Corpus Christi – parte I

Publicado por Sebastião Verly 3 de junho de 2026
Imagem Corpus Christi

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No próximo dia 4 de junho, as religiões cristãs celebram o dia de CORPUS CHRISTI que é entendido simplesmente como Corpo de Cristo. A celebração ocorre sempre 60 dias após o Domingo de Páscoa e, por essa razão, é realizada obrigatoriamente em uma quinta-feira.

Na lembrança de minha infância e adolescência quando participava da celebração de CORPUS CHRISTI em Pompéu, me veio a pergunta: o que significa CORPUS CHRISTI?

No dia consagrado ao Corpus Christi, quando o calendário anuncia o início de junho e o frio envolve as madrugadas, a cidade de Pompeu se veste de solenidade. É como se cada pedra das ruas, cada janela ornamentada, cada flor colhida fosse parte de um grande ritual que atravessa séculos e continentes. As ruas, quase sem trânsito, se transformavam em cenário de devoção. Nas janelas, toalhas brancas e vasos de flores enfeitavam as casas. Algumas famílias improvisavam pequenos tapetes de folhas e flores para marcar a passagem da procissão. Nas janelas das casas eram penduradas as mais belas toalhas brancas presas com vasos de flores.

O trânsito neste feriado era muito pouco. As ruas estavam livres e algumas famílias ornamentavam o piso das ruas em frente de suas casas com um arremedo de tapete bastante simplório. Em Pompéu, cada tapete, cada flor, cada gesto simples permanece vivo na memória. É uma herança que nos lembra que a fé pode ser expressa nas pequenas coisas, e que a tradição é construída pela comunidade que se reúne, ano após ano, para celebrar.

Em Pompéu, a simplicidade da comunidade dá à celebração um encanto singular, feito de fé genuína e memória viva. À tardinha, com o dia começando a escurecer a procissão parte da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. O cortejo avança pela Rua José Maria de Carvalho, segue pela Messias Jacob, atravessa a Praça Levi Campos e percorre a Avenida Capitão Joaquim Antônio, até retornar à Igreja Nossa Senhora da Conceição. É um caminho que não se mede em metros, mas em devoção.

Algumas famílias improvisavam pequenos tapetes de folhas e flores para marcar a passagem da procissão. As janelas se transformam em altares improvisados: toalhas brancas rendadas tremulam como bandeiras de fé, vasos de flores exalam perfumes que se misturam ao incenso. Os tapetes, ainda que singelos, são testemunhos da criatividade e da esperança de um povo.

Recordo a renda branquíssima na casa de Joaquim do Noé, ateu de convicção, mas herdeiro da tradição católica e o tapete singelo sobre os paralelepípedos da Avenida Capitão Joaquim Antônio em frente à casa da Adelaidinha, filha da dona Zizinha, feito de folhas e flores recém-colhidas, como se a própria natureza se curvasse diante da imagem do Santíssimo.

Cada tapete é mais que ornamento: é testemunho, cada flor é mais que enfeite, é memória. Cada procissão é mais que rito: é epopeia. Em Pompéu, como em tantas cidades, crianças, jovens e adultos passavam a madrugada juntos, transformando fé em arte.

Assim, ano após ano, Pompeu revive sua própria epopeia, a festa que transforma ruas em altares, flores em símbolos, e a memória em eternidade. Tudo muito simples, mas havia muita fé e eu mesmo caminhava descalço pagando promessa…

Acabo de saber que Montes Claros, neste ano toda a liturgia será feira no Parque e sem maiores complementos. Até o período da pandemia da COVID, o dia de Corpus Christi, em Montes Claros, era um dia santo lindo, com todo o ritual, além de arrecadação de alimentos e cobertores que eram distribuídos para as pessoas carentes. Havia também um encontro, além da procissão que ia da Igreja Matriz até a Catedral, encontro de pessoas cristãs, onde era servido um lanche e pipoca para as crianças.

Em Belo Horizonte, o cortejo religioso parte da Igreja da Boa Viagem, desce pela rua Alagoas e segue pela Avenida Afonso Pena, com o arcebispo sob o Pálio, caminhando sobre os belos tapetes elaborados desde a madrugada. Durante a procissão, todo mundo com velas acesas, sempre acompanhada por sinos e músicas até entrar na Igreja de São José, onde uma imensa multidão aguarda pacientemente. Foi daí que resolvi pesquisar sobre esta solenidade religiosa tão marcante na vida cristã. O resultado ficou extenso, mas o suficiente para trazer muitas informações sobre o evento.

Essa tradição atravessa mares e séculos. Conta a lenda que Padre Pedro de Praga, da Boêmia, que duvidava da presença real de Cristo na hóstia, durante a consagração uma hóstia consagrada começou a sangrar, manchando o corporal. A origem remonta ao século XIII, quando, o então, Papa Urbano IV, que residia em Orvieto próximo a Bolsena, foi informado do milagre e solicitou que o corporal fosse levado até sua cidade. Após testemunhar a relíquia, o Papa Urbano IV instituiu a festa de Corpus Christi como uma festa universal da Igreja.

A celebração de Corpus Christi é marcada por procissões, onde o Santíssimo Sacramento que representa a hóstia consagrada, é levado em procissão pelas ruas, acompanhado de fiéis com velas acesas, sinos tocando e música. Corpus Christi pretende celebrar a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, ou seja, a crença de que, durante a celebração da Missa, o pão e o vinho se transformam no Corpo e Sangue de Cristo.

A celebração de Corpus Christi inclui Missas solenes, com a participação de padres, diáconos e outros ministros, além de cânticos e orações. O fato é registrado, na Renascença, no trabalho realizado entre 1495 e 1498, por Leonardo da Vinci, no afresco que se encontra no refeitório da igreja-convento Santa Maria Delle Grazie, em Milão, Itália.

A principal atração do Corpus Christi são os lindos tapetes, confeccionados pelos fiéis para a realização da procissão ao final do dia. A preparação para Corpus Christi inclui oficinas para a criação dos tapetes, onde as comunidades se reúnem para criar obras de arte devocionais. Os moradores passam a semana organizando o material para que a confecção dos tapetes flua. Preparam as caixas com flor cipreste, flor de mel, pétalas de rosas e margaridas. Flores em tons de verde, amarelo e azul.

Em muitas cidades, artistas locais dão uma contribuição efetiva na confecção dos tapetes. A celebração é ecumênica. Reúne católicos, luteranos, moradores com e sem religião e artistas que moram no distrito. Todos se unem em torno de um único objetivo. São realizadas, também, oficinas para que essa tradição seja mantida de geração em geração.

Os moradores dessas cidades passam a noite em claro. Um lindo processo que vira uma festa da comunidade, quando é garantido um café coletivo para os voluntários. Todos abrem seu coração para acolher os visitantes que começam a chegar com o clarear do dia ou passam a noite na localidade!

Pela manhã, quando os tapetes são concluídos, o visual é impactante!  As flores fazem o acabamento. O rito dos tapetes é uma arte efêmera, destinada a desaparecer sob os passos da procissão, mas que permanece viva na memória coletiva. O chão se torna tela, e a fé, pincel. Antes de ser padronizada pelo catolicismo, essa prática surgiu na Bélgica em meados do século XIII. O que nos traz a falar sobre o feriado é a imigração açoriana no Brasil que difundiu a cultura de enfeitar as ruas tendo em vista a procissão da Eucaristia.

Continua na parte II

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