
Continuação da parte I:
De Portugal, especialmente dos Açores, veio a prática de enfeitar as ruas. O arquipélago, constituído de 9 ilhas que formam o protetorado de Açores em Portugal foi uma das primeiras regiões a adotar a festa. A celebração de Corpus Christi nos Açores é um importante evento cultural e religioso, que reflete a fé e a história da comunidade.
No período da colonização cerca de 6.000 açorianos imigraram para o Brasil indo diretamente para Santa Catarina estendendo-se até o Rio Grande do Sul. Hoje, em Porto Alegre, há até um complexo monumento em homenagem aos açorianos. Os imigrantes açorianos trouxeram esse legado para o Brasil, herança que floresceu em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e se espalhou por todo o país. E, ao vir para o Brasil, os açorianos carregaram essa raiz que se espalhou na tradição e na fé, enquanto Portugal se distanciou dessa prática.
Quem conhece o Sul do Brasil, especialmente Florianópolis, pôde reconhecer a cultura açoriana presente nas tradições, prédios e no próprio sotaque do morador do litoral catarinense. Em diversas regiões, é comum a preparação de tapetes coloridos, feitos com serragem, sal, gesso, cal, alvaiade, borra de café, carvão, flores e outros materiais, para que a procissão passe por cima.
Do Sul a tradição de celebrar Corpus Christi avançou por todo o país e hoje o Brasil inteiro segue a tradição. Em Minas Gerais, cidades como Ouro Preto, Tiradentes e Sabará se destacam pela grandiosidade e suntuosidade dos tapetes, nessas cidades o evento ganhou visibilidade e se consolidou como grande atrativo de seus calendários turísticos.
Muitas paróquias fazem tapetes belíssimos, basta citar algumas. De acordo com a realidade da região, inicialmente, os tapetes eram feitos de serragem e de sal colorido. Mas, com o tempo, cada cidade foi criando seus próprios recursos, com o uso de borra de café, pó de carvão, serragem de madeira, areia, cascas de ovos, flores de diferentes cores, sementes, tintas, bagaço de cana, palha de arroz, tampa de garrafa, vidro triturado, entre outros.
Muitos municípios recolhem cestas básicas que são distribuídas para as famílias carentes. Na véspera da 5ª feira de Corpus Christi, a comunidade se envolve na confecção dos tapetes. No interior paulista destacam-se Matão, há 76 anos, Atibaia, Caçapava, São José do Rio Preto, Potirendaba, Bálsamo, Santana do Parnaíba e Mirassol, onde os tapetes são ‘bordados’.
No Rio de Janeiro Cabo Frio e Búzios com tapetes de sal. Em Tocantins, Palmas. No sul do Brasil: Flores da Cunha no Rio Grande do Sul, e Florianópolis e Rodeio em Santa Catarina. No Espírito Santo, destacam-se Castelo e Paraju. O que diferencia Paraju de outras localidades é que os tapetes são elaborados exclusivamente com flores e folhagens da região. Na 5ª-feira do Corpus christi, em paradas da procissão são montados altares lindíssimos com antúrios, murtas, plantas, folhas e flores coloridas. Na paróquia da Praia do Canto, em Vitória, Espírito Santo, os tapetes são feitos com cobertores em um momento muito especial, rico, único, singular e surpreendente. Após a procissão, os cobertores são lavados e doados às pessoas em situação de rua e famílias em situação de vulnerabilidade. Emocionante!
Em Castelo, a festa recebe atualmente mais de 60 mil visitantes e envolve cerca de 500 voluntários. Cada tapete tem 1 mil metro e vinte de comprimento, composto por quadros e passadeiras. Os tapetes são confeccionados de madrugada, com a participação de dezenas de voluntários. Envolve crianças, jovens e adultos. É emocionante ver mãos calejadas tocando delicadamente pétalas de flores, serragem colorida e sementes
É encantador, impactante mesmo, tamanha beleza e criatividade. Produções artísticas com cores fortes, vivas e alegres, feitos de flores, serragem colorida, sementes, borra de café, flores e areia se transformam em imagens sagradas: cálices, pães, vinhos, símbolos da comunhão, além de outros materiais que, devidamente coloridos e trabalhados, formam imagens do Corpo de Cristo, de cálices, pães, vinhos e outros elementos que lembram o sacramento da comunhão, bem como mensagens de solidariedade, de amor, doação e comprometimento com a vida.
Os tapetes de Corpus Christi, além de ornamentos de rua para uma manifestação de fé, arte e cultura popular, se tornaram símbolos de união e criatividade. A beleza dos tapetes aparece em cada detalhe revelando amor e dedicação. As imagens demonstram a epopeia da fé, cada gesto é uma oferenda, cada detalhe é uma oração silenciosa.
A festa é um momento de reflexão sobre a importância da Eucaristia como fonte de vida espiritual e como um sacramento que os religiosos acreditam unir os fiéis a Jesus. Corpus Christi é um momento de comunhão entre os fiéis e Jesus, reforçando a fé e a esperança na presença de um Deus imaginário nas vidas de quem acredita.
Essa cerimônia sempre acontece no período de frio intenso, maio e junho. A paisagem fica mais bela com pessoas agasalhadas, com luvas, gorros e casacos coloridos. Ônibus com romeiros de fora, visitantes viram a noite, os hotéis ficam lotados nas cidades que se destacam na tradição. Há notícias de que em algumas localidades, simultaneamente, acontecem forrós para ajudar a passar a noite fria e gelada. As casas improvisam pequenas cantinas com caldos quentes, quentão e canjicas.
Cada procissão é mais que rito, é epopeia. Para conhecer uma expressão genuína da arte, da religiosidade e do ecumenismo, “a eucaristia, que se manifesta na crença de um povo que partilha generosamente o que tem em comum”. A campanha da fraternidade de cada ano é uma simbologia expressa em muitos tapetes. Palavras, frases, evocação de imagens são feitas em torno de uma visão mística do que foi a campanha da fraternidade. Conectado com a catequese da igreja e ao grito da evangelização e da profecia.
A confecção de tapetes fortalece a cooperação, a solidariedade, o trabalho em equipe, a criatividade e o desabrochar de dons, é um pacto silencioso entre gerações. É também solidariedade: cestas básicas recolhidas, cobertores transformados em tapetes e depois doados aos mais necessitados. É a fé que se traduz em gesto concreto, em partilha e comunhão.
Corpus Christi é o momento em que a cidade se torna palco de uma celebração que une passado e presente, tradição e criatividade, fé e cultura. É o instante em que o povo, reunido em comunhão, reafirma sua identidade e sua esperança, é a comunhão da cidade. É a cidade inteira reunida em torno da fé, da arte e da cultura popular. É o café coletivo que aquece os voluntários na madrugada, os sinos que ecoam no ar gelado de junho, os visitantes que chegam com o romper do dia. Na madrugada corações fervorosos se unem, é emocionante observar as mãos calejadas tocando a delicadeza de uma flor, de uma pétala de açafrão, de urucum partido ao meio. Corpus Christi é mais que um feriado religioso, é memória e um momento de comunhão, de encontro entre vizinhos, de partilha e solidariedade. É a lembrança de um tempo em que a cidade se une em torno da fé, da arte e da cultura popular.
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