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Belos tempos

Publicado por Sebastião Verly em Memórias
data: 02/04/2014

Lá pelos anos 1950 a 60, no interior, um dos divertimentos em dias livres era a pescaria ou a caça.

Para a pesca, aprendíamos, desde cedo, todos os requisitos. Sabíamos desde torcer alfinetes e fazê-los anzóis de todos os tamanhos, derreter um pedacinho de chumbo para fazer a chumbada, o peso que faz o anzol afundar na água, e finalmente o nó do mais simples ao mais sofisticado em forma de nó de forca. Quando preciso, trançávamos pequenas correntes de arame, especialmente para pesca da traíra que tem uma força enorme nas arcadas dentárias que cortam qualquer fio. A linha em geral eram sobras de carreteis e não conhecíamos ainda a linha de nylon. A varinha de bambu amadurecida e firme bem cortada e sapecada no fogo da fornalha para ficar mais sensível e resistente. A fase de caçar minhocas para isca era uma especialidade. Sabíamos achá-las facilmente cavando sob os terrenos úmidos dos monturos formados com a decomposição de restos orgânicos pelo quintal.

Depois, era ir ao córrego e escolher o poço, aprendíamos a identificar onde se refugiavam os bagres e traíras e as pequenas corredeiras para os lambaris que chamávamos de piabinhas. Em casa, a festa estava garantida. Primeiro limpar os peixes, a começar pelos maiores, alguns com mais de 20 centímetros, depois limpar a miuçalha de piabas das maiores às pequenininhas. Só quem já comeu uma porção de piabinhas fritas, quase torradas, muito mais saborosas do que essas manjubas de hoje em dia, sabe o prazer de pescá-las, limpá-las, fritá-las e saboreá-las com prazer.

Algumas vezes era a maneira de conseguir um complemento ou “mistura” para o feijão com arroz em casa. Havia até a peneira de taquaras que usávamos para capturar maiores quantidades de peixes especialmente nos poços maiores e pequenas lagoas, formadas depois das chuvas. Mas, geralmente era uma farra e quando possível agregava homens, mulheres e meninos que iam até tarde da noite nessa confraternização que parecia piquenique.

A “fisga”, uma espécie de arpão feita de uma lasca de bambu onde se talhava uma ponta era mais como competição e pouco fisgávamos com ela. Em silêncio absoluto aproximávamos bem perto do peixe e zaz! Domingo era dia de pescaria e mais orgulho mostrávamos quando chegava um garoto da capital que nos acompanhava naquela diversão.

Já, a caçada era mais rara. Fazíamos os estilingues ou atiradeiras que, na minha cidade, eram conhecidos como bodoques.

Com um par de gomas de câmara de ar de preferência de carros menores, com um centímetro de largura e cerca de 30 centímetros de comprimento. Um pedaço de couro macio de 2,5 por 5 centímetros recortado habilmente para encaixar o “projétil”, pedras, cacos de telha ou bolinhas de gude velhas, algumas vezes esferas de aço, amarradas firmemente em um gancho de goiabeira ou jabuticabeira, em forma de Y que servia para estirar as gomas e lançar o “projétil”.

Saíamos à caça de rolinhas, das espécies “caldo de feijão”, “fogo apagô” ou pedrezes, juritis, pombas verdadeiras ou torcal, essas bem raras, inhambus, codornas e, uma ou outra vez, perdizes. As rolinhas bem limpinhas e fritas davam pra comer até os ossinhos. Uma delicia! As demais caças cozinhavam-se como os frangos do terreiro, que era a forma de se criar galinhas, soltas no terreiro.

Quando já éramos um pouco maiores, depois dos doze ou treze anos, já conseguíamos usar a espingardinha polveira de carregar pela boca.

Comprada no comércio da cidade ou feitas em casa eram sempre um perigo. Exigia uma consciência maior para o uso dessa arma. A espingarda comprada nas “vendas” era acompanhada de uma vareta para carregar pela boca. O carregamento, como dizíamos, era feito colocando uma porção de pólvora, um pedaço de bucha que deveria ser bem socado até a “vareta pular“, uma porção de 5 ou 6 chumbinhos e novamente a buchinha, as vegetais eram as melhores, mas poderia ser de papel jornal. Esta segunda bucha não poderia ser socada, apenas ajustada para prender as bolinhas de chumbo. Se apertasse muito poderia arrebentar o cano, especialmente quando feita em casa com caninhos do cabo de guarda chuvas. No “cão” da espingarda aquele tubo pequeno e acoplado no final do cano em contato direto com a pólvora, era colocada a espoleta. Na falta desta era posto fogo diretamente com um isqueiro ou palito de fósforo.

Com a espingarda, matávamos bichos de pelo, como coelhos, preás e, uma única vez, num veadinho. E atirávamos também em animais predadores como o gambá, o teiú, as cobras e os pequenos gaviões que ameaçavam o galinheiro.

Depois vieram as tarrafas para a pescaria, as carretilhas e molinetes, as espingardas cartucheiras, os arpões e o batinho, espécie de mini arpão, uma fisga presa a uma grossa linha trançada atirada com espingarda e até iscas artificiais.

Naqueles tempos tudo era bem mais divertido. Belos tempos.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Fernando Alan

    Amigo Tião,

    A fase do bodoque perdura até hoje. Aqueles que não tem videogame em casa ainda são adeptos a esse esporte.
    Eu mesmo já comi carne de rolinha. A gente matava e limpava, as mães fritavam e faziam farofa (assim rendia mais) e saboreávamos o resultado da caçada.

    um forte abraço

    Fernando Alan

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