À espera do milagre

Publicado por Antonio Carlos Santini 20 de outubro de 2026
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– Estou pensando em ficar noivo…

– De quem, Flausino?

– Da Maguilinha.

– De quem?!

– A Joana D’Arc. Ela tem o apelido de Maguilinha.

– Hum… Que apelido mais estranho!

– É que ela é campeã universitária de boxe tailandês. Aquele que aceita golpes com os pés.

– Sei não. Você parece tão diferente! Magrela, amigo dos livros, óculos de intelectual…

– Eu também tenho pensado nisso. Será que vai dar certo?

– Bem, Fafá, os psicólogos falam muito em “afinidades”… Por exemplo: qual é o seu animal de estimação?

– Sou criador de passarinhos.

– E a Mag… quer dizer, a Joana D’Arc?

– Ela adora gatos.

– Gatos? Hum… sei não…

– Mas será que um casamento pode dar errado só por causa de gatos e passarinhos?

– Teoricamente, não. Mas, na prática, a teoria costuma ser outra. Já houve separação com divórcio e tudo, só porque ele apertava o tubo de pasta de dentes no meio. Ela apertava na ponta…

– É mesmo um mistério essa tal de “afinidade”…

– Ora, você sabe que o principal motivo alegado nas separações é a tal “incompatibilidade de gênios”…

– De fato. E pensar que no tempo da vovó, o pai chamava a filha e dizia: “Filha, se arrume e vá lá na sala pra você conhecer o seu noivo”.

– Bons tempos! O casamento era considerado uma coisa séria demais para depender de sentimentos e paixões!

– Mas e eu? Como fico? Que conselho me dá?

Ainda insisto na questão das “afinidades”. Os traços-de-união. Os pontos em comum. A visão do mundo. Por exemplo, qual a sua religião?

– Sou católico, mas não praticante.

– E ela?

– É de família espírita, mas frequenta a Igreja Batista. Na verdade, anda namorando a Universal. Futuro incerto…

– Hum… sei não… E na hora de encaminhar os filhos?

– Pois é. Por isso mesmo estou pedindo a sua opinião.

– E o futebol? Você é atleticano, não é?

– De papão amarelo! Tenho sofrido horrores com a fase atual do meu time!

– E ela?

– A Maguilinha? Faz parte da “Máfia Azul”. Cruzeirense doente!

– Hum… sei não…

– Pô! É só isso que você sabe me dizer? Sei não? Sei não? Por que não me dá um conselho prático?

– Bem, se é isso que você quer, lá vai: venda os passarinhos, comece a treinar caratê, leia uma enciclopédia sobre gatos de raça, descubra o jeito certo de apertar a pasta de dentes, passe para a Igreja Universal e compre uma camisa do Cruzeiro. Tudo muito prático…

– ’Pera aí! Aí eu deixo de ser eu mesmo! Vou ficar igual ao primo dela, o Augusto. Aliás, eles andam juntos pra todo lado!

– Hum… sei não…

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