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Na Bolsa Desta Mulher Cabe Um Mundo

Publicado por Roberto Lima em Cotidiano, Crônicas
data: 24/11/2009

Na Bolsa Desta Mulher Cabe Um Mundo

Cabe um mundo dentro da bolsa de uma mulher. De todos os lugares curiosos deste planeta, a bolsa de uma mulher é, certamente, um dos mais peculiares e misteriosos. O que cabe dentro da bolsa de uma mulher? Cabe uma desorganização organizada, comecemos por aqui.

Como conseguem colocar tanta coisa dentro daquele minifúndio, é uma pergunta que desafia as leis da física e da imaginação.

Cabe um telefone celular, certamente.

Cabe um batom.

Cabe uma escova para os cabelos, posto que mulher gosta e quer estar sempre bonita.

Cabe um perfume bom, um Dolce Gabbanna ou um Bulgari. Em alguns casos, cabem os dois. Ou três. A mulher moderna gosta de andar sempre perfumada.

Cabe também utensílios de beleza, lápis para realçar a cor dos olhos, rouge e carmim.

Produtos inerentes ao universo feminino abundam na bolsa desta mulher: lixa para as unhas, fio dental, absorventes higiênicos para eventuais emergências, comprimidos para dor de cabeça e TPM.

Cabe um estojo de lentes de contato ou de aparelho ortodôntico, daqueles usados na hora de dormir.

Na bolsa desta mulher cabe uma embalagem com lenços de papel, para momentos de emoção.

Cigarros de filtro branco – se esta mulher fumar -, chicletes de mentol, isqueiro e uma barrinha de chocolate.

Um amuleto. Uma oração para proteção. Um escapulário. Cabe uma fé.

Cabe um bloquinho para anotações onde ela aponta situações, citações e frases que a marcaram.

Cabe uma agenda bonita, destas que abundam nas papelarias, com capa de papel duro e de design de última geração.

Na agenda desta mulher estão endereços e números relevantes, receitas de beleza e dicas de compras.

Óculos escuros, certamente, tem o seu lugar garantido na bolsa de uma mulher destes tempos.

Na bolsa desta mulher encontramos ainda sua carteira, sempre cheia de coisas que vão desde recibos de lojas, a cartões de crédito e fotos de pessoas queridas.

Uma foto da pessoa amada povoa, certamente, a carteira da mulher moderna. Afinal, a mulher moderna ama. Ainda ama. É inerente a alma feminina o amor e tudo que lembre esse ofício cada vez mais difícil.

E cabe, então, uma carta de amor. Ou duas.

Cabe um amor, e todas as suas delícias e dores.

Na carteira desta mulher estão todos os seus documentos: carteira de identidade, de motorista e CPF.

Na bolsa desta mulher cabe um livro. Cabe uma revista, destas direcionadas ao público feminino. Cabe uma curiosidade insaciável.

Cabe um aparelho de MP3 com a trilha sonora de sua vida: cabe U2, Morcheeba, Seal, Caetano e Djavan. Um universo de canções.

Muito mais que objetos e coisas, a bolsa de uma mulher carrega sonhos, reminiscências dos tempos e lugares por onde sua dona plantou seus pés.

Não é inverossímel encontrar um postal de Matchu-Pitchu, um mexedor de mojito guardado como souvenir de uma passagem pela Bodeguita Del Medio, em Havana, uma caixa de fósforos do Balthazar em Manhattan, uma caneta com a logomarca de algum hotel de algum lugar distante de onde essa mulher possa viver.

Cabem reminiscência da infância e passagens marcantes do quintal de seus avós.

Cabe o sabor de uma carambola ou de um abacaxi no palito. Cabe o vôo de uma ave. O arrebatamento prateado de um peixe. O afago de um cão. Cabe uma brisa do mar do Caribe. Cabe uma pedra catada da rua. Um anel de bijuteria e um colar.

Na bolsa desta mulher cabem saudades do passado e planos para o futuro.

Na bolsa desta mulher cabe a saudade do futuro.

E o futuro.

Na bolsa desta mulher cabe uma mulher que é ela própria.

Na bolsa desta mulher cabe um mundo.

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Roberto Lima - nasceu em Pedra Corrida, Minas Gerais. É o atual presidente da Associação Brasileira de Imprensa - Internacional (ABI – Inter). Jornalista e escritor, publicou Colosso Ciclone e Tango Fantasma. Residente em Newark, New Jersey, nos Estados Unidos, desde 1984.
Comentário
  1. Vanessa Costa-Natal-RN

    Na bolsa desta mulher cabe o calor de um ha-braço,um coração pulsante, segredos, desejos, um trecho de luz azul, a insistência da vida e como o próprio poeta descreve: O futuro. amorosamente belo.

    aplaudo-o bem de pertinho, cá dentro de minha bolsa, de meu mundo.

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