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Uma visita inesperada

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano
data: 16/11/2010

Uma visita inesperada

Às 16 horas, o interfone do meu apartamento tocou neste sábado ante véspera de feriado prolongado até terça feira. Deitado em minha cama esplêndida, hesitei em atender.

Afinal, meus colegas estão viajando; meu filho, visitamo-nos domingo passado; amigos sempre me avisam quando vêm e meus irmãos, quando vêm escolhem as noites depois do trabalho com a certeza de que me encontrarão em casa.

Pensei naquele velhinho que vejo de vez em quando sempre com a mesma ladainha: “aqui é um senhor de 83 anos, que não tem casa nem parentes e precisa de sua caridade”.

Esforcei-me para levantar, calcei o chinelo, meu único vestuário quando estou em casa, e atendi. Do lado de fora do prédio, ouvi uma voz delicada que soou como sensual aos meus ouvidos. “Sou recenseadora do IBGE e preciso fazer o censo”.

A imaginação voou. Lembrei-me da minha linda estagiária que também está fazendo o censo e imaginei aquela voz meiga da menina que adoro como uma filha. Antes de abrir a porta, passei água no rosto, olhei-me no espelho, espargi perfume no corpo, passei a escova nos cabelos que ainda restam nas laterais da calvície, vesti uma bermuda bem passada, uma camisa de linho. A imaginação continuava voando a toda velocidade e acreditei que a visita inusitada traria de volta a minha libido. Pelo menos até o momento minha mente era toda libidinosa.

Abri a porta com um sorriso de felicidade.

No lado de fora da porta, uma frágil e mirradinha senhora bem alva, de cerca de 60 anos, esforçava-se para falar e agia meio desconcertada. Queixou-se do cheiro forte que teve que suportar enquanto aguardava na frente do prédio, oriundo da tinta com que os vizinhos pintavam um portão do outro lado da rua. Convidei-a a entrar e assentar. Ofereci um copo d’água para amenizar a toxidade da tinta. A recenseadora agradeceu e assentou-se bem junto a porta. Queixou-se do calor que estava minha sala e, de um salto, abri a janela para entrar um ar suave e refrescante.

Pela minha maneira jovial de tratá-la e pelo sorriso e trejeitos que completavam os acertos da roupa e da aparência, creio que ela imaginou estar diante de um perigoso conquistador de mocinhas desprotegidas. Eu ainda me reconduzia de volta de onde o imaginário havia me levado e continuava mantendo a educação e a amabilidade.

A recenseadora disse seu nome, que me pareceu Inezita, não perguntou o meu e foi logo perguntando quantos banheiros tinha o domicílio. Pensei mesmo que ela deseja usar essa peça componente do meu lar. Revi mentalmente a limpeza do sanitário e respirei aliviado. Estava limpinho e cheirando pinho sol que joguei como desinfetante.

Precavido, havia relembrado e decorado o nome de meus 33 irmãos, o ano e o mês que meu pai e minha mãe morreram, o número de dependências do apartamento, área total do domicílio, consumo médio de energia elétrica, quantidade de computadores, geladeira, fogão, máquina de lavar e tudo que poderia parecer significativo.

Anotei as doenças que me maltratam nos últimos tempos: hipotireóide, diabetes, hipertensão, transtorno bipolar afetivo (depressão), diverticulite, otite e, mais recentemente, a labirintite. Anotei a extensa lista de remédios: liptor, giovan, glibenclamida, eutirox, metiformina, idapen, citalopran, carbolitium e respidon. Vacinei contra a gripe H1N1 e não tive defluxo este ano.

Preparei para falar que ainda estou na ativa, trabalho numa autarquia municipal há quase quinze anos, tenho um filho maior, sou separado judicialmente há quase 20 anos e ainda não pedi o divórcio, na esperança de que minha ex-mulher me queira de volta. Permanecia atento e esperava o interrogatório amplo para ir lá dentro buscar a folha escrita à mão durante vários dias, à medida que me lembrava de alguma informação que me parecia de interesse estatístico.

Houve uma extensa segunda pergunta, “se o imóvel era próprio ou alugado se estava quitado e se ainda estava sendo pago”. A terceira pergunta foi “quantas pessoas moram no domicílio” e, quando respondi que moro sozinho, ela disse que poderia encerrar a entrevista, mas ainda me pediu nome e sobrenome, data de nascimento e foi levantando-se. Pediu-me para assinar no espaço em branco (sic) e saiu apressadamente, levando consigo minha imaginação, minhas esperanças, sonhos e devaneios. Alguns confessáveis.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Tião o cara da foto ñ é vc. Certo? Se for. Pô cara tu tá precisando é mesmo de uma “Recenseadora”. Ah! Ah! Ah! Este monte doenças q vc. relacionou iriam embora. Este site da Fundação, sem dúvida, vale a pena esperar ele chegar na m/caixa.

  2. Caro Tião,
    Acabo de ler mais esta pérola emanada de sua mente brilhante e como sempre, criadora e com inigualável poder de descrição. Seus artigos tem aquele invejável poder de nos conduzir à cena descrita, tal a riqueza de detalhes. Excelente

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