Três burros na muralha

Publicado por Antonio Carlos Santini 21 de julho de 2026
3 burros  NA MUEALHA IMAGEM

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Amanhecia na terra de Sha-Nanh, quando um guarda se aproximou do trono de Sua Majestade. Fez uma profunda reverência e anunciou:

– Majestade imperial, aproximam-se três mercadores do portão principal e pedem licença para venderem seus produtos na cidade.

Entediado por uma vida sem novidades, o Imperador dispôs-se a examinar a situação pessoalmente. Seguido por um bando de parasitas que medrava como tiriricas à sombra de seu trono, Ling-Fuh desceu as escadarias do Palácio de Cristal e atravessou a praça. Foi passando entre militares e serviçais, homens que puxavam riquixás, mulheres do povo que apregoavam os frutos da terra. E os escravos – a multidão de escravos que tornava possível o luxo e o fausto da classe dos mandarins.

Junto à Porta Ocidental, Ling-Fuh sentou-se em um macio almofadão de seda e recebeu os mercadores.

– Que trazes aí nesse burro carregado?

– Majestade, trago ouro e prata, metais preciosos e gemas do Hindustão. São mercadorias que interessam a todos os cortesãos.

– Não – disse Ling-Fuh. Isso é muito perigoso. Com todo esse tesouro, meus guardas poderiam ser subornados e acabariam fazendo um levante contra mim.

E, dirigindo-se ao chefe da guarda:

– Confisquem a mercadoria! Interesse do Estado!

Veio o segundo mercador. Novo interrogatório.

– Que trazes aí nesse burro carregado?

– Armas, majestade – disse o mercador.

– Que tipo de armas?

– Oh! Espadas de aço espanhol… adagas turcas… arbaletas de Veneza… até alguns arcabuzes francos…

O Imperador balançou a cabeça, em tom de admiração, e ordenou:

– Confisquem a carga! Interesse do Estado!

E voltou-se para seu lugar-tenente:

– A carga deste burro poderia ser o germe de uma guerrilha. Um pequeno grupo de descontentes faria tudo para ter essas armas. E o Império da China não pode correr esse risco…

Veio o terceiro mercador. Fez uma reverência humilde profunda. O Imperador perguntou:

– Que trazes aí nesse burro carregado?

– Livro, Majestade…

– Livros?!

Ling-Fuh, divertido, olhou para o grupo de cortesões e riu:

– Vocês viram? Livros!

Uma gargalhada sacudiu o séquito real. O Imperador prosseguiu:

– E vocês gostam de livros?

– Não! Fuh! Fora com eles!

– Calem a boca, seus ignorantes! – disse Ling-Fuh.

E, voltando-se para o mercador:

– E de que tratam esses livros?

– Oh! Majestade… são mitos sobre a criação do mundo… e narrativas sobre velhos pastores, homens que tinham visões dos céus… e algumas cartas de um viajante… e também algumas lendas sobre o fim do mundo…

– Mitos? Lendas? Cartas? Está bem… Pode entrar na cidade… Mas eu duvido que alguém aqui se interesse por sua mercadoria.

*   *   *

A História conta que os livros circularam de mão em mão. Os escravos ficaram sabendo que todo homem havia sido criado à imagem de Deus. O agricultor descobriu que o trabalhador tem direito ao seu salário.

Em menos de três anos, a Revolução tinha derrubado o último Imperador.

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