O menino que brincava com a lua…

Publicado por Antonio Carlos Santini 22 de abril de 2026
Padre Aimé Duval

Padre Aimé Duval

Passa Quatro. 1959. Nos meus 15 anos, comecei a arranhar o primeiro violão que me caiu nas mãos. Depois de algum tempo, cantarolava as canções que um padre francês havia gravado em um compacto.

 

Seigneur, mon ami,

tu m’as pris par la main.

J’irai avec toi

sans effroi

jusqu’au bout du chemin.

 

Je marche avec toi

dans le vent, dans le froid.

Je marche, peu m’importe,

je te porte

dans mon cœur avec moi.

 

Partout, c’est la danse,

les sourires, les plaisirs.

Mais moi, je m’avance

en cherchant

ton visage en tout ça.

 

J’irai d’un bon pas

en chantant mes chansons.

Je sais, tu m’attends

sur le pas

de ta belle maison.

 

Alors, tu es là:

je te vois découvert.

Je vois ton visage

et la table

où tu mets deux couverts.

 

(Traduzindo)

 

Senhor, meu amigo,

tu me tomaste pela mão.

 

Irei contigo sem medo

até o fim da estrada.

 

Caminho contigo

através do vento, através do frio.

 

Caminho, pouco me importa,

eu te levo em meu coração comigo.

 

Por toda parte, há dança,

sorrisos, alegria.

 

Mas eu, eu avanço

buscando teu rosto em tudo isso.

 

Caminharei com passos firmes

cantando minhas canções.

 

Eu sei, tu me esperas

na soleira da tua bela casa.

 

Então, tu estás lá:

eu te vejo descoberto.

 

Eu vejo teu rosto

e a mesa onde preparaste dois lugares.

 

O padre-poeta-cantor era o jesuíta AIMÉ DUVAL [1918-1984]. Creio que foi o primeiro “padre cantor” na era dos modernos meios de comunicação. Talvez tenha servido de inspiração para alguns daqueles que se tornaram conhecidos entre nós.

Nos anos 50/60, ele ficou muito conhecido por seu trabalho. Auditórios da França, da Bélgica e da Itália ficavam repletos para ouvi-lo. O estranho padre cortava as estradas da Europa em sua motocicleta, guitarra nas costas, até que sofreu um acidente, quebrou o violão e precisou adquirir um carrinho pequeno para suas aventuras.

Era notável o interesse por suas canções com mensagens religiosas. Nas apresentações, o auditório todo cantava com ele. Uma de suas canções, de ar pungente, era dedicada “aos que não dormem”:

LA NUIT

Oh, pourquoi, pourquoi, pourquoi, Seigneur?

Pourquoi, Seigneur qui fis le monde,

Pourquoi tu fis la nuit si longue,

Si longue, si longue, si longue pour moi?

  1. Tu fis le jour et le soleil Avec des rêves pour le sommeil… Oh!
  1. Tu fis l’ivoire, l’ébène noire Avec la neige dessus les toits… Oh!
  1. Tu fis un jour d’un peu de terre Le cœur de l’homme et son mystère… Oh!
  1. Tu fis, merci, notre amitié… Pour partager tout par moitié… Oh!

(Traduzindo)

A NOITE

Oh, por que, por que, por que, Senhor?

Por que, Senhor que criaste o mundo,

Por que fizeste a noite tão longa,

Tão longa, tão longa, tão longa para mim?

  1. Fizeste o dia e o sol com sonhos para dormir… Oh!
  2. Fizeste o marfim, o ébano negro com neve nos telhados… Oh!
  3. Fizeste um dia de um pedacinho de terra, o coração do homem e seu mistério… Oh!
  4. Fizeste, obrigado, nossa amizade… para dividir tudo ao meio… Oh!

*   *   *

Muitos anos depois, cai em minhas mãos o livro “Eu, padre alcoólatra: O garoto que brincava com a lua” (no original em francês: J’ai connu des prêtres alcooliques), assinado por Lucien, pseudônimo do mesmo Pe. Aimé Duval. E tive a surpresa de encontrar ali o cantor que inspirava minha adolescência.

O livro é a autobiografia sem máscaras onde o sacerdote jesuíta narra sua luta contra o alcoolismo. Fala do impacto na sua vida sacerdotal e pessoal, e a difícil jornada de recuperação com o apoio como os Alcoólicos Anônimos – A.A. Ele conta como descia com cuidado as escadas, pois um dos degraus de madeira estava solto, para não acordar os outros padres que dormiam, e abria o armário com as garrafas de vinho de missa; pegava uma garrafa cheia e colocava a vazia bem no fundo, para ninguém perceber a apropriação. Curiosamente, sua comunidade jamais teve noção do alcance de seu sucesso como cantor, nem do lucro financeiro que proporcionava à congregação.

Resolvi contar esta história ao ler a notícia de que entre agosto de 2016 e fevereiro de 2026, 43 padres católicos morreram por suicídio no Brasil. Em questão a solidão, a ausência da comunidade, a perda de sentido, o drama humano. Pouca gente sabe que, desde 1981, funciona em Curitiba, PR, a Comunidade Vida Nova, fundada pelo missionário redentorista Pe. Guilherme Tracy, ele mesmo um ex-dependente, e dedicada aos cuidados de padres e freiras com dependência alcoólica.

Dói no coração descobrir que o sofrimento humano passa tão despercebido. Dói no coração a própria indiferença. Dói demais…

*   *   *

– Para ouvir suas gravações: No Google: Père Aimé Duval chansons

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