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XVI – Confiante na Vitória

Publicado por Bill Braga em Memórias
data: 24/02/2012

Como venho lhes dizendo, eu estava tentando aprender a jogar. A melhor forma de resistência é a pacífica, já ensinava Gandhi. Aqui, dentro da Pinel, só preciso entrar no jogo quando converso com o Dr. Lucas. Os enfermeiros e enfermeiras já entraram no meu jogo. Com o violão, conquistei meus colegas. Sinto-me um líder aqui dentro. Todos vêm para o meu quarto, todos me contam suas angústias. Talvez eu os ajude mais que os homens de branco. Eu poderia desencadear a revolução aqui dentro, mas não. Ainda não é a hora. Eu precisava sair, preparar o mundo lá fora, para então libertar meus amigos do cativeiro. Tinha este papel. A mim fora atribuído, não por Deus, ou pelo destino, mas eu sentia em mim esta missão. Sentia e via a reciprocidade dentro da clínica. Realmente eu recolho a admiração nos olhos, nos gestos, nos cigarros que me dão, no olhar, essencialmente. Há sempre algo a desvendar no olhar. Nem todos podem acessar os segredos da alma através da retina. Eu podia. Isto me diferenciava, já desde antes de ser privado de minha liberdade e plenitude.

Antes, ou talvez depois do psiquiatra, não importam temporalidades, eu estava no sítio de minha vó. Próximo a BH, talvez tenha levado a esperança do encontro com a natureza trazer de volta quem eu era antes da viagem. Realmente a natureza tem o poder de transmutar os homens, trazer paz, harmonia. Mas eu não fora sozinho, as vozes, sempre elas, permaneciam retumbando em meus ouvidos. E lá deviam também estar os donos das vozes, e toda a procura infindável seguia.

Quando todos meus parentes ali me olhavam, sentia através dos raios refletidos, da dilatação das pupilas, a tristeza, o medo, a angústia. Era algo difícil, estar num paraíso perdido, que sempre fora um refúgio de paz, e sentir todos aqueles olhares, que por vezes, de tanto medo que refletiam se tornavam ameaçadores.  Eu tentava jogar o jogo, não me afetar, mas a tortura das vozes, potencializadas pelos olhares me perturbava. Muito. Precisava me desligar, sair de mim. Não, eu não era esse monstro que seus olhos refletiam. Não. Precisava extravasar.

Eu, toda minha agitação caótica, e uma bola de futebol. Eu corria, de lá pra cá, jogando, sozinho, chutando com uma potência incrível, que nunca tivera. Descarregava ali. Era mais. Jogava com as vozes, com meus eus particionados, jogava em busca de driblar a mim mesmo. E o chute potente no fim era a expressão maior do meu sofrimento. Colocava na bola a potencialidade de meus desejos insaciados, de Sandra que ficara no Rio, de minha namorada, que não confessava o ato de traição, tampouco conseguia me ajudar. De Tatiana, enfim, musa etérea, que sempre me escapava apesar dos doces sussurros ao pé-do-ouvido. Pobre bola, bola companheira. Não eras culpada, mas tomastes a culpa. E caí. Exausto, exaurido, ainda inquieto, mas sem forças físicas para continuar aquele jogo do eu contra mim.

Desde então eu percebi o papel a que me destinei: a liderança. E quanto incomodava a todos ali eu saber e assumir este papel. Primeiro um livro. Minha mãe estava com um, com o título “A doçura do mundo”. Me indignei, como você pôde ler meu livro? Eu o havia escrito, alguém roubara meus escritos e publicara sem minha permissão. Claro! Eles são invasivos, e não colocaram meu nome, nem um pseudônimo. Mas eu havia escrito. Na realidade eu condensava em mim toda a doçura do mundo, por isto me tornara um incômodo. Briguei com ela, até que me desse o livro.

Depois uma partida de futebol na TV. Cada jogador ao entrar no gramado me mandara uma mensagem. Eles estavam comigo, haviam se comovido. Me deram o sinal. Eu estava no comando da partida. Abri o livro, “A doçura do mundo”, fiz o desenho tático dos dois times. Era como jogar um videogame. Onde eu desenhasse a bola estaria, as jogadas sairiam tal qual meu desejo. E funcionava. Eu comandava aquela partida, com o apoio dos jogadores, que viam em mim uma liderança. Como meus parentes não puderam perceber! Claro, eles são sãos. Não tem a elevação mental necessária. Por isso me condenavam. Mas eu me divertia comandando o jogo. Às vezes os jogadores erravam, não me seguiam, óbvio, apenas para despistar os outros, mas eu estava no controle. O entretenimento não durou muito e a tortura das vozes, a necessidade de sair me dominava de novo. “O mundo me condena e ninguém tem pena”, cantou certa vez Paulinho da Viola. Mas eu sentia que o mundo estava mudando, e começando a pender a meu favor.

Eu começava a me libertar dos pesos, ganhava asas, e queria alçar vôos. Mas havia sempre uma repressão. Fui entender muito tempo depois porque eles não podiam me entender. José Ingenieros pôde lidar com isso um século antes de mim:

“Vives apenas devido a essa partícula de sonho que te sobrepõe ao real. (…) Nem todos extasiam, como tu, ante um crepúsculo, nem sonham ante uma aurora, nem vibram ante uma tempestade. (…) É dada a poucos essa inquietude de perseguir avidamente alguma quimera (…) A sanção alheia é fácil para o que concorda com rotinas secularmente praticadas; é difícil quando a imaginação põe maior originalidade no conceito ou na forma”

Assim eu me assumia na minha plenipotencialidade, e começava a desfrutar das benesses que minha posição me garantia. Quanto mais eu assumia o líder que era, mais repressão eu sentia dentro de casa. Na realidade eu não devia mais ter casa, o mundo era minha morada, as pessoas meu trabalho. Hoje, apesar de momentaneamente trancafiado, ainda sinto o mundo clamando por mim, e aqui dentro pratico com meus pares, o que farei com os ímpares. Em breve estarei aí fora, cumprindo a minha sina. Me sentia como o meu companheiro de ideal, D. Quixote: “Imaginando-se um predestinado pelo valor de seu braço e de seus nobres propósitos, apressou-se a iniciar a incomparável jornada”, ou ainda como Joana D´Arc, encarcerada, ouvindo os espíritos lhe dizerem: “tem coragem! Serás libertada por uma grande vitória!”.

 

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Bill Braga -
8 Comentários
  1. Já não me lembrava dessa passagem da “Doçura do Mundo”. Revivida nesse seu primoroso relato, relembro seu olhar desconfiado, quando conversávamos sobre o livro, e até mesmo você começava a duvidar de sua lógica. Momentos ainda de muita preocupação e cuidados.

    • Bill Braga

      Pois é pai…

      A lógica é outra nestes momentos, se ainda é possível falar de lógica.

      A Doçura estava ao redor, neste cuidados e preocupações que você fala, ainda que não pudesse perceber!

  2. Rod

    Grande Bill,

    Incrível sua capacidade de nos por dentro de sua cabeça durante estas memórias. Me deixa emocionado. Estou torcendo para você com cada capitulo.

    Abraço
    Rod

    • Bill Braga

      Obrigado Rod,

      Pela companhia, pela torcida… Também estou torcendo a cada um deles! Torcendo juntos chegaremos em algum ponto, camarada!

      Abraços

  3. Myriam Menin Ferreira

    Querido Biel, voce sabe que muito aprecio Joana D´Arc e que D. Quixote é meu heroi predileto. Ambos assumiam suas certezas. Ela foi usada, ele pairava acima das necessidades cotidianas (que ficavam por conta do Sancho). Beijo, Vó

    • Bill Braga

      Sempre com sua sabedoria Vó, resumiste muito bem…

      Não é fácil assumir suas certezas e pairar acima das necessidades (desnecessárias) do cotidiano…

      Nem sempre isto é compreensível, concorda?

      São dois ícones, são dois personagens arquetípicos da loucura de cada um!

      beijos

  4. Caro Bill,

    Após um tempo retomei a leitura de suas crônicas.
    Realmente nos impressiona a sua capacidade de nos colocar dentro de sua cabeça e visualizar as coisas que você vivia.

    Um forte Abraço

    Fernando Alan

    • bill

      Caro Fernando,

      Agradeço sua leitura!

      Realmente minha intenção foi de transportar os leitores para minha realidade paralela!

      seja bem-vindo a estas memórias!

      abraços!

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