Tamanho da Letra: [A-] [A+]

XVIII – A roda gigante

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia
data: 25/09/2013

E de fato a caminhada continuou. Frequentava um psiquiatra e psicanalista, tomava uns remédios após certo tempo parado, mas não achava que aquilo ali era realmente o que me curava. Fui retomando a vida passo-a-passo. Voltei a frequentar as aulas do mestrado, e vi que dava conta de lidar com os estudos e com a socialização na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Retomei as conversas com alguns amigos, daí vieram as saídas, diversão. A vida ia me conduzindo de volta a uma vivência sem dores ou traumas.

Depois de muito tempo afastado do trabalho, em fins de 2009 vi um cartaz convocando para trabalho numa Livraria. Eu cursava o mestrado sem bolsas, precisava de um trabalho para não viver dependente, decidi encarar a oportunidade. Foi aí que se iniciou o ciclo de minha vida no universo livreiro. Era uma livraria de venda de livros didáticos, novos e usados, e rapidamente me adaptei e me tornei um bom vendedor. Além disso, trabalhando ali, no centro da cidade, tive contato com vários tipos de clientes e colegas de trabalho que se tornaram amigos.

Eu voltara a viver na plenitude, sem resquícios de toda aquela experiência profunda de ir às raias da loucura, e também sem as sequelas de uma depressão que me paralisou por quase um ano. Se perguntarem por aí, dirão que foi consequência do tratamento psiquiátrico, eu já não confio tanto nessa dita ciência, creio que minha alma, corpo e espírito levaram certo tempo para se reequilibrar e poder continuar a caminhada e o aprendizado da vida.

Como que por mágica as coisas fluíam numa intensidade ótima. Acordava às cinco da manhã para escrever minha dissertação de mestrado, trabalhava no mínimo oito horas como vendedor, à noite ainda escrevia quando dava tempo, e todas as outras camadas da vida se ajeitavam. Eu voltei a ser aquele cara comunicativo, alegre, vivia plenamente cada instante. Novas mulheres apareceram em minha vidam, algumas causando maior desejo, outras apenas como fugidios amores de uma noite.

Eu vivia agora com outra visão, já tinha passado por tanta coisa, que sabia dar o valor às coisas certas. A humildade de recomeçar, valorizando cada pessoa no caminho, como um igual, independente de todo preconceito, e descobrir os caminhos da felicidade. Era mágico para mim conseguir reconstruir minha vida assim, aos poucos até o lado financeiro melhorava.

Em fevereiro de 2010, ainda trabalhava nessa livraria, e fiz uma festa de aniversário pra ninguém botar defeito. Chamei todos os amigos de todas as esferas, e muito chopp, alegria e violão. Era uma comemoração íntima para mim do meu renascimento. Estava confiante e alegre, em paz com meu eu íntimo.

A alegria brotava novamente em minha vida, me tornava novamente cercado de amigos, nos bares da vida conhecia gente nova. Experenciei conhecer o lado bom da vida, tudo fluía bem com família, amigos, trabalho. Fui me tornando mais confiante, e cada vez mais desconfiado em ter que ir ao psicanalista e tomar remédios.

Um dia, não sei bem quando, tomei a decisão de parar com os remédios. Sentia-me equilibrado e pronto para essa decisão. Já havia mudado de emprego, e no novo emprego as coisas também se encaixavam muito bem. Foi um tempo de bem-aventurança. O antigo “eu”, historiador, transmutara-se em um bom vendedor, ótimo em firmar relacionamentos. Conhecera uma pessoa, entre um emprego e outro, que despertou novamente a chama do amor em minha vida.

Foi uma história complicada, quando a conheci ela tinha um relacionamento. Mas a empatia foi total desde o primeiro encontro. Começamos a ficar juntos e ela ainda tinha um namorado. Era uma situação atípica, mas meu coração me mandava investir naquela pessoa, cujos olhos me cativavam, transparecendo a essência de uma alma pura, profunda e melancólica. Passei por situações complicadas até ela conseguir se desvencilhar do outro relacionamento, mas vivi dias muito felizes e de muito amor a seu lado. Ela me inspirava a ser meu “eu” profundo, a me dedicar à escrita e ao meu lado musical, eu a apoiava em todos os momentos. Foi de fato uma bela relação que acalentou minha alma e meu coração. Se tudo ia bem, para que ficar refém de remédios e médicos, eu pensava. E me libertei. Não sei bem quanto tempo levou entre eu começar e parar os remédios, mas sei que vivi muito bem alguns anos sem eles.

Passou este relacionamento, com final um pouco complicado, mesmo assim nada que me abalasse. Voltei a ficar solteiro, conhecer outras mulheres. No trabalho, um ascensão rápida, em um ano ganhei um novo cargo. Neste novo cargo viajaria pelo interior de Minas Gerais, fazendo divulgação de livros. Mais um ponto para minha reconstrução. Sentia-me bem, e nem de longe temia a vinda de outros surtos ou crises.

Outro ano chegava, e me envolvi com outra pessoa, colega de trabalho, começando outro relacionamento. Novamente o coração foi tocado pela beleza e simplicidade de um olhar, que se mostrava melancólico. Eu tinha uma atração por esse tipo especial de olhar, pois parecia uma missão desfazer aquela melancolia com a doação do amor. Novamente, veio outra ascensão no trabalho, passei a ser Supervisor, com muitas funções e projetos.

Tudo fluía muito bem, emprego, relacionamento, família, era impressionante ver a vida com tanto brilho e poesia, e deixar nos fantasmas do passado as crises. No meu íntimo eu contava o passar dos anos. Segundo as teorias, se eu passasse cinco anos da primeira crise, a possibilidade de ocorrem outras seriam mínimas. Estava no quarto ano, em 2012, e não havia nada que apontasse a possibilidade de reviver aquelas situações. Eu acreditava  controlar minha mente e a equilibrava. Mesmo vivendo num ritmo acelerado, muito trabalho, viagens, tarefas, obrigações, namoro, família. Dava conta de tudo de uma forma tranquila.

Bom, pelo menos eu achava que dava conta. Em outubro de 2012 começou um novo ciclo em minha vida. Primeiramente fui atacado por hérnias na região cervical. Algo muito impressionante para minha idade, pois quase todas as vértebras de minha cervical tinham protusões de hérnia. Logo no momento em que um evento que eu organizava estava prestes a acontecer, logo no momento em que os projetos fluíam, fui atacado pelas hérnias. Cheguei a apresentar minha palestra suando frio de dor e fui direto para o hospital. Já havia sido medicado antes por minha mãe que é médica, mas foram novas injeções, e depois fisioterapia. Fiquei afastado por um tempo do trabalho por causa das hérnias. Voltei ao trabalho, mas dali para frente minha vida entrou em outra roda-gigante. Os fantasmas estavam ali, dormindo, esperando uma oportunidade de acordar e voltar. E voltaram, de formas ainda mais fortes, com experiências inconscientes de profunda conexão espiritual, misturadas em fortes doses de psicoses…

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Memórias Psicologia

Bill Braga -
Deixe um comentário