras (ela dizia “politesse”) e um guarda-roupas completo: terninho, polainas, sapatos de duas cores, bengalinha de castão e chapéu de panamá. Nos saraus do cônsul, Donaldinho brilhava.
Naturalmente, botaram o galarote no Liceu, onde os mazombos que lecionavam ficavam extasiados com as firulas linguísticas do aluno. E mais: tendo acesso a variadas fontes, destacava-se até nas disciplinas científicas. Para encurtar a história, Donaldinho acabou em Paris, como adido comercial do Brasil. Ali, circulava pelos salões com graça e garbo, a todos ofuscando com seu desempenho em 8 ou 10 idiomas.
Claro, um contato aqui, uma informação privilegiada ali, nosso embaixador logo fez fortuna. Associou-se a alguns investidores e adquiriu ações da crescente indústria de guerra. Dinheiro a rodo.
Tudo corria bem, até que o Chanceler francês, Monsieur Rouanet, famoso por suas artes, resolveu taxar em 25% todas as importações da nova República brasileira. O Embaixador Donaldo – era assim que os amigos italianos o chamavam – foi convocado pelo Itamarati e compareceu ao gabinete do Presidente da República. Estava gordo, rico e feliz. O colóquio foi direto:
– Meu caro Donaldinho, nós não vamos tolerar este ataque francês!
– Ça va, Mr. Le President…
– Ora, fale o nosso idioma! Aqui, não usamos perucas!
– ‘Tá bom!
– Como eu dizia, há muita coisa em jogo. Com a taxação, muitas partidas nossas serão inviabilizadas. Vamos perder mercado para os argentinos. Até nosso Ministro da Agricultura pediu demissão…
– Claro!
– Então, Donaldinho, use a sua ginga e reúna a Comissão Técnica, vá lá e mostre pra eles a raça brasileira!
O Senhor Embaixador se abaixou para ajeitar as meias, olhou pela janela e retrucou a meia voz:
– Caro presidente, assim o senhor vai me indispor com a minha galera… Afinal de contas, são eles que pagam o meu caviar…
* * *
Em tempo: dizem que o Embaixador Donaldo será convocado de novo em 2030.
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