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Amok, a explosão do ódio

Publicado por Carlos Scheid em Antropologia, Comportamento, Crônicas
data: 03/10/2017

amok

O massacre em Las Vegas na madrugada desta segunda-feira, 2 de outubro de 2017, deixou ao menos 58 mortos e 515 feridos, informou o xerife Joe Lombardo. No maior ataque armado na História dos EUA, o atirador Stephen Paddock, de 64 anos, disparou contra festival de música country do quarto que estava hospedado no Hotel Cassino Mandalay, antes de se suicidar. Paddock não tinha passagens anteriores pela polícia e ainda não está clara a motivação .

Outras cenas anteriores e semelhantes a essa: o ex-combatente do Iraque entra tranquilamente na igreja dos E.U.A, mas não leva a Bíblia Sagrada para o culto. Traz consigo o fuzil-metralhadora e sacrifica indiscriminadamente dezenas de fiéis. Depois, sai caminhando pela rua, sem rumo definido.

O garoto de dezesseis entra na escola da Alemanha, mas não leva a mochila com livros. Ao entrar em sala, saca a pistola automática e vai eliminando friamente professores e alunos. Só vai parar sua ação quando for alvejado pela polícia.

Em 22 de julho de 2011, o norueguês Anders Breivik, sob a justificativa de atacar o multiculturalismo e a presença de imigrantes em seu país, detonou uma bomba perto da sede do governo em Oslo e, em seguida, abriu fogo em um encontro de jovens trabalhistas na ilha de Utoya, cerca de trinta quilômetros da capital norueguesa. Morreram 77 pessoas.

Se fosse na Malásia, o agressor correria entre a multidão, furando ao acaso as pessoas com seu cris, o punhal malaio de lâmina ondulada, e gritando: Amok! Amok! E foi esta a primeira notícia que tive, ainda em minha infância, de uma espécie de violência gratuita que explode sem razão nem explicação.

Tais erupções de agressividade são citadas também entre os antigos guerreiros vikings – os Berseker -, conhecidos por mergulharem em tal estado de raiva durante as batalhas, que passavam a agredir tanto os inimigos quanto os seus companheiros.
Segundo os manuais da Psiquiatria, a “síndrome de Amok” se caracteriza por uma súbita e espontânea explosão de raiva descontrolada, com traços de selvageria, quando uma pessoa age de modo irracional, matando pessoas e animais que surgem à sua frente. Muitas vezes, o agressor acaba por suicidar-se.

Tal comportamento, antes atribuído a certas características de sociedades orientais, torna-se cada vez mais comum no Ocidente. Não é o mesmo caso de agentes terroristas, que promovem ataques e agressões em nome de bandeiras políticas ou princípios religiosos. Sua marca principal é o absurdo, o non-sense, pura erupção de ódio.

Na síndrome de Amok, o agressor não tem nada a lucrar, apenas ultrapassou um limiar de desespero e atingiu um ponto onde nada mais faz sentido. A solução para uma vida sem sentido parece ser extravasar a ira e, na impossibilidade de encontrar culpados pelo próprio mal-estar, abandona-se ao comportamento destrutivo.

Os teóricos da Psicologia afirmam que essas explosões surgem de modo aleatório, independentemente de um específico fenômeno causador. São episódios que costumam terminar com o suicídio do próprio agressor. Alguns sintomas, se previamente identificados – como depressão, isolamento e excessiva fadiga -, permitiriam a previsão do desastre.

A pessoa exposta a pressões excessivas, agravadas pelo sentimento de isolamento e de incomunicação, pode tornar-se uma bomba ambulante. Mas também um grupo social ou uma nação – seria o caso da Coreia do Norte? – pode ser pressionado a tal ponto, que adote comportamentos destrutivos fora de controle.

Como estes episódios se tornam cada vez mais frequentes, é hora de refletir sobre os rumos que as sociedades humanas pretendem imprimir ao seu itinerário. Hora de descobrir que a paz tem seu preço. Um preço que a sociedade de acumulação, produção e consumo parece pouco disposta a pagar…

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Carlos Scheid -
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