Canto para os que partem

Publicado por Antonio Ângelo 24 de abril de 2026
Espinhaço

Espinhaço

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Onde – não sei

hão de arriar suas mochilas?

No bosque à beira do riacho?

À sombra de um ipê florido?

À entrada de uma caverna?

 

Chegou a hora de partir!

 

Caminhando rumo ao horizonte

no altiplano

sob a sombra fugidia das nuvens

que acima perambulam

 

Chegou a hora de partir!

 

Surgem matagais

pássaros, buritizeiros, chuva

o arco-íris, um diadema

sobre seus corações juvenis

indômitas fibras pulsantes

 

Chegou a hora de partir!

 

Mãos dadas, não se largam

caminham sem parar

sempre  em frente

sem olhar para trás

 

Chegou a hora de partir!

 

Muitos perceberão quando

na paisagem do povoado

não mais seus cumprimentos

suas canções matinais

brincadeiras ao anoitecer

suas passadas, seus sapatos gastos

marcando o barro dos becos

o namoro à penumbra dos alpendres

 

Chegou a hora de partir!

A timidez dele, seus olhos inquietos

dela, longos cabelos ao vento

o inocultável desejo de fugir

dos que desconhecem fervores outros

que o das trocas vantajosas

 

Chegou a hora de partir!

 

Por certo perguntarão:

por que não ao menos um adeus?

Nem um gesto em que se percebesse

que estavam a partir?

Nenhum relato de quando depois do último quintal

seguiram para rumo desconhecido?

 

Chegou a hora de partir!

 

O que os espera, pouco importa

quer sejam pântanos

ventos a varrer os vales

quer a sanha de animais

fome, sede, repentinas tempestades

 

Chegou a hora de partir!

 

Vão em busca de um tempo de desvelos

num local sem olhares de censura

onde enfim hão de se descobrir

entre intimidades, conluios

sequência de presentes desdobráveis

ímpetos, entregas e fetiches

 

Chegou a hora de partir!

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