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Quito do Baía

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Literatura
data: 02/06/2009

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Quito do Baía é como era conhecido. Um dia passamos a trabalhar juntos no posto de gasolina na saída da cidade. Era um filósofo. Conversava com as pessoas com um ar de superioridade, ou melhor, de igualdade. Ao mesmo tempo era uma pessoa de extrema simplicidade. Tinha uma visão superior do mundo e se julgava professor de vida com explicações que pareciam irônicas ou de um deslavado cinismo. Mesmo com pouco tempo de convívio como colegas no batente, conversamos centenas de vezes nas mais diferentes situações.
Não tinha namorada e nem freqüentava os cabarés, coisa que naquela ocasião gerava um incômodo nos amigos e na cidade como um todo. Quito no entanto estava muito acima dessas convenções mundanas. Demonstrava bom humor com as pessoas que o respeitavam. Mas torcia a cara quando alguém julgasse suas atitudes loucas. E como eram loucas! Saía para pescar nos rios e córregos que por ali ainda existem, em dia de chuva, com um terno de linho branco S 120 e gravata borboleta, voltava enlameado e … nem um peixinho! A justificativa tinha uma lógica complexa, que por linhas filosofais explicava que cada um se veste da melhor maneira para os seus momentos mais agradáveis.
A vida pregou dezenas de peças no meu amigo. Teve comércio de gêneros, bar e restaurante, vendeu calçados na cidade e nas festas das cidades vizinhas. Foi guarda-livros excelente, fazendo a chamada escrita regular que os contadores diplomados assinavam. Fazia a escrita comum das pequenas firmas. Era querido de todo mundo. Um dia ele chegou em minha loja de tecidos logo depois que sofreu um acidente vascular cerebral que paralisou seu lado esquerdo, para me sugerir que baixasse o piso da loja que tinha dois grandes degraus para o cliente subir, explicando-me que, com o piso mais baixo, o cliente entraria mais facilmente.
Mas o que aprendi com o Quito foi fazer da queda o verdadeiro passo de dança. Ele quebrava em seus empreendimentos, perdia todos os bens, ia trabalhar de empregado ou de camelô e se mantinha sempre com a cabeça erguida, confiante, e não perdia a oportunidade de fazer uma piada a cada novo encontro. Ele as criava para quase tudo, e seu bom humor era contagiante. De bem com a vida e imune à penúria econômico-financeira, reerguia-se naturalmente.
Fazia graça com as situações que criava, como o dia em que um pobre senhor entrou em seu bar, perguntou o preço da almôndega e, ao ouvir a resposta agradeceu e já ia saindo quando o Quito o chamou de volta, oferecendo-lhe a bola de carne como brinde. O quase-freguês, parece que perguntara sem muita convicção, mas o Quito insistiu para que ele comesse o salgado. O sujeito, arredio, seguia agradecendo. Ele então colocou uma dose de pinga e disse: “eu ofereço uma pinga para acompanhar”, e não escondeu sua felicidade quando a oferta foi finalmente aceita.
Quito era mineiro em estado puro, se fazia de bobo para pegar os espertos com suas “peças“ mordazes. Certo dia de barraquinha de igreja armou uma churrasqueira no passeio na entrada da praça em frente à loja de um comerciante conhecido por seu pão-durismo. O pão-duro logo se aproximou, e sabendo que o preço do espetinho era 2 cruzeiros passou a fazer as contas em voz alta sobre o lucro, dizendo que o preço tinha que ser no máximo 1 cruzeiro. Os transeuntes paravam atraídos pelo cheiro, mas acabavam aderindo ao motim, esperando o abatimento. O Quito então fez uma proposta irresistível ao líder: “ -Te dou um cruzeiro para você não falar do meu churrasco“. “ -Negócio fechado!“, quem era ele para rejeitar um centavo que fosse? Pegando a nota azul de 1 Cruzeiro e juntando-a a outra com a cara do Marquês de Tamandaré pediu finalmente o tão desejado espetinho. Aí o Quito aplicou-lhe o golpe de misericórdia: “Pra você eu não vendo!’. E os demais se sentiram privilegiados por poder comprar o espetinho por 2 cruzeiros.
Vendia o par de sapato para o cliente pagar uma pequena entrada, mas só entregava um pé, acertando entregar o outro quando recebesse o restante. Fazia isso como se fosse o único raciocínio lógico. Agia com naturalidade e prendia a atenção de todos. Ele sempre me dizia que na vida a gente tem que ir tocando o barco qualquer que seja a situação e olhando só pra frente. Estimulava todo mundo a melhorar, principalmente seus irmãos que ele considerava sérios demais perante a vida.
Um dia ele decidiu ir embora. Eu, na ocasião, disse e o jornalzinho da cidade escreveu que o Quito, tal como chegou, saiu: sem pedir licença pra ninguém! Eu me encontrava na Capital quando soube de sua decisiva ação, e viajei para lá na esperança de ainda vê–lo vivo, mas cheguei exatamente na hora que ele expirava. A escritora Clarice Lispector diz que os bobos, quer dizer, os que se passam por bobos, com todas as suas palhaçadas, estão todos no céu. Diz também que se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. Quito certamente está lá, no céu, troçando de tudo, divertindo os anjos.
Como eu o conhecia bem, sei que ele fez o tresloucado gesto por opção consciente, pois se quisesse teria dado a volta por cima, como fez em outras situações bem mais difíceis. Até para morrer ele escolheu o seu jeito. Eu guardarei sempre na lembrança, aquela imagem serena tantas vezes caindo e outras tantas se reerguendo com tamanha coragem, determinação e firmeza. Até sempre Quito do Baía!

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
4 Comentários
  1. Marcos Leonel

    Como Pompeano tenho algumas lembranças, como comerciante de sapatos e com uma marca muito importante que me traz, inovador.

  2. Renata - Sete Lagoas - MG

    Para o autor: esta é uma bela história de vida, entre tantas vidas bonitas que merecem ser contadas. Que surjam muitos cronistas. Já li todas as suas crônicas até agora e gostei muito. Estou aguardando a próxima.

  3. Quito do Baia.

    Meu caro Sebastião Verly, essa é uma das pérolas de nossa terra, tão querida. O Quito, realmente de muitas histórias maravilhosas e você também de forma maravilhosa soube nos brindar com tão bela recordação. Parabéns, são pessoas como você que nos faz sentir orgulho de ser pompeano. De beber dessa fonte, de causos, de histórias que só em terras como a nossa poderia nos brindar. De gente séria e ao mesmo tempo divertida. Terra de batalhadores, de construtores de uma história, sem duvida marcante. ass – Tony Moreno

  4. Grijalva Maria de Campos/Belo Horizonte

    Tião,
    Que saudades do Quito do Tio Baia…Morou conosco muitos anos naquela casa antiga da Rua Padre João Porto até que o tio Baia mudasse de Buritizal para Pompéu. Era isto mesmo que você descreveu.Pessoa de humor invejável, destemido e ousado, enfrentava as mais diversas situações com uma facilidade de dar inveja a qualquer um.
    Todos gostavam dele, era uma figura muito popular.Quem também escreveu bonito sobre ele foi o Dr. Geraldo Hamilton (nosso amigo, Tatá) que você deve conhecer.
    Um abraço,
    Grijalva

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