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Agir em vez de Falar

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 17/11/2011

A explicação dos feiticeiros, que não parece ser uma explicação de todo, é letal. Parece inofensiva e encantadora, mas assim que o guerreiro se expõe a ela, dá um golpe que ninguém pode revidar. Portanto, prepare-se para o pior, mas não se apresse nem entre em pânico. Você não tem tempo, e no entanto está cercado pela eternidade. Que paradoxo para a sua razão!

O conhecimento e o poder. Os homens de conhecimento possuem ambos. No entanto, nenhum deles poderia dizer como os adquirira, a não ser que continuou a agir como guerreiro e, num dado momento, tudo se modificou. Eis os defeitos das palavras. Sempre nos obrigam a sentir-nos esclarecidos, mas, quando nos viramos para enfrentar o mundo, elas sempre nos falham e terminamos enfrentando o mundo como sempre o fizemos, sem esclarecimento. Por este motivo, o feiticeiro procura agir em vez de falar e para isso ele consegue uma nova descrição em que falar não é assim tão importante, e em que novos atos têm novos reflexos.

Depois que o guerreiro conquista os sonhos e viu e cria seu corpo sonhador, também deve ter conseguido apagar a história pessoal, a auto-importância e as rotinas. Todas técnicas ensinadas, são, em essência, meios de possibilitar ter um corpo energético no mundo comum, tornando-se o ser e o mundo fluidos, e colocando-os fora dos limites das previsões.

Um guerreiro fluido não pode mais tornar o mundo cronológico. E, quanto a ele, o mundo e ele não são mais objetos. Ele é um ser luminoso existindo num mundo luminoso. Pense assim. O mundo não cede a nós diretamente, a descrição do mundo se interpõe. Assim, a bem dizer, estamos sempre um passo afastados e nossa experiência do mundo é sempre uma recordação da experiência. Estamos constantemente recordando o instante que passou, que aconteceu. Recordamos, recordamos, recordamos.

Se toda a nossa experiência do mundo é a recordação, então não é assim tão absurdo concluir que um feiticeiro possa estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não é o caso do ponto de vista da percepção dele, pois, para experimentar o mundo, o feiticeiro, como qualquer outro tem de recordar o ato que acaba de praticar, o acontecimento que acaba de presenciar, a experiência que acaba de viver.

Em sua consciência, só há uma recordação. Mas para um estranho, olhando para o feiticeiro, pode parecer que o feiticeiro está representando dois episódios diferentes ao mesmo tempo. O feiticeiro, porém, recorda-se de dois instantes únicos e isolados, porque a cola da descrição do tempo não o prende mais.

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