Quando as crianças cantam

Publicado por Antonio Carlos Santini 27 de abril de 2026
ISJ

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Esta manhã, brotou de minha memória, sem nenhuma autorização, a cantiga de encurtar caminho, típica dos grupos escoteiros, que nós cantávamos nos tempos de ginásio, no Instituto São José, de Conceição do Rio Verde. Cito de memória, sujeito a algum lapso:

Yu-caidi, Yu-caidá,

Yu-caidi ai-di aidá

Yu-caidi, Yu-caidá,

Yu-caidi ai-di aidá

Nos meus onze anos, cantávamos a versão feita pelo padre-poeta-músico-arquiteto DANTE ANGELELLI, da congregação dos Padres de Bétharram:

Pelos campos ao redor

Yu-caidi Yu-caidá

Vamos todos caminhar

Yu-caidi ai-dá.

 

Não há brilhante de bazar

Que se possa comparar

Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá

Ei!

 

Yu-caidi, Yu-caidá,

Yu-caidi ai-di aidá

Yu-caidi, Yu-caidá,

Yu-caidi aidá

 

Não existe outro farol

Yu-caidi Yu-caidá

Luzidio como o sol

Yu-caidi ai-dá.

 

Ele aclara, norte a sul,

Esse etéreo mar azul

Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá

Ei!

 

A alegria dentro em mim

Yu-caidi Yu-caidá

Tem perfume de jardim

Yu-caidi ai-dá.

 

Tudo canta, tudo ri,

Tudo pula qual saci!

Ei-lá / ei-lá / ei-lá ei-lá ei-lá

Ei!

A composição original vem das comunidades bascas na França. Foi lá nos Pirineus, em seu tempo de seminarista, que o italiano Dante Angelelli conheceu a canção. Digitei no Google: yu-caidi yu-caidá chanson basque française. E surgiu uma gravação infantil deliciosa. Podem conferir.

Quando o professor canta com os alunos, fica em suspenso a ordem hierárquica, pois todos respiram juntos e cantam no mesmo tom. E o aluno pode ver o mestre como um companheiro, um igual.

Sempre cantei com meus alunos, usando a música como recurso didático. Trabalha-se a fonação, a dicção, metro, ritmo e rima. Quando eles me viam chegar com o violão, já ficavam animados…

A exclusão do Canto Orfeônico do currículo escolar foi um pecado mortal. O maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), talvez nosso músico mais respeitado no planeta, utilizou o canto orfeônico como ferramenta pedagógica e política central no Brasil, oficializando-o na educação pública a partir de 1932. Com foco na construção da identidade nacional, o projeto unia canto coral, disciplina e civismo, culminando em concentrações orfeônicas com a participação de milhares de estudantes.

Ainda me lembro do arranjo feito por Villa-Lobos para uma canção indígena, Canindé Yune [Arara azul], que cantamos já em Passa Quatro, 1959, sob a regência do Pe. Michel Callerot:

Canindé Yune

Kwê-kwá-kwa

Kwê-kwá-kwa…

Voltando ao Yu-caidá, notem que aos 11 anos de idade cantávamos adjetivos como “luzidio” e “etéreo”. As crianças cantam aquilo que os adultos passam para elas. E pelo que vejo atualmente, na pornofonia midiática, parece que os adultos merecem ficar de castigo…

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