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Europa, da unidade à ruptura

Publicado por Antonio Carlos Santini em Europa, Geopolítica
data: 27/06/2016

europa, da unidade à ruptura

Das ruínas da Segunda Guerra mundial, ergueu-se tijolo a tijolo uma notável construção humana: a União Europeia. No primeiro instante, três nações se uniram em torno de objetivos econômicos e industriais: Bélgica, Holanda e Luxemburgo, sob a sigla de Benelux. Logo após, em 1952, com a adesão da França, Alemanha e Itália, surgia a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço – CECA.

O grande inspirador desse processo foi Robert Schumann, ministro francês dos Negócios Estrangeiros. Aliado ao gênio político do alemão Konrad Adenauer e do italiano Alcide De Gasperi, propôs um plano de aliança supranacional que visava a superar o estreito nacionalismo em busca do bem comum de toda a Europa.

Superando o ódio e os ressentimentos gerados por duas guerras, abria-se o horizonte para um tipo de convivência até então insuspeitada, agrupando progressivamente nada menos que 28 Estados membros. Muito além do plano meramente econômico, surgiriam novos acordos e instituições supranacionais, entre as quais um Parlamento Europeu e um Tribunal de Justiça para toda a União Europeia. Logo viria a abertura das fronteiras, a abolição dos passaportes e a livre circulação dos cidadãos.

O reconhecimento dessa esplêndida realização humana veio com o Prêmio Nobel da Paz, em 2012, que considerava a sua contribuição, ao longo de mais de 60 anos, para a reconciliação, a democracia e a defesa dos direitos humanos.

Uma conquista espiritual

Pouca gente hoje sabe que os “pais” da União Europeia, Schumann, De Gasperi e Adenauer foram três políticos de profunda vivência católica, três homens de espírito, que no auge das crises de seu tempo, conseguiam reservar uma semana de reflexão e oração no silêncio de um mosteiro. Eles sabiam que a unidade do Continente devia firmar-se a partir de suas raízes cristãs, cujos valores sempre defenderam.

Nos últimos anos, via-se claramente que a Europa se afastava de suas tradições e rumava para o caos. Este é o sentido das interrogações do Papa Francisco, quando disse: “Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?”

Esta perda de memória corrói os vínculos entre as nações europeias e sugere sua rápida desagregação. Abrindo mão de suas raízes cristãs, a Europa se desfaz.

O Papa Francisco também acentuou este aspecto: “É preciso fazer memória, distanciar-se um pouco do presente para ouvir a voz dos nossos antepassados. A memória permitir-nos-á não só de evitar cometer os mesmos erros do passado, mas dar-nos-á acesso também às conquistas que ajudaram os nossos povos a ultrapassar com êxito as encruzilhadas históricas que iam encontrando. A transfusão de memória liberta-nos da tendência atual, muitas vezes mais fascinante, de forjar à pressa, sobre areias movediças, resultados imediatos que poderiam produzir ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana”.

Uma história perdida

Francisco apontou para a necessidade de “evocar os Pais fundadores da Europa. Eles souberam procurar estradas alternativas, inovadoras num contexto marcado pelas feridas de guerra. Tiveram a audácia não só de sonhar a ideia de Europa, mas ousaram transformar radicalmente os modelos que provocavam apenas violência e destruição. Ousaram procurar soluções multilaterais para os problemas que pouco a pouco se iam tornando comuns”.

Nas palavras de Schumann, “A Europa não se fará de uma só vez, nem através duma construção de conjunto; far-se-á através de realizações concretas que criem, antes de tudo, uma solidariedade de fato”. O trabalho dos pais da Europa consistiu em estender pontes. Agora, o Reino Unido dá o primeiro passo para erguer novos muros. Em 1958, diante do Parlamento Europeu, Schumann dizia: “Todos os países da Europa são permeados pela civilização cristã. Ela é a alma da Europa que se precisa restituir”.

Nas últimas décadas, o Parlamento Europeu adotou inúmeras medidas no campo legislativo que batiam de frente com as tradições de várias nações, feriam a estrutura tradicional da família e alimentavam uma reação de cunho nacionalista que vinha fortalecer os partidos separatistas.

Enquanto isso, na Santa Sé, estão em curso os processos de beatificação de Alcide De Gasperi e de Robert Schumann, mostrando que a busca da unidade pode ser um itinerário de santidade.

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Antonio Carlos Santini - Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia/ Licenciado en letras - Portugués y Francés. Profesor de artes e ciencias humanas. Es evangelizador católico, compositor de músicas religiosas, autor de varios libros de catequesis y poesía. Residente em Belo Horizonte MG
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