Dia Nacional da Luta Antimanicomial – parte II

Publicado por Sebastião Verly 16 de maio de 2026
hospital colonia de barbacena

hospital colonia de barbacena

(Continuação da parte I): https://www.metro.org.br/sebastiao/dia-nacional-de-luta-antimanicomial-parte-i/

A LUTA ANTIMANICOMIAL é um movimento social e político que se propõe a defender os cuidados em saúde mental com liberdade, direitos humanos e inclusão social, denunciando  a lógica de isolamento e violência dos manicômios.

A luta antimanicomial surgiu como resposta à lógica manicomial, que tratava pessoas com sofrimento psíquico por meio do isolamento, exclusão e violência, considerando a loucura como algo a ser controlado ou segregado. Internacionalmente, ganhou força nos anos 1960 e 1970 com a Reforma Psiquiátrica Italiana, liderada por Franco Basaglia, que denunciou os manicômios como instituições de violência e propôs um modelo de cuidado territorial e comunitário. No Brasil, o movimento se consolidou durante a redemocratização nos anos 1980, articulando trabalhadores da saúde mental e influenciando a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Nise da Silveira, a psiquiatra da criatividade, foi pioneira na luta antimanicomial, ela era contra as formas agressivas do tratamento psiquiátrico comuns na década de 1940, como a internação compulsória, os eletrochoques, a insulinoterapia, intervenção psiquiátrica na qual os pacientes recebiam doses cada vez mais altas de insulina para induzir hipoglicemia e coma, e a lobotomia, procedimento cirúrgico que consistia em inserir um instrumento afiado no tecido cerebral para então cortar as conexões entre os lobos frontais e o resto do cérebro. Acreditem ou não, até uma psiquiatra chegou a sugerir que eu me submetesse a este procedimento!

Na vida nos manicômios: “As pessoas eram basicamente torturadas, largadas para morrer, sofrendo violência de todos os tipos”. Indignada com tudo aquilo, a doutora Nise decidiu usar a arte e o afeto nas terapias psiquiátricas, e começou a tratar os pacientes com o respeito a que tinham direito. “Nise conseguiu recuperar a humanidade dessas pessoas e depois recuperar a centelha criativa delas”. Sua produção está no Museu de Imagens do Inconsciente, centro de estudo criado por Nise dedicado a preservar obras artísticas produzidas por pacientes com transtornos mentais. O acervo do museu conta com mais de 400 mil obras, entre telas, desenhos, tapetes e modelagens.

É significativo incluir neste artigo, o caso de Arthur Bispo do Rosário. Poucos artistas têm sua vida tão perscrutada quanto o sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). Interno de uma colônia psiquiátrica no Rio de Janeiro. Ele foi “descoberto” tardiamente para o universo das artes visuais no início da década de 1980. A loucura se tornou chave para a compreensão de seu trabalho, embora haja outras singularidades que envolvem sua obra e existência. “Não é a loucura que faz o sujeito virar artista. Ele é artista e, por acaso, é louco, esquizofrênico”, afirma o escritor e crítico de arte Ferreira Gullar, admirador de Bispo. Ao longo de cinco décadas, Bispo fez bordados, colagens, estandartes e objetos que já foram expostos na Bienal de Veneza, no Victoria & Albert de Londres e hoje integram uma mostra no Museu de Arte Folclórica de Nova York, aberta recentemente. Em confinamento durante boa parte da vida, ele teve de usar de criatividade para obter matéria-prima. Cerzia suas peças com a linha que desfiava de uniformes e utilizava toda sorte de sucatas. Isso o colocou, inadvertidamente, na vanguarda da arte contemporânea, que lança mão de toda espécie de material, inclusive o lixo.

No fim da década de 1970, cresceram as denúncias sobre abusos cometidos em instituições psiquiátricas no Brasil. Também aumentou a precarização das condições de trabalho, reflexo do caráter autoritário do governo ditatorial no interior de tais instituições.

Investigações realizadas pela Comissão Estadual da Verdade, no Rio de Janeiro, revelaram que durante a ditadura civil militar brasileira, que se estendeu de 1964 a 1985, o Estado utilizava instituições psiquiátricas como ferramentas de opressão, tortura e até mesmo de ocultação dos rastros de seus opositores. Os presos políticos, nesse período, enfrentaram uma série de horrores dentro dessas instituições.

Submetidos a violências desumanas, como a eletroconvulsoterapia e o uso de medicamentos à base de escopolamina, também conhecidos como “soro da verdade”, eles eram forçados a suportar uma série de sofrimentos dentro desses espaços. Essas práticas, disfarçadas de tratamento terapêutico eram, na verdade, formas de punição.

“São, na verdade, “prisões-hospitais ou hospitais-prisões, onde se consuma uma dupla violência institucional — cárcere mais manicômio — e onde jazem, esquecidos do mundo, aqueles sentenciados por enfermidade mental”. Este é o relato de quem já esteve “internado” em um manicômio judiciário: “Eu não sei se isso aqui é um hospital implantado numa cadeia, ou se é uma cadeia implantada num hospital”

O primeiro estabelecimento destinado especialmente a “delinquentes alienados” teria sido a “prisão especial de Broadmoor”, na Inglaterra, em 1863. Já no Brasil, muito embora o primeiro hospício, o Pedro II, tenha sido instituído por decreto em 1841 e inaugurado em 1852 na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, foi o primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e o segundo da América Latina, criado para tratar “alienados” da Corte. Fundado pelo Imperador D. Pedro II, o prédio histórico atualmente abriga o Palácio Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O edifício foi o primeiro hospital especializado no tratamento de doenças mentais no Brasil, local de formação de médicos em psiquiatria e de instalação da primeira cátedra dessa especialização. Um local específico de internação para “loucos criminosos” surge, em 1903, com a inauguração da “Seção Lombroso” no Hospital Nacional de Alienados, situado no Rio de Janeiro. Posteriormente, em 1921, é criado o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro.

Ao longo do século passado, a única solução para pessoas com transtornos mentais era o isolamento em manicômios. O maior do Brasil foi o Colônia, que começou a funcionar em 1903, em Barbacena, Minas Gerais. Naquele hospício, “pelo menos 60 mil pessoas perderam a vida numa trajetória de quase um século de desrespeitos aos direitos humanos”. Os ambientes eram extremamente precários. Os pacientes dormiam em um modelo conhecido como ‘leito único’, que consistia em deitar diretamente no chão frio, coberto somente por capim seco.

Em declaração assinada no dia 18 de março de 2026, a então reitora da UFMG Sandra Goulart Almeida reconhece que o “Hospital Colônia de Barbacena e outras instituições psiquiátricas de Minas Gerais foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil: a internação de pessoas de todas as idades por supostos transtornos mentais”. Ao falecerem, muitas dessas pessoas foram enterradas como indigentes ou tiveram seus corpos destinados a uma das 17 instituições de ensino médico para viabilizar aulas de anatomia. A Reitora pediu desculpas por tudo que foi feito!

Eu mesmo perdi a tia Maria viúva de meu tio Salatiel, a Maria do Tio Sinhô, que saiu de Pompéu para ser internada no Colônia de Barbacena e nunca mais se soube notícias dela. Consta que tomou o “chazinho da meia noite” que era ministrado aos pacientes considerados incuráveis, cujos cadáveres eram utilizados pelas escolas de medicina em aulas de anatomia.

A jornalista Daniela Arbex fez uma vasta pesquisa sobre o Colônia de Barbacena. Onde ela diz: “A gente encontrou histórias de pessoas que foram mandadas pro hospital para esconder uma gravidez, porque tinham perdido seus documentos ou porque o marido resolveu ficar com a amante”, constatou Daniela. E mais relata casos reais em que as mães que se engravidavam no manicômio tinham seus filhos, engravidadas por outros pacientes, por servidores e até por médicos do sanatório, tinham seus rebentos doados a terceiros ou enviados a orfanatos, cujos nomes as mães e ninguém nunca ficava sabendo.

Há 8 anos fui convidado pelo músico José Espanhol para acompanhá-lo numa apresentação no Hospital Raul Soares, bastante modernizado por uma médica dedicada, e, acreditem ou não, conversei com uma garota bonitinha de 20 e poucos anos internada. Quando lhe perguntei o motivo pelo qual estava ali, ela disse que tinha vindo do interior de Minas e confessou, com naturalidade, que seu pai a internou depois de um aborto porque ela se engravidou sem se casar.

Hiram Firmino foi um dos poucos jornalistas a entrar no Colônia de Barbacena, no fim da década de 1970. Ele escreveu diversas matérias com denúncias sobre os horrores que viu no Colônia. “Mulher é um símbolo de beleza. Para mim, foi chocante ver as mulheres do hospício no chão, sujas, igual bicho, quase todas nuas, no meio de fezes, urina, rato, dormindo em capim. Agora ver as crianças no mesmo estado, com um pneu velho o dia inteiro, que era a única coisa que tinham para brincar, foi ainda pior”, desabafa o jornalista. O pior do pior!

Em 2024, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena CHPB – nova denominação do Colônia – ainda tinha 34 pacientes de longa permanência – em processo de alta para as Residências Terapêuticas. Até hoje, maio de 2026 ainda restam 12 pessoas sobreviventes que não falam,  nem têm família. O governo do estado pressiona a Prefeitura de Barbacena para acomodá-los em outra instituição que lhes garanta um tratamento humanizado para o fechamento definitivo da instituição. Nas instalações do hospital já funciona o Museu da Loucura desde 1996 e que foi revitalizado em 2016, já tendo recebido dezenas de milhares de visitantes. O Hospício se mostrou sempre como mais uma peça da necropolítica brasileira, fazendo com que o retorno do seu fortalecimento nos convoque a agir, como ensina o Movimento Antimanicomial, em direção a uma sociedade sem manicômios.

O Hospital Psiquiátrico do Juquery foi uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, localizada no Complexo Hospitalar do Juquery, em Franco da Rocha, Região Metropolitana de São Paulo. O jornalista Renato Ribeiro Pompeu, que deu grande contribuição ao movimento antimanicomial, passou a conviver com a loucura desde o dia em que foi parar numa sala de tortura por uma semana, no início dos anos 1970. Levou pancadas com cabo de vassoura e choques elétricos. Passou a sofrer mania de perseguição e a ter alucinações, até ser internado pela primeira vez, entre janeiro de 1974 e agosto de 1975, no Hospital Psiquiátrico do Juquery.

Em 1981 o complexo contava 4200 pacientes entre o Juquery e o Manicômio Judiciário, instalados na mesma área. Além desses, vários órgãos públicos, como escolas, Corpo de Bombeiros, o 26º Batalhão da Polícia Militar, lixão e até invasores de terra situam-se na Fazenda Juquery, com 1.100 hectares ou 731 quilômetros quadrados de área. Tratava-se de uma instituição prestando atendimento aos municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Cajamar, Caieiras e Mairiporã, no conjunto com cerca de 400 mil habitantes. Esses municípios formaram-se a partir do hospital. Encerrou as atividades em 1º. de abril de 2021, com a transferência dos nove últimos pacientes que ali viviam.

Continua na parte III

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