
Pintura em tela de Benício Cunha
Pelo nome se sabe que não és uma,
és várias, és todas,
Rua dos Guaicurús.
És a fantasia que se perde
nas correntezas do Arrudas,
a palavra no muro pichada
nos tempos da ditadura
(ainda legível).
És o corpo no asfalto,
sangue entre cereais.
És músculos sob tensão,
suor em bicas sobre a pele
inquietude das mãos.
Certamente não és a mulher
do interior recém-chegada
que desce rapidamente do táxi
e entra pelo portão da casa
em alameda de antiga nobreza.
És mais do que supomos:
estudantes nas madrugadas
em farras ensandecidas
à semi-luz aprendendo lições
que os livros descuidam;
pobres garotos temerosos
no anseio da primeira transa.
Não te reconhecer? Ninguém pode.
Desde sempre ali estás,
um capítulo que a história renega.
Ainda que exalando o cheiro do rio
que próximo corre imundo
e em teus cubículos não findando
histórias de medo e dor,
tremula em sórdidas madrugadas
o roto estandarte exposto
que demarca a república de homens
que buscam despidos de ternura
o inadiável gozo em mulheres aniquiladas.
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