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VI – A tentadora loucura e suas deliciosas sensações de poder

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 15/12/2011

A noite caía festiva em Juiz de Fora. Após meu acesso de raiva, de toda a agitação, pelo que me lembro houve um momento de reconciliação. Me lembro que fui ao camarim, e conversei com a drag por alguns instantes, ela sem os trajes. Vi que havia o conhecido, o homem por trás da drag, que havíamos conversado antes dele se produzir… Não sei muito bem o que dissemos, mas sei que tudo se acalmou. Uma pessoa atuou de forma extraordinária, mediando todo este conflito – interior e exterior – por que eu passava: Tatiana. Talvez por ela ser psicóloga, talvez pela sintonia que eu havia sentido entre nós, ela, e só ela, conseguiu me ajudar naquele instante. Conversou comigo até que a agressividade passasse, me incentivou a não ligar para o resto da festa, me deu o tempo e as palavras que eu precisava. Por fim, tudo terminou. Não ainda. Parecia ter ficado tudo bem, mas a noite caía, e ela sempre traz à tona outros mundos. Mas por que me fogem tanto as memórias? Seria tão mais fácil se elas estivessem organizadas, acessíveis… E porque teimam em me trancafiar nesta clínica? Será que não percebem o grande engano em tudo isto? Teimam em me medicar, pois sabem que não podem me suportar. Poucos são capazes de suportar a verdadeira verdade. Os loucos são os porta-vozes de uma verdade inacessível aos sãos. Por isso querem me domar. Me lembro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, a epígrafe: “As crianças e os loucos dizem sempre a verdade!”

Tatiana ia-se embora, fisicamente, mas não me abandonaria naquela noite. Íam com ela os gays, héteros e simpatizantes, e a festa acabava. O tumulto que provoquei com meu acesso de ira, não diminuiu o brilho da festa.  Fui para o meu canto, não queria muito papo com meu pai ou Marquinhos. Eles não me entenderam, me condenaram e tinham me magoado. É o egoísmo reinante dos pontos de vista. Eles se foram e eu fiquei. Só. Eu e minha agitação interna, deitados em Juiz de Fora. Minto. Eu, a agitação e Tatiana. Ela parecia estar ali, tentando ainda me acalmar. Ela sabia que eu só me acalmara por fora, o turbilhão continuava por dentro. E minha namorada? Será que eu tinha falado com ela nestes dias? Será que ela sabia o que estava se passando? Ela era tão amável, gostava tanto de mim. Possivelmente estávamos conversando sim. Mas como, se eu gostava tanto dela, me encantava tanto com Sandra e com a Tatiana. Por que meus desejos estavam tão intensos, a ponto de não conseguir dormir? Ela não merecia o ato de traição. Muito menos os pensamentos. Pensamentos são mais perigosos que atos. Se são! Os atos terminam ali e podem ser esquecidos. Os pensamentos grudam nos sentimentos e invadem o inconsciente. E nos tornamos meros reféns deles. Mas porque não parava de pensar? Sentia meu coração acelerado, meu cérebro parecia comprimir meu crânio. Minhas pupilas dilatadas. Não! Não havia usado nenhuma droga além do álcool e do tabaco. Mas então porque não conseguia relaxar?

Assim seguimos a noite, eu e a imagem dela, tentando em vão descansar. Como eu queria naquela noite sentir este cansaço que sinto agora, que a vista turva mas eu teimo em continuar … Devo ter conseguido fechar os olhos umas cinco da manhã. As seis levanto assustado. Ouvi. Eu ouvi. Ele disse isto. Filhodaputa! Eu não fiz isso. Porque ele diz isso, se eu não usei nada. Eu não preciso usar isto. São todos uns babacas! Ele, meu pai, ninguém entende que não usei nada. Ele disse: ele não consegue dormir porque cheirou pó. Não cheirei, porra!, disse de novo, eu não preciso ouvir isto, definitivamente não preciso daqueles hipócritas do quarto ao lado.

Preciso continuar a lhes contar, a vocês… a enfermeira chegou, quer conversar, mas eu preciso lhes contar, que ela espere um pouco. Foi aí que tudo começou, na visão deles … Eu ouvi eles falando que eu tinha cheirado pó, cocaína. Mas não tinha feito nada, e isto me revoltou. Arrumei minhas coisas, invadi o quarto aos berros, dizendo que não tinha cheirado, que eles eram mentirosos, que eu não precisava dali, e que ia embora. Meu pai acordou sem entender, Marquinhos tentou argumentar, mas não ouvia. Só lhes xingava e dizia que ia para não voltar. Meu pai quis me dar um dinheiro, eu estava sem nenhum. Não aceitei, não podia aceitar dinheiro dele. Ele deve ter enfiado no meu bolso, não me recordo… Desci enfurecido, meus olhos agora mudaram, e saí andando por Juiz de Fora, atrás de um táxi. Eles não paravam para mim… Ninguém queria me ajudar… Onde estava a Tatiana? Só ela podia me ajudar!

Ufa… Não consigo ir além… Sinto um peso no corpo, um peso nas pernas… Acho que é o tal do Haldol, o inimigo dos criativos… Preciso me deitar, descansar, a cabeça já está pesando … Mas entendam, que esta situação seria o começo do que chamam de “surto psicótico” … Eu juro que ouvi as vozes me repreendendo, mas eles dizem que as vozes estavam na minha cabeça. Até hoje me lembro do quão reais elas me pareciam. E este novo conflito me alçou a lugares em que ninguém que chegou conseguiu contar… e vocês estão tendo o privilégio de ler em primeira mão … a tentadora loucura e suas deliciosas sensações de poder.

 

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Bill Braga -
6 Comentários
  1. Mel

    Ler seus textos me trazem uma catarse.. a melhor parte é saber que tudo se fechou de uma forma boa! Parabéns pelos textos e continue escrevendo!!
    Beijos!

    • Bill Braga

      Mel, fico muito feliz de saber que você também passa pela catarse que passo ao escrever, e saber que acima de tudo é uma catarse positiva e renovadora…

      Obrigado pela força!

      beijos

  2. Bárbara

    Simplesmente fantástico!

    • Bill Braga

      Obrigado Bárbara,

      Fantástica é tua leitura companheira!!

  3. Lucas Ferrari

    Bill, acho super interessante essa comparação que você faz entre a loucura e o efeito das drogas. Fico pensando se a droga nada mais é que uma dose cavalar, porém controlada (quando se sabe que o efeito passa), de loucura. Uma loucura com hora pra terminar. Até que ponto a droga é um risco ou uma experiência transcendental se ela faz o mesmo percurso da montanha russa, sempre voltando pra estação de partida? E o pânico que é quando rola uma bad, quando a previsão de retorno não é tão clara assim – uma montanha russa com os trilhos quebrados no meio do looping…

    • bill

      teria fim a loucura meu caro? hora pra terminar? ou seria a sanidade um conceito pré concebido?

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