
Amanhecia na terra de Sha-Nanh, quando um guarda se aproximou do trono de Sua Majestade. Fez uma profunda reverência e anunciou:
– Majestade imperial, aproximam-se três mercadores do portão principal e pedem licença para venderem seus produtos na cidade.
Entediado por uma vida sem novidades, o Imperador dispôs-se a examinar a situação pessoalmente. Seguido por um bando de parasitas que medrava como tiriricas à sombra de seu trono, Ling-Fuh desceu as escadarias do Palácio de Cristal e atravessou a praça. Foi passando entre militares e serviçais, homens que puxavam riquixás, mulheres do povo que apregoavam os frutos da terra. E os escravos – a multidão de escravos que tornava possível o luxo e o fausto da classe dos mandarins.
Junto à Porta Ocidental, Ling-Fuh sentou-se em um macio almofadão de seda e recebeu os mercadores.
– Que trazes aí nesse burro carregado?
– Majestade, trago ouro e prata, metais preciosos e gemas do Hindustão. São mercadorias que interessam a todos os cortesãos.
– Não – disse Ling-Fuh. Isso é muito perigoso. Com todo esse tesouro, meus guardas poderiam ser subornados e acabariam fazendo um levante contra mim.
E, dirigindo-se ao chefe da guarda:
– Confisquem a mercadoria! Interesse do Estado!
Veio o segundo mercador. Novo interrogatório.
– Que trazes aí nesse burro carregado?
– Armas, majestade – disse o mercador.
– Que tipo de armas?
– Oh! Espadas de aço espanhol… adagas turcas… arbaletas de Veneza… até alguns arcabuzes francos…
O Imperador balançou a cabeça, em tom de admiração, e ordenou:
– Confisquem a carga! Interesse do Estado!
E voltou-se para seu lugar-tenente:
– A carga deste burro poderia ser o germe de uma guerrilha. Um pequeno grupo de descontentes faria tudo para ter essas armas. E o Império da China não pode correr esse risco…
Veio o terceiro mercador. Fez uma reverência humilde profunda. O Imperador perguntou:
– Que trazes aí nesse burro carregado?
– Livro, Majestade…
– Livros?!
Ling-Fuh, divertido, olhou para o grupo de cortesões e riu:
– Vocês viram? Livros!
Uma gargalhada sacudiu o séquito real. O Imperador prosseguiu:
– E vocês gostam de livros?
– Não! Fuh! Fora com eles!
– Calem a boca, seus ignorantes! – disse Ling-Fuh.
E, voltando-se para o mercador:
– E de que tratam esses livros?
– Oh! Majestade… são mitos sobre a criação do mundo… e narrativas sobre velhos pastores, homens que tinham visões dos céus… e algumas cartas de um viajante… e também algumas lendas sobre o fim do mundo…
– Mitos? Lendas? Cartas? Está bem… Pode entrar na cidade… Mas eu duvido que alguém aqui se interesse por sua mercadoria.
* * *
A História conta que os livros circularam de mão em mão. Os escravos ficaram sabendo que todo homem havia sido criado à imagem de Deus. O agricultor descobriu que o trabalhador tem direito ao seu salário.
Em menos de três anos, a Revolução tinha derrubado o último Imperador.
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