
Tinha sido um dia pesado. Sua Majestade passara toda a manhã em seu gabinete, examinando relatórios sobre a situação crítica da agricultura nacional. Ainda antes do almoço, tivera uma reunião com o Ministério. Como a discussão se alongasse, acabou comendo um sanduíche de atum. Teve meia hora de intervalo, passeando no jardim, e logo começaram as audiências públicas, que lhe consumiram toda a tarde.
Cansado, os nervos em frangalhos, entrou em seus aposentos e encontrou a Sereníssima Rainha nada de acordo com seu título. Para dizer a verdade, a mulher do Rei estava furiosa. De que adiantava ser casada com um homem rico e poderoso, se nem o podia ver o dia inteiro?
Um tanto confuso, Sua Majestade abriu as janelas amplas e foi para o balcão que dava para o pátio interno. A noite já havia caído. Uma aura fresca denunciava o outono. A maioria das árvores já perdera as folhas. No vento suave, bailava algum aroma de flores à beira do lago.
Foi quando ele chegou. Asas de veludo, uma espécie de xale esvoaçante, caiu do céu como um raio e pousou no parapeito do balcão.
– Quem é você?
– Sou o Anjo da Morte.
– A quem procura?
– Venho buscar Vossa Majestade…
O Rei não pareceu abalar-se. Apenas suspirou. Fez-se um curto silêncio, logo quebrado por Sua Majestade.
– Eu imaginava você bem diferente…
– Uma caveira? Uma foice nas mãos?
– De fato, pensei que trouxesse um alfanje… Uma gadanha…
– Pare ceifar as vidas? Colher as almas?
– Mais ou menos isso…
– Isso é coisa bem infantil. Ademais, não sou uma ceifeira. Quem não semeia não colhe.
– Então, o que é a Morte?
– Eu, o Anjo da Morte, sou apenas um libertador.
O velho Rei olhou ao longe, por cima dos plátanos, e perguntou:
– E de que você vem me libertar?
– Ora, seria uma longa lista! Devo libertá-lo de tudo que lhe dá essas rugas horizontais na testa. De tudo que está perfurando uma úlcera em seu duodeno. De tudo o que lhe tem tirado o sono…
– Por exemplo?
– Bem… Só para citar algumas correntes, que tal a insatisfação da Rainha? E a cupidez do seu Ministro da Fazenda? E o medo de que o povo não tenha o que comer na próxima estação?
Sua Majestade balançou de leve a cabeça encanecida. O Anjo bem que tinha razão.
– Tem mais, observou o visitante. Devo libertá-lo de sua enxaqueca. E de suas vértebras doloridas. E da má circulação nas pernas. Quando eu levar você, todos esses males acabarão.
– Você tem razão. Mas… E que me espera do outro lado?
– Nada que eu possa revelar antecipadamente. Mas devo confessar que Sua Majestade terá surpresas bem interessantes. Logo verá…
O rei abotoou o colete e resignou-se:
– Então, vamos?
– Está pronto?
– Acho que sim. Mas… Um momento! Ali na extremidade do jardim, mora o jardineiro, que é mais velho e mais pobre do que eu. Por que motivo você vem libertar a mim, e não a ele?
O Anjo sorriu e explicou:
– Ele já é um homem livre… Não precisa de mim…
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