Tamanho da Letra: [A-] [A+]

Amamentar é um ato divino

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano
data: 07/02/2011

Antes de contar o que realmente desejo relatar, vou relembrar uma das falas que mais me confortaram no momento em que minha esposa se separou de mim.
Doutor Paulo Eduardo de Camargos, um dos melhores médicos que já conheci, que Deus o tenha em sua glória, tentando me confortar, narrou um caso com um médico, seu amigo, que tinha três filhos, duas meninas e um menino. Certa noite, quando voltava da casa de campo onde passaram o fim de semana, houve uma discussão entre o casal. O marido tentou contemporizar até não poder mais. A mulher decidiu que o abandonaria naquele momento e iria morar na casa dos pais. Ele, que ficou em casa, conversou com os filhos, já em idade de compreender e, para sua decepção, os três decidiram acompanhar a mãe. Dr. Paulo solidarizava-se com o amigo e explicava-lhe que a mãe passa nove meses, sozinha com a sua criatura e depois ainda passa horas e horas oferecendo-lhe o que tem de mais forte e agradável, que é o seu leite puro e saudável.
Aqui, o Doutor Paulo, seu amigo e a família, deixam a nossa conversa.
Eu contei há poucos dias de como voltara abatido após o exame médico com o meu urologista. Está tudo bem, mas eu diante do constrangimento tive momentos de baixa moral. Aqui, deixam também minha narrativa o meu médico e minha tristeza.
Parado ali no ponto do transporte coletivo, vi chegarem duas mulheres, uma sacudidona em seus quase cinquenta anos e a outra uma garotinha de não mais do que 21 anos. Durante a espera dos respectivos ônibus, fiquei sabendo, por ouvir a conversa, que se tratava de mãe e filha e, nos braços, o netinho; filho dessa linda jovem.
As duas, que moram numa favela, caminharam, de lá até a Avenida, para tomar o ônibus. Logo que chegaram, a garota levantou a blusa de uniforme de uma concessionária de veículos e começou a amamentar o filhinho. Não me contive de olhar a carinha de felicidade do menino. Havia um quê de magia naquela relação. Com uma das mãos ela apoiava a cabeça da criancinha e com dois dedos da outra, o ajudava na sucção do leite materno.
A amamentação se deu em silêncio e lembrei-me dessa misteriosa relação mãe e filho, esse conluio que ninguém ousa desfazer. Aqueles dois seres mantinham-se numa sagrada comunhão, em profundo sigilo e entendiam-se sem uma palavra. O segredo era bom porque o menino sorria com a maior pureza. A mãe controlava as emoções, sua e da criança, e parecia mesmo que selavam um acordo secreto. Sentia o toque do seu filho enquanto ele se alimentava. Estava integralmente envolvida com seu pequeno neném e só a ele atendia.
A mãe afastou do seio a criança que se mostrara saciada e recolheu o peito com aquela serenidade e respeito que a ocasião exigia. A avó tomou o netinho dos braços, e, sem nenhuma vergonha da meia dúzia de pessoas presentes no ponto de ônibus, começou a lamentar, um lamento de mãe, dirigindo-se a filha em voz até meiga, mas que continha a situação da jovem mãe, que segundo a velha genitora tinha uma vida muito sacrificada para ganhar o dinheiro para sua manutenção. A filha demonstrava ser gente muito simples, de origem humilde e poucas letras, mas transmitia uma força que só as mães possuem no dia a dia. Dava a entender que a mocinha era mãe solteira. A discussão era mansa mas a avó insistia para que a filha vivesse mais e melhor. A avó segurava o bebê e o mantinha na posição vertical que facilita o arroto.
A filha ajeitou no pescoço o crachá da firma preso em um laço, acenou para o motorista do ônibus 2004 que a levaria ao outro extremo da cidade. O ônibus parou um pouco mais à frente do que deveria. Ela correu e ainda lembrou-se de mais uma despedida.
Eu que a seguia com todo meu sentimento e emoção, percebi que meus olhos encheram-se de lágrimas, pois, assim que a menina virou para mais uma vez despedir-se do filhinho e da mãe, eu reconheci em seus olhos as lágrimas que rolaram dos meus.

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Cotidiano

Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Edna Ferreira

    Amamentar é um ato de amor. É uma ligação muito prazerosa entre mãe e filho. Alimenta e nutre a criança, é bom para a mãe, pois ajuda ela voltar a forma do corpo natural e mais rapidamente, além de criar um vínculo maravilhoso. E não custa nada! Amamentei meu filho até quando ele quis. Não tivemos trauma algum quando chegou o momento de parar, foi tudo com muita naturalidade. Amamentar é mesmo um ato divino!

Deixe um comentário