Michel Foucault
A seguir, um trabalho intenso baseado em memórias e pesquisas.
Foram 3 dias e cerca de 32 horas de pesquisas e lembranças!
Elaborei uma mistura de lembranças, pesquisa e crítica social para mostrar a força ao DIA NACIONAL DE LUTA ANTIMANICOMIAL, mostrando que não se trata apenas de uma pauta de saúde, mas de uma questão civilizatória e de direitos humanos.
Quis mostrar que o movimento antimanicomial não se limita à saúde mental: “ele dialoga com justiça social, diversidade e combate às opressões históricas. É uma luta contra o estigma e pela afirmação de que *loucura não é crime, e cuidado não é prisão*”
Reuni o que considerei essencial para entender o motivo para a Luta Antimanicomial. Excluído obviamente do assunto, deixo de citar os EUA, onde revelação bombástica de uma recente reportagem do jornal The New York Times: a origem dos crescentes lucros de grupo econômico que atua na saúde privada, cujas ações no mercado financeiro dobraram de valor desde a pandemia, reside em uma política interna de aprisionamento forçado de pacientes em seus hospitais.
Exige coragem, paciência e força mental para ler este artigo.
Li uma vez e nem tentei reler:
O autor
Sebastião Verly – Sociólogo pela UFMG
“De médico, poeta e louco, todos nós temos um pouco”. Ditado popular. Há um “causo” contado na minha cidade de Pompéu, nos fins da década de 1950, que narra o episódio envolvendo o Nego do Soquim, uma pessoa muito inteligente e muito simpática mas que algumas pessoas, inclusive um médico novo na cidade, acharam que ele estava louco e que deveria ser internato no Hospício Raul Soares. Mas como ele era muito esperto, combinaram com seu primo o Zizinho do João Manoel para levá-lo para Belo Horizonte, mas como artimanha para que ele não resistisse, disseram ao Nego que era ele quem levaria o Zizinho para internar. E combinado assim, os dois chegaram ao Raul Soares e o Nego convenceu o Zizinho que aguardasse do lado de fora para que ele pudesse avaliar a situação, e com muita astúcia, convenceu os funcionários que ele tinha vindo internar o Zizinho, inclusive explicando que o Zizinho só tinha aceitado vir ludibriado, acreditando que, ele é que estava trazendo o Nego para internar. Zizinho depois de muito espernear e dar trabalho aos enfermeiros que tiveram que dar lhe um sedativo para contê-lo, é que acabou ficando internado. E precisou de um bom tempo para conseguir a “alta” e voltar para Pompéu onde por muito tempo virou objeto de pilhérias e gozações.
O DIA NACIONAL DA LUTA ANTIMANICOMIAL é celebrado em 18 de maio, em referência ao II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru, SP, em 1987 que reuniu grupos favoráveis a políticas antimanicomiais com mais de 350 profissionais e marcou a mobilização contra abusos em hospitais psiquiátricos.
Desse encontro, surgiu a proposta de reformar o sistema psiquiátrico brasileiro. Pela relevância daquele encontro, a data de 18 de maio tornou-se o Dia de Luta Antimanicomial. 18 de maio é mais que uma data no calendário, é um marco da resistência contra a lógica de segregação e violência que historicamente marcou o tratamento da “loucura” em nosso país. É o dia em que lembramos que ter distúrbio psicológico não é crime e que ninguém deve ser segregado por ser diferente.
O movimento antimanicomial constitui-se como um conjunto de atores, cujas lutas e conflitos vêm sendo travadas a partir de diferentes dimensões sócio-político-institucionais. Trata-se de um movimento que articula, em diferentes momentos e graus, relações de solidariedade, conflitos e de denúncias sociais tendo em vista as transformações das relações e concepções pautadas na discriminação e no controle dos detentores de transtornos em nosso país. Quando a psicologia e a psiquiatria avançaram na especificação desses transtornos concluiu-se que esses são muito mais comuns do que se imaginava, variando apenas no grau de cada pessoa.
O movimento LUTA ANTIMANICOMIAL defende que “loucura não é crime, ninguém deve ser trancado por ser diferente, e o cuidado em saúde mental deve respeitar a singularidade de cada indivíduo”. Entre seus objetivos estão:
- Garantir direito ao cuidado em liberdade e à cidadania.
- Combater o estigma e a exclusão de pessoas com transtornos emocionais.
- Promover atenção humanizada e comunitária, com reabilitação psicossocial.
- Substituir o modelo hospitalocêntrico por uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no âmbito do SUS desde 2011.
O tema manicomial surge com Michel Foucault que em seu livro “A história da loucura” descreve como o Grande Confinamento, dos membros “irracionais” da população, que passaram a ser presos e institucionalizados. E continua “No século XVIII, com a loucura passando a ser encarada como o oposto da Razão, pois muito homens (sic) assumiam o comportamento de animais e, portanto, deveriam ser tratados como tais. A partir do século XIX, a loucura é vista como doença mental que devia ser tratada. Alguns historiadores argumentam que o grande confinamento dos loucos não ocorreu no século XVII, mas no século XIX”. O próprio Foucault, que tinha uma relação muito conflituosa com seu pai, sofreu um processo de internação aos 22 anos após atentar contra a própria vida.
Foucault demonstra que a “grande Internação” social foi um fenômeno europeu generalizado, o qual se desenvolveu de maneira singular na França e de modo comum nos outros países, como Alemanha e Inglaterra. Alguns críticos históricos, por exemplo Roy Poter, também começaram a refutar suas convicções céticas para “abraçar” o ensinamento revolucionário trazido à tona por Foucault em seu livro.
Foucault examina o surgimento da sociedade moderna e os tratamentos “humanitários” para o “louco”, como por exemplo no caso de Pinel e Samuel Tuke. Foucault afirma que tais tratamentos não mais controlavam os métodos aos quais se propunham. O tratamento de Tuke consistia em punir os loucos até que eles não mais desenvolvessem sua loucura. Similarmente, o tratamento de Pinel consistia numa extensa terapia de aversão, o que incluía métodos como banho de água fria e jaqueta de força. Na visão de Foucault esse tratamento, associado à repetida brutalidade, traria ao paciente a percepção que estava sendo julgado e punido.
Eu pessoalmente fui atendido por médicos, pai e filho, na Clínica Pinel na Pampulha em Belo Horizonte, e ali visitei vários pacientes inclusive meu irmão o Cininho que se queixava dos horrores vividos ali. Era muito comum na minha cidade de Pompéu pessoas de classe média, que podiam pagar, ao terem crises de “esgotamento nervoso” como era falado, passarem temporadas na Pinel, onde havia três níveis de tratamento, os agressivos que ficavam no porão, os médios que estavam na transição, no primeiro piso e o “bons” que ficavam no andar de cima esperando pela “alta” hospitalar.
Partindo principalmente de Michel Foucault, o Hospício é frequentemente descrito como uma instituição disciplinar, criada em torno do século XIX, que objetivaria, com o avanço do capitalismo industrial, corrigir medicamente as anormalidades para adequar as mentes individuais ao funcionamento social dominante para regular a vida das comunidades.
A experiência da dimensão necropolítica dessa operação, que através de um conjunto de técnicas, visavam, não necessariamente a recuperação e a assimilação, mas o confinamento e em muitos casos a aniquilação. O Hospício também faz parte de uma gestão política da morte, como forma de deixar e fazer morrer. Vários autores junto com Franco Basaglia já apontaram a internação psiquiátrica como um processo de mortificação.
Continua na parte II:
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