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Velórios

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano, Crônicas
data: 06/04/2010

Velórios

Até algum tempo eu tinha pavor da morte e detestava ir a velórios. Eu dizia, como justificativa, que em velório eu só iria ao meu e assim mesmo porque seria obrigado, ou melhor, levado.

Depois de ler a obra “Solidão dos Moribundos”, de Norbert Elias, tornei-me mais realista e passei a aceitar mais naturalmente a morte.

E assim, passei a tratar o assunto como outro qualquer. No cotidiano, converso com as pessoas e falo da morte e do velório como uma coisa comum em nossa vida.

Num dia desses, jogávamos conversa fora no trabalho e surgiu o tema morte e velório no interior.

Lembramos que até bem pouco tempo, no interior, os velórios eram feitos em casa. Minha interlocutora lembrava que em sua cidade, até há um ano atrás, os velórios eram locais de negócios, de matar saudades e até de começar namoros. Conhecidos que há muito não se viam, no velório reencontravam-se e trocavam elogios em forma séria ou de brincadeira. Notícias de parentes ou amigos comuns. Os visitantes chegavam, entravam livremente, passavam pelo defunto esticado ali na sala. Uma rápida olhada, os primeiros cumprimentos e, naturalmente, se dirigiam para a cozinha ou para o quintal, abraçando para dar os pêsames aos familiares no caminho. Lá fora, cada um se ajeita como pode. Assentam na mureta, agacham sobre as botinas. Uns poucos privilegiados conseguem uma cadeira ou um velho banquinho. Logo, logo, começavam as piadas e os negócios corriam soltos. Venda de gado, aluguel de pasto, visitas pessoais, pedido de emprego e todos os tipos de transação. E em alguns momentos, o falecido chegava a ficar sozinho ou apenas com o parente mais próximo, quando os amigos não conseguiam colocá-lo para dormir. Repetiam-se as frases costumeiras: “Deus sabe o que faz”; “Esse é o fim de todos nós”; “Foi melhor assim”; “Descansou”!

Lembrei-me de um parente que me contava que em Pompéu, nossa terra natal, o velório era momento de oferecer o que havia de melhor dos doces e das “quitandas” aos presentes. Muitos salgados, doces, bolos, sucos, café e café com leite. Assim, numa certa vez faleceram pessoas de quatro famílias diferentes em um acidente e os visitantes, a pé, de bicicleta e até de automóveis, encontravam-se no itinerário de um velório para outro e trocavam informações sobre o “bufê” da origem e do destino. No cruzamento dos freqüentadores decidia-se para onde ir passar o resto da noite.

Também lá na nossa cidade existia o Concesso, que era um antigo funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem, DER, que se dispunha a pedir adjutório para o enterro dos pobres. Depois de recolher o suficiente para despachar o falecido, reuniam-se ali na sala e rezavam terços e terços, na falta de um assunto melhor. Certa noite, morreu um pobre que morava num casebre, ali na Volta do Brejo, na época um bairro pobre, e o Concesso saiu em campo num dia de frio e só conseguiu o estritamente necessário para pagar o funeral. A noite demorava passar. Já haviam rezado mais que o suficiente. E nada do dia amanhecer. Concesso resolveu arrecadar umas moedinhas para comprar uma garrafa de cachaça para agüentar o resto da noite e o frio da madrugada. Enquanto cada um dos pobres presentes buscava no fundo do bolso a solicitada contribuição, a viúva se propôs a ver no fundo da mala se tinha uma moeda de “dez tões”, que eram dez centavos de cruzeiro, para ajudar.

E o Concesso com aquele jeitão de pureza e autoridade:

- Não, dona Naná, de jeito nenhum, a senhora já entrou com o mais importante que é o defunto!

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Denise Paiva

    Prezado Sebastião,

    Eu nasci em Juiz de Fora mas fui criada na pequena cidade de Lima Duarte. Os velórios eram feitos em casa e tinham uma função agregadora e como nos ajudava a minimizar a dor pela perda dos nossos entes queridos. Inda agora na semana santa, em reunião de familia recordamos dos velórios com boas risadas e muita saudade. Bules de café, coados no fogão de lenha, pães de queijo, broas de fubá, e muito mais coisas não poderiam faltar num velório digno. E, ainda os cantos que transpunhamos para nossa sala principal, que intercalavam os terços. Cantos como: Com minha mãe estarei….. Coração Santo, tú reinarás.
    Quando eu morrer eu quero um velório em casa, à moda antiga, nem que tenha que, para isto, ser enterrada no interior. Fica aqui, neste portal registrado meu desejo.

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