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A música que toca sem parar

Publicado por Roberto Lima em Crônicas, Futebol, Literatura
data: 12/08/2009

Cena Um

Entro no vôo Tam, que me levará a São Paulo. Dentro do meu coração toca um samba. Antevejo o encontro com amigos queridos, uma festa em azul e uma carreata apoteótica pelas ruas de meu destino final.

Desembarco em São Paulo e reembarco quase que imediatamente para Belo Horizonte, onde Pedro Santana me espera. Vamos até sua casa, tomo um banho para tirar a poeira de Nova York e retorno ao aeroporto para receber o cantor Renato Braz, que vem de São Paulo para se juntar a nós, nesta festa que se anuncia inesquecível.

Na volta ao aeroporto de Confins já não tenho a companhia de Pedro, mas de seu pai Euler. Estamos animados.

O burburinho indica que algo de grandioso está para acontecer. É sempre assim nos momentos que antecedem a grandes acontecimentos. Fica aquela atmosfera diferente. Aquele cheiro de inusitado no ar.

Renato atravessa o saguão do aeroporto e recebo um abraço afetuoso, falamos bobagens, cantarolamos uma melodia que entoamos todas as vezes que nos reencontramos, uma canção de amigos.

Testemunhamos uma manhã bonita na capital de Minas Gerais. O céu está azul, poucas nuvens. Flerto com os buritis na paisagem à beira da Linha Verde, e meu pensamento viaja pra longe, como se buscasse uma brisa de mar.

Dentro de meu coração toca um samba.

Cena Dois

Telefonamos para o compositor Celso Adolfo ainda no carro. Ele se junta a nós no Mercado Central. Entre frutas, carnes dependuradas em ganchos de alumínio, peças de artesanato e vozerio das pessoas, arranjamos uma mesa de fundo no Restaurante Casa Cheia. Conheço bem esse lugar.

Cerveja, cachaça, canjiquinha com costelinha defumada, jiló com picadinho de pernil na chapa, indulgências que saciam muito mais que a fome. Não se é mineiro impunemente.

Cafezinhos, cigarro de palha, água mineral, um passeio para comprar queijo e pinga da boa pra levar na bagagem, euforia…

Passo no apartamento de Juan Pablo Sorín para apanhar meu bilhete para o paraíso. Pego no colo sua filhinha Elizabetta, apanho uma tangerina na fruteira, bebo água e espero um café de máquina.

Dentro do meu coração toca um samba.

 

Cena Três

Chegamos ao Mineirão: 61 mil pessoas superlotam o Gigante da Pampulha. Fogos, fumaça azul, cantos de guerra. Fumo um “Parliament” atrás do outro.

O Cruzeiro entra em campo. Logo no primeiro minuto, o gladiador Kléber é atingido com violência na lateral do gramado. O juiz nem marca falta. Tenho um pressentimento ruim.

O jogo se arrasta nervoso e sem brilho. Minha agonia se alastra dos pés até o último fio de cabelo. Começo a ter pesadelos de olhos abertos. Diante de mim passam cenas do maracanaço de 1950 e do desastre de Sarriá, em 82, na Espanha.

O Estudiantes catimba o jogo. O árbitro tem uma atuação pífia. Verón come a bola no meio de campo e dá uma cátedra para quem quiser ver; Ramires some da partida, parece já ter partido para Lisboa; Kléber fica isolado e a bola não chega; Gerson Magrão é uma caricatura de lateral esquerdo. “Coloca o Sorín, Adilson!” Grito. Esbravejo! Mas ele parece não me ouvir. Sofro!

No entanto, por um breve instante, chego a pensar que Deus é brasileiro. Henrique acerta um petardo de fora da área. Explode uma fumaça azul nas arquibancadas. Parece que a festa acontecerá, finalmente. Inicia-se uma espécie de dominó humano.

Torcedores caem uns sobres outros.

Desabo sobre Renato Braz, que tenta me amparar e também cai. Mas é gol! Gooooooooooooooooooooool!

Alegria passageira, como um amor de verão, o Estudiantes empata logo a seguir e vira o jogo num espaço de minutos. Silêncio nas arquibancadas. Procuro escutar a alegre batucada que me acompanhou desde o momento que saí do aeroporto JFK, mas nada escuto, além de uma voz a sussurrar que Deus é argentino.

O samba parou de tocar, é fato.

Mas argentinos Dançam no tapete verde do Mineirão. O que dançam eles?

Cena Final

Num bar da Avenida do Contorno, comemos e bebemos em silêncio. Belo Horizonte está deserta. Os derradeiros boêmios chegam para a saideira. Minha cabeça está vazia e consigo sentir uma cratera erodindo em meu peito. Fecho os olhos, busco uma música, qualquer música, para me alentar. E eu a escuto.

Dentro de mim toca um tango!

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Roberto Lima - nasceu em Pedra Corrida, Minas Gerais. É o atual presidente da Associação Brasileira de Imprensa - Internacional (ABI – Inter). Jornalista e escritor, publicou Colosso Ciclone e Tango Fantasma. Residente em Newark, New Jersey, nos Estados Unidos, desde 1984.
2 Comentários
  1. Silvio Miranda - Governador Valadares - MG

    Gostaria de parabenizar o autor que realmente escreve inspirado. Eu, mesmo sendo atleticano me deixei envolver pelo texto e senti a desolação narrada. Mas percebo pelo seu curriculo Roberto que você tem um Tango Fantasma te acompanhando. No final da leitura eu também fiquei com o tango na cabeça. Sugiro aos outros leitores que curtam a cena do Tango com Al Pacino em “Perfume de Mulher”, simplesmente inesquecível:
    http://www.youtube.com/watch?v=XSIvWzhLrT8

  2. Silvio Miranda - Governador Valadares - MG

    Roberto, sei que você gosta do Al Pacino. Para te ajudar a se livrar do fantasma desse tango, sugiro um passodoble, El Relicário, com a cena da Ferrari, no mesmo filme, Perfume de Mulher.
    Aperte os cintos.
    Lá vamos nós:
    http://www.youtube.com/watch?v=wR-VSDRefdE

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