Rua dos aflitos

Publicado por Antonio Ângelo 18 de julho de 2026
Guaicurus
Guaicurus
Pintura em tela de Benício Cunha

 

Pelo nome se sabe que não és uma,

és várias, és todas,

Rua dos Guaicurús.

 

És a fantasia que se perde

nas correntezas do Arrudas,

a palavra no muro pichada

nos tempos da ditadura

(ainda legível).

És o corpo no asfalto,

sangue entre cereais.

És músculos sob tensão,

suor em bicas sobre a pele

inquietude das mãos.

 

Certamente não és a mulher

do interior recém-chegada

que desce rapidamente do táxi

e entra pelo portão da casa

em alameda de antiga nobreza.

 

És mais do que supomos:

estudantes nas madrugadas

em farras ensandecidas

à semi-luz aprendendo lições

que os livros descuidam;

pobres garotos temerosos

no anseio da primeira transa.

 

Não te reconhecer? Ninguém pode.

Desde sempre ali estás,

um capítulo que a história renega.

Ainda que exalando o cheiro do rio

que próximo corre imundo

e em teus cubículos não findando

histórias de medo e dor,

tremula em sórdidas madrugadas

o roto estandarte exposto

que demarca a república de homens

que buscam despidos de ternura

o inadiável gozo em mulheres aniquiladas.

 

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