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“A praça é do povo como o céu é do condor”

Publicado por Christian Vitorino em Politicas Urbanas
data: 29/09/2015

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No ano de 2007, precisamente no mês de Janeiro, defendi minha dissertação de mestrado, cujo tema foi “O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal numa perspectiva de sustentabilidade territorial”. No desenvolvimento do trabalho tive contato com diversas temáticas, o que me deu uma visão holística e integrada de todo o funcionamento de um município enquanto unidade federativa.

O Plano Diretor deve sempre integrar os fatores políticos, sociais, econômicos, financeiros, culturais, ambientais, institucionais e territoriais, condicionantes da evolução urbana e territorial. O mesmo contribui para uma ocupação socialmente justa, ecológica e culturalmente equilibrada. Deve definir os usos adequados da propriedade do solo, para que cumpra sua função social e propicie o uso e a identidade característica do lugar.

Uma coisa que me chamou a atenção e se tornou uma de minhas maiores preocupações em um processo de elaboração de um Plano Diretor é o respeito às instituições locais, à população, à sua cultura e sua visão. Chamamos esta análise de Leitura Comunitária, que dá uma perspectiva a partir da visão que a própria população tem de sua cidade, de seu território, de sua comunidade.

No entanto, o que vemos no Brasil hoje é ainda uma distância muito grande desta participação, apesar de que estamos evoluindo na colaboração efetiva da população nas decisões ao nível local. Faço alusão à cidade que atualmente resido, São Paulo. A atual administração, em um processo de quebra de alguns paradigmas da cultura histórica da própria população, está chamando seus moradores para as ruas, para as audiências, para a participação. O Plano Diretor foi recentemente revisto, com mais de 50 audiências públicas, com participação efetiva das representações da sociedade.

A abertura da Avenida Paulista aos domingos para o povo, bem como a implantação das ciclovias, os eventos ao ar livre e gratuitos, dentre outras medidas, de certa forma representa a preocupação da administração local em chamar a população para as ruas, para participar mais da vida da sua cidade. Assim, ela poderá colaborar mais nas decisões ao nível da política e valorizar mais o espaço onde vive. É hora de resgatar o poeta baiano Castro Alves, prócer da luta pelo fim da escravidão no Brasil:

“A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor!

Senhor!… pois quereis a praça?

Desgraçada a populaça

Só tem a rua seu…

Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos…

Deixai a terra ao Anteu.”

Em artigo anterior neste mesmo portal, eu afirmo que São Paulo costuma ser o berço de várias inciativas, servindo de referência para várias localidades no Brasil e até no mundo. Espero que este tipo de conduta da administração pública se mantenha e se multiplique, que também sirva de referência para outros lugares, pois uma cidade tem que ser construída por quem reside nela, por quem pisa no seu chão. Afinal, é no município onde tudo acontece e você está inserido em seu contexto social, econômico, político e ambiental.

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Christian Vitorino -
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