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O cozido da comadre

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Memórias
data: 11/05/2010

Quando cheguei à cidade de Paulo Afonso, na Bahia, nunca havia provado o autêntico cozido. Aquele período foi realmente o período de graça da minha vida. Muita gente dizia que eu era um padre. Eu procurava ouvir a todos e guardava segredo de tudo. Na cidade, ou melhor, na vila Poti, que ficava fora dos acampamentos da Companhia Hidrelétrica, eu namorava várias moças ao mesmo tempo e todas gostavam de mim e não faziam recriminações ao meu comportamento.  Era a vida que pedi a Deus.

Periodicamente os amigos, que logo tornaram-se muitos, convidavam-me para almoçar em suas casas.

Eu já nem fazia comida em casa. Se não houvesse convites, eu saia além dos os muros do acampamento e ia até o Hotel ou mesmo um boteco pouco higiênico da Vila Poti. Nós funcionários da Construtora Mendes Junior vivíamos em luxuosas casas e apartamentos fornecidos pela CHESF, cercados por muros de pedra. Do outro lado do muro, vivia a população local que servia de mão de obra geral para a construção das barragens.

Nosso Superintendente, dando continuidade à minha vida paradisíaca, passou a tratar-me como um filho. Dia sim, dia não me chamava para comer em sua casa. O costume foi ficando tão constante que mesmo quando ele estava viajando deixou-me o direito de ir lá filar a bóia.

De longe, eu gritava “Oh comadre…”, pois era assim que todos conheciam a empregada do Superintendente, “…tem almoço aí pra nós?”. E sempre tinha. Eu entrava enchia a pança e voltava para o trabalho. A comadre era dessas mulheres simples, mas muito esperta e cozinhava com simplicidade, mas, tinha uma mão muito boa para os temperos. Exagerava um pouco na pimenta o que me agradava ainda mais.

É interessante contar que, durante nossos relacionamentos, ela me confessou que criou esse artifício porque não conseguia guardar o nome das pessoas. Todo mundo é compadre ou comadre.

Um dia a “comadre” puxando assunto perguntou-me se eu já havia comido “cozido”. Tive vergonha de dizer que não e fiquei enrolando. Ela logo percebeu que eu estava engalobando. Foi longo dizendo. Pois não se avexe não, compadre, que todo mundo que vem lá do sul nunca comeu do meu “cozido”. Mas, o compadre vai comer. No fim de semana tem a feira lá na Vila Poti e vou lá comprar os ingredientes. E comprou de tudo, menos o coentro que é o único tempero que não gosto.

Veio de lá com um quilo de coxão mole ou chã de dentro, cabeças de alho, cheiro verde, (salsa, cebolinha, manjerona), 1 pedaço de toucinho defumado, uns pedaços de paio, 1/2 kg de lombo salgado, uns 250 g de presunto cru, 4 espigas de milho verde, 1 pedaço de abóbora, mais ou menos 1 kg de mandioca, 1 pequeno repolho inteiro, 1 couve-flor pequena, meia dúzia de cenouras, 2 batatas doces, 2 mandioquinhas, 4 bananas da terra, um molho de couve e 2 chuchus.

Perguntei-lhe para que tanta coisa. Daria comida para um batalhão. Ela, na sua simplicidade, falou que o compadre merece e não se fala mais nisso.

Comi aquele rango delicioso e nunca esqueci das espigas milho gostosas e bem cozidas. Sempre que eu conversava com a comadre elogiava o seu prato favorito, o tal cozido, e pedia-lhe a receita. Ela foi adiando , adiando até que eu retornei à Minas e nunca aprendi a fazer aquele prato sensacional.

Cozido para mim só existiu aquele “cozido da comadre”.

Existe uma musica cuja letra diz que “uma francesa que comeu do meu cozido, abandonou o marido e nunca mais voltou pra França”.

Se foi um cozido como o da comadre, essa letra é verdadeira.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Como sempre seus artigos primam pela descrição viva dos fatos, e riqueza de detalhes. Aliás, acabei de ler um agora, sobre enxoval, que recebi por e-mail. Fabuloso. De onde você tira tanta coisa? Como é que pode alguém descrever com tantos detalhes as peças de um enxoval, sabendo até mesmo a proporção de fronhas em relação a lençóis? E isso espanta mais ainda se levarmos em consideração que seus irmãos — seis — são todos varões! Mas, acho que estou “comendo mosca” com relação a alguns dos artigos. Como estou recebendo alguns por e-mail, tenho visitado menos este site. E, só agoro vejo que há, aqui, alguns inéditos para mim. Seus artigos, prezado amigo, não ficam a dever coisa alguma aos dos nossos imortais da Academia. Na primeira oportunidade que eu tiver, quero sugerir à Secretária da Saúde de Pompéu — a sua prima Maria Haidée — que passe a recomendar a leitura de suas crônicas nas escolas, principalmente aquelas que dizem respeito à nossa Pompéu. Elas são peças preciosas para a reconstituição de nossa história recente e de nossos costumes e tradições.

  2. Desculpe-me pelo engano de meu comentário anterior. Eu quis dizer “Secretária da Educação” e acabei trocando por “Secretária da Saúde”. É fato que o “uso do cachimbo faz a boca torta”, não é? É resultado de minhas três décadas de militância na área saúde, tendo incluvise ocupado a Secretaria de Pompéu, no “século passado” (literalmente)!

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