
Um dia desses, fui rezar na igreja. As sombras da tarde deixavam o templo sereno e recolhido. Seu Chiquinho, o sacristão, ainda não acendera as lâmpadas e eu pude ficar bem escondido junto do confessionário.
De vez em quando entrava um fiel para fazer suas preces, dirigindo-se ao santo de sua predileção. Mesmo sem querer invadir sua privacidade, eu acabava ouvindo o que eles diziam…
Vi quando chegou um homem pobre, de sandálias surradas, e se pôs aos pés de S. Francisco. Humilde, ele disse:
– Meu S. Francisco, estou passando aperto! Meu salário é tão pequeno! Só posso comer pão seco e, às vezes, tenho vontade de comer um bom bife de filé… Passo pelas vitrines e vejo aquelas roupas finas, aqueles sapatos de luxo… Neste momento difícil, venho recorrer à vossa intercessão!
Prestei atenção e notei que o santo se inclinava na direção do devoto. Com a mão direita, espanou um pouco da poeira que cobria seu burel cor de barro. E respondeu com voz suave:
– Meu filho, acho que você está falando com o santo errado… Você nunca leu a minha história? Meu pai era um rico negociante. Eu tive os bons sapatos e as belas roupas que você me pede. Dinheiro, nunca faltava em minha casa. Mas eu preferi ser livre para amar a Deus e às pessoas. Por isso mesmo, rejeitei minha herança e fui viver com a Irmã Pobreza. Ela me deu profundas alegrias. Se eu lhe conseguisse o que me pede, estaria renegando minha própria vida…
O pobre homem ergueu-se, desconsolado, e desceu as escadas da igreja. No mesmo momento, entrava uma solteirona vestida de azul escuro, o cabelo amarrado em coque. Depois de breve hesitação, aproximou-se da imagem de Santo Antônio de Pádua e, erguendo os braços magros, pedia:
– Santo Antônio, meu santo casamenteiro, não aguento mais esta vida de solidão! Venho a vossos pés suplicar sua intercessão. Querido Santo Antônio, o senhor não poderia arranjar um noivo para mim? Pode ser pobre e feio… Não precisa ser inteligente nem de família importante… Só quero um companheiro em minha vida…
O santo ergueu os dois braços e balançou a cabeça com pesar.
– Filha, quem disse que eu entendo dessas coisas? Você não sabe que eu sou celibatário? Fui de família nobre e poderia ter conseguido a noiva que me agradasse. Mas o amor de Deus me atraiu tão fortemente, que eu abri mão do direito de me casar. A virgindade consagrada me pareceu um caminho tão belo, que fiz o voto de castidade. Acho que você deve procurar outro tipo de despachante…
Coitada! A titia saiu da igreja fungando, com um lencinho rendado entre os dedos delicados. De cabeça baixa, quase bateu de frente com um empresário que vinha chegando, arcado sob o peso de uma enorme maleta 007. Foi para a capela lateral e ajoelhou-se diante de São Celestino V. E deitou falação:
– Socorro, meu santo! Minha empresa está um caos! Ninguém obedece às normas internas. Meus sócios puxam cada um para seu lado, numa terrível luta pelo poder. Venho pedir-lhe que faça de mim um homem forte e poderoso. Que eu possa governar com mão de ferro e levar a empresa ao sucesso…
O velho, a cervical dolorida sob o peso da mitra, tossiu seco e disse “não” com o indicador da mão direita. E respondeu:
– Eu fui Papa, meu filho, e não quis tomar parte em conchavos com os políticos e poderosos de meu tempo. Por isso mesmo, renunciei ao trono de Pedro depois de menos de seis meses de governo. Assumi em 27 de julho e pedi demissão em 13 de dezembro. Meu anel de pescador ficou lá no piso de mármore. A última coisa que eu quis neste mundo foi o poder, o mando, a dominação. Para dizer a verdade, ninguém deveria usar a fé para acumular poder. Passe bem!
Nisso, ouvi aplausos. Ergui a cabeça e vi quem aplaudia: Santa Teresinha, com sua cruz florida, São Sebastião, crivado de flechas, e o Santo Cura D’Ars, todo pele e osso. Do alto do crucifixo, ferido e ensanguentado, Jesus Cristo, estranhamente, sorria.
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