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Uma verdadeira aula de direitos humanos

Publicado por Denise Paiva em Cidadania, Devaneios, Políticas Sociais
data: 04/01/2018

uma verdadeira aula de direitos humanos

Neste primeiro dia de 2018 olhando as montanhas verdejantes da minha querida cidade de Lima Duarte, no coração da Zona da Mata Mineira reflito sobre os valores comunitários da solidariedade e da união, muito sólidos e presentes no meu núcleo familiar.

Aqui a gente acorda com o canto dos galos e durante todo o dia pode-se ouvir o gorjeio dos pássaros como uma orquestra suave e também o latido dos cães. À noite a gente pode mirar o céu cheio de estrelas e da minha janela eu vejo a Igreja de Nossa Senhora das Dores, de tantas promessas e tantas histórias. Músicas lindas são tocadas na igreja, todos podem ouvi-las e há uma que quando tocada já se sabe que é o anuncio de um falecimento e o convite para os funerais.

Entre primos, criados e crescidos juntos, de parede-meia, há uma relação de irmãos, então os filhos dos primos nós consideramos sobrinhos. Neste Natal eu ganhei mais uma afilhada chamada Tifany Yasmin, ela é sobrinha da Lucia que foi empregada da mamãe e filha da Lala que tem me ajudado nos afazeres da casa. E assim corre a vida com os filhos, irmãos, primos, sobrinhos, agregados e a rede de solidariedade e convivência se mantendo e mostrando o verdadeiro sentido da vida, da vida numa cidade mineira cheia de tradições e simplicidade onde vivi minha infância e adolescência, com rebeldia e liderança que até hoje é lembrada por muitos. Nos anos 60 como líder secundarista ajudei a fundar o MDB, com alguns negros, ferroviários, Arthur Pato e Paulinho Pipoqueiro.

Preciso sempre vir a Lima Duarte, para os encontros de família, para jogar conversa fora, acompanhar um violão com as músicas do passado e especialmente beber o suco das raízes da verdadeira mineiridade distante dos holofotes, das análises politicas, do dia a dia em Brasília ou no Rio de Janeiro. E sempre me recordo de Alberto Caeiro quando diz….”mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”…. Claro o Tejo não é o Rio do Peixe, este sim, passa pela minha aldeia. E o sentido de aldeia é muito vivo na minha Lima Duarte.

Ontem eu estava ansiosa para servir a ceia e alguns convidados, como Luiz e Mariléia, não chegavam . Minha irmã Elenice disse que eles só chegariam depois do Fantástico pois Maria Antonieta, a filha deles de 11 anos, iria aparecer na TV. Achei que era conversa fiada… Me enganei… era real.

Aquele rostinho lindo faz a chamada para a reportagem sobre a solidariedade das crianças por esse Brasil afora. E no mapa do Brasil aparece Lima Duarte.

(Agora, exatamente 18 horas, me emociono … ouço a igreja tocar Ave Maria em latim….)

Foi uma correria e uma choradeira, Elenice, Clarice, Elisa, Arthur vibraram em ver nossa querida Maria Antonieta (tem o nome da nossa avó) com uma fala espontânea e consistente, abraçando e brincando com os velhinhos num trabalho que ela faz todos os sábados no conhecido Albergue São Vicente de Paulo.

Nada poderia ser mais precioso para a formação do caráter de Maria Antonieta do que o trabalho voluntário que já desenvolve desde seus 7 anos com idosos e que a Rede Globo descobriu e mostrou ao Brasil e ao mundo no último dia de 2017.

O Brasil precisa se redescobrir! Menos Miami e mais Lima Duarte! O Brasil tem muitos pontos de luz e Maria Antonieta representa um ponto muito radiante, irradiando sobretudo a bondade.
Revolucionar a educação é buscar educar para os valores. Tal revolução cabe à família, à escola e à comunidade
Maria Antonieta diz que foi atuar como voluntária no Albergue junto e por incentivo da mãe Mariléia, mas ela tem também todo apoio da escola, o incentivo e o reconhecimento da comunidade e o vibrante aplauso das redes sociais que interage com ela e com toda a família.

O exemplo de Maria Antonieta já contaminou outras crianças e até politicas públicas de interação entre creches e asilos promovidas pelas Secretarias de Assistência Social e Educação do município. O Natal de 2017 foi uma verdadeira festa intergeracional. O salão de festas do Lar dos Velhinhos São Vicente de Paulo não deu conta de acolher tantas crianças.
Educar crianças no mundo dos valores, do respeito, do carinho com os mais velhos e abandonados e proporcionar aos idosos momentos de felicidade, alegria e partilha é sem duvida promover “direitos e deveres humanos”

Uma base nacional curricular deveria assegurar interações de vida real dos educandos com o mundo dos desvalidos para assegurar a formação de caráter e atitudes antídotos da violência e intolerância. Fica aqui uma sugestão de agenda para o Ministério dos Direitos Humanos cutucar o Ministério da Educação, exercendo enfim seu papel indutor e de natureza transversal nessa questão tão fundamental, Educação para os Valores, desde os mais pequeninos.
Lima Duarte, 1º de janeiro de 2018

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Denise Paiva - Pós-graduada em Serviço Social – Assessorias: Ministério da Saúde e Ação Social de Moçambique (1978-1980) - P.M.Juiz de Fora em três mandatos – Gabinete da P.M.São Paulo na Gestão Luísa Erundina (1990-1992) - de 1992 a 2005 junto à Presidência da República e Ministério da Justiça em Brasília – Atualmente é Pesquisadora e Consultora. Residente no Rio de Janeiro - RJ.
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