Conversa de botequim

Publicado por Antonio Ângelo 8 de setembro de 2026
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Pintura Benício Cunha

– O banheiro era do lado de fora – dizia Germano – e era uma tarde de sábado, antes das seis horas… Abri o portãozinho de madeira na divisa da cerca de bambu, e fui andando terreiro adentro. Questão de um nada de tempo… Elas eram três, todas de pele clara e cabelos pretos. Até hoje não sei qual delas… Veio vindo um vento vadio que abriu a porta… Pude ver, como se hoje: o corpo inteiro, desprotegido, resplandente, todo respingado, as gotas d’água escorrendo… Foi coisa de segundo e até hoje não desprega da lembrança.

– Nenhum tino de qual podia ser, Germano? – perguntou Osarias.

– A curva do quadril… O desenho todo do corpo, o cabelo molhado… Mas podia ser uma, mas podia ser outra. Quem sabe por que quisesse ver detalhes, partes, não atinei no rosto. E o tempo… O tempo foi um piscar de olhos. Qual delas foi? Não tem como relatar. Não sei  – arrematou Germano.

E olhava para fora, como a perscrutar o resto de luz que o céu espadanava naquele fim poeirento de rua.

– É – palpitou, a idéia despegada de repente do caso – jeito que o inverno pispia chegar…

Naquele boteco de fim de rua, mergulhado em penumbras, os três velhos conversavam, os copos à frente. A noite ameaçava intrometer-se pelo espaço acanhado onde quatro mesas plásticas, como as cadeiras, espalhavam-se desordenadamente. Ali estavam apenas eles. O próprio dono da cafua tinha-se metido casa adentro, deixando-os a sós.

– Até hoje não sei qual delas… – arrematou Germano. E os olhos cansados, destreinados de ver o mundo em seus nuances, miravam fora, indo até defronte, no outro lado da rua, onde a luz do poste irradiava brilho mirrado.

Depois de levar o copo de pinga à boca, o outro, Venâncio, também falou.

– Dezembro, vinte e quatro de dezembro. Tinha combinado com um amigo ir passar a noite de Natal em sua casa. Andava interessado em sua prima, morena cor de jambo, desenvolta, olhos de preguiça… Estava mesmo caído por ela. Antes falei pro Tamiro: vamos passar na casa de Manuela… Manuela era minha namorada; morava num barracão alugado, fundos de quintal. Ela – logo que chegamos eu vi – estava sentada numa mesa debaixo de um telhadinho onde existia um tanque pra lavar roupa. Estava lá sentada, me esperando, uma garrafa de vinho barato na mesa, já tomando uns goles numa taça. Chegamos, conversamos um pouco, fui mais ela até lá dentro de casa… Abraçou-me e mostrou o vestido novo que encomendara pr’aquela noite. Que perfume vinha dela! Um gostoso perfume de colônia… Abracei ela, dei um beijo, mas falei que tinha que ir, tinha combinado com o amigo. Dei uma mentira besta qualquer. Ela me olhou decepcionada, sem entender… Até hoje lembro de seu olhar interrogando, querendo desfazer o mistério. Mas nem dei chance pra discussão. E também ela era tão da paz, aceitando minhas bobagens, que não ficou levantando perguntação. Saímos, eu e o Tamiro, e fomos embora. Ela ficou lá e quando a gente ia pelo estreito caminho até a rua, olhei pra trás e ainda vi. Em pé na porta, bonita, os cabelos descendo até os ombros, um rosto de tristeza e conformação, olhos de abandono. Aquele Natal não passei com ela. E nenhum outro depois.

Venâncio tomou outro gole da pinga. A barba branca, há dias sem ser feita, dava-lhe ao rosto um ar de cansaço, de desalento. Levou à boca o cigarro de palha e deu longa tragada. O enfisema já roncava no peito, mas entendia que, àquela altura, não valia a pena parar de fumar os cigarrinhos que com paciência montava: o fumo de rolo, a palha, a manufatura em que se adestrara por décadas.

– Manuela, como tinha bonitos os olhos – falou -, uns olhos acastanhados que me olhavam bem de frente, desprovidos de fingimento.

Agora era Osarias que começava a falar:

– Eu tinha um carrinho velho, um fusca, lá de quinta ou sexta mão, com certeza, mais rodado que carro de boi que vai de tetravô pra filhos dos netos. Conseguido com muito suor, trabalhando de sol a sol.  Noite de sexta, pegava ela em casa. E a gente ia até a vila, onde tomava sorvete – ela gostava demais da conta -, ou escolhia algum tira-gosto para petiscar com cerveja. Depois, muitas das vezes, a gente ia dançar na Associação. Conheci ela no baile do Grupo. Vestido vermelho, até abaixo do joelho. Dançamos a noite toda…

Osarias parou, bebericou da pinga. Cansado, dizia que sofria do coração. A Chagas minava aos poucos o bruto. De vez em quando sentia que pulava diferente no peito e comentava na chacota: “Aquieta seu mal-educado; tem água pra passar debaixo desta ponte ainda, e não há de ser pouca”.

– Aquela noite era pra ser de lua, mas caiu uma panca d’água feia, um toró sem comparação. Na volta da vila, o fusquinha, danado de espevitado, escorregava no vão da estrada, dum jeito que dava medo. Ia dum lado pro outro saracoteando, e eu firme ali no volante, tendo de resguardar o bicho no leito da estradinha ruim, onde os carros de boi que por lá passavam criavam duas valas rasas paralelas. Bem que o carrinho era valente, denotando que não ia deixar a gente na mão. Lembro como se fosse hoje quando ela pôs a mão na minha perna e disse: “Para aqui, Zarias, vamos esperar o tempo melhorar”. Encostei o carro num ponto onde a estrada era mais ancha, e estacionei. Depois que apaguei os faróis mal podia ver ela ali do meu lado, de tanto que tudo era só água e pretume… O toró fora não dava sossego… A blusa era clara, de um pano macio… De vez em quando os relâmpagos iluminavam dentro, num clarão embranquecido, e eu podia ver sua pele mimosa, clara, os seios delicados, as coxas… E a gente se amou. Foi a primeira vez… Até hoje não esqueço. Como poderia? Tão bonita, os clarões, as palavras, o calor de seu corpo… E lá fora o mundo se acabando em dilúvio! Rosa, Rosa era o nome dela.

Do rádio vinha um sertanejo rasgado, Cascatinha e Inhana. Os três pararam de falar, como se àquela hora fosse importante apenas perceber a emoção dos versos e os sombreados da noite que se derramava mundo afora. Um vira-lata dormitava num degrau à porta.

Levantaram-se e saíram. Suas cabeças brancas, o andar trôpego, Venâncio apoiando-se na bengala improvisada, um pedaço de pau encontrado no quintal. Tomaram a rua. Nem se deram ao trabalho de chamar o dono. Voltariam no outro dia, e no outro, e no outro… Ao final da semana dividiriam entre si as despesas e fariam o acerto com o João da Venda.

– Porque não pagam de mês em mês? – perguntara o vendeiro uma vez todo solícito.

Conscientes de suas perrenguezas, não queriam adiar o acerto. E argumentava ora um, ora outro:

– Fim do mês, João? E quem diz que a gente vai durar um mês todos ao mesmo tempo? Queremos deixar dívida um pros outros não.

E riam-se os três.

No meio da rua separaram-se, cada um para o seu canto, os passos lentos.

– Lá se vão carregando seus miasmas e fantasmas – costumava filosofar o vendeiro quando acontecia de os ver partir.

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