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Ayahuasca, miração e manipulação – parte II

Publicado por Anadir Freitas em Religião, Xamanismo
data: 01/02/2022

ayahuasca II

Iniciação

Inicialmente me senti recebida com esmero, atenção e muitos cuidados, acolhida por uma grande e numerosa família, abraçada pela irmandade.

Primeira fase, para ingressar ao uso ritualístico do chá ayahuasca passa-se por uma entrevista, os principais questionamentos são sobre o uso de medicamentos controlados, drogas lícitas e ilícitas, distúrbios de ordem psíquica, antecedentes criminais. Respondido e aprovado segue a segunda fase, orientações do uso de vestimentas, alimentação, o que levar para o ritual, não fazer uso de perfumes.

Terceira fase, como é a circulação dentro do salão, templo, terreiro, sempre sentido anti-horário durante o ritual, onde está a água, banheiros e manter-se calado, falar somente com autorização do responsável na condução do ritual ou sessão.

Toda atenção e cuidados são constantes durante o ritual e após o ritual, até que retorne várias vezes e se firme na caminhada junto com os discípulos, seguidores, irmandade.

Cada instituição, organização, grupo, que faz uso do chá ayahuasca tem suas peculiaridades, nem todos seguem a mesma ordem estrutural administrativa, ritualística. Foram anos dentro de um sistema fechado que se intitula religioso, combinando o título de utilidade pública e religião com doutrina cristã reencarnacionista.

O uso ritual da Música

Artistas de todos os segmentos são bem aceitos, bem vindos e valorizados, toda e qualquer forma de comunicação através da arte é acesso para influenciar e trazer mais seguidores, principalmente o público jovem, que garante a perpetuação da seita. As substâncias psicodélicas produzem profundas alterações na senso-percepção, abrem os receptores de serotonina que é o comunicador bioquímico estimulador das visões oníricas, proporcionando um balanceio de sonolência entre a vigília e o estágio alfa, o primeiro patamar do sono. É o vestibulo do inconsciente. Visão, tato, audição são estimulados quando ingeridas e se mantém atuando por 15 a 30 dias no organismo, dependendo da sensibilidade de cada pessoa. A utilização de músicas durante os rituais vem de tempos primórdios, músicas de rezos, cânticos, chamadas, instrumentos. A música é uma das formas de conduzir a força da ayahuasca, pode aumentar e intensificar as visões, abertura de portais espirituais, gerando conexões proteicas entre os neurônios, ou seja imprime marcas permanentes em camadas profundas do inconsciente emocional e afetivo, quer dizer doutrinação arraigada de crenças.

Os artistas trazem por natureza a busca do transcendente, por isso são muito apreciados pela hierarquia templária. Por mais que a crença estimule a devoção, eles passam a acreditar estarem engajados em uma majestosa obra divina. A sutileza em obter as melhores mensagens doutrinárias em linguagem poética, com melodia, harmonia e ritmo dançante durante a beberagem do chá tem um efeito extraordinário para estimular a miração, é um ganho valioso, o guia doutrinário utiliza este potente instrumento de lavagem cerebral sem pronunciar uma palavra, utilizando a música como veículo. O artista ganha admiradores, fãs, vende suas músicas de reza, cura, devoção em todas as igrejas, templos, grupos, terreiros, e inicialmente se sente admirado em um nicho de seguidores fortemente arregimentados assim como acontece em outras confissões religiosas. Mas com o tempo sentem um exaurimento de sua inspiração, ao perceberem que através da ingestão da ayahuasca, sua música é utilizada para manipulação cerebral guiando e conduzindo o rebanho humano a obedecer cegamente as mensagens diretas e indiretas que foram induzidos a inserir em suas músicas, rezos, chamadas instrumentais.

O remodelamento psíquico

Inevitavelmente ocorrem transformações e desconstruções de padrões da formação da personalidade, assim a estrutura psíquica de quem entra é reprogramada, moldada nos padrões da religião. Galguei graus hierárquicos, exerci muitos trabalhos voluntários e dedicação no intuito de evoluir, construir, expandir, edificar internamente o amor fraternal, todo empenho ao desenvolvimento espiritual.

Durante o uso ritualístico da ayahuasca as intenções do guia, dirigente, mestre, guru, xamã, são incutidas na memória inconsciente de quem bebeu o chá, é neste momento de vulnerabilidade que estamos indefesos à guiança das palavras ditas por quem está conduzindo o ritual, que passam a ecoar em camadas cada vez mais profundas do inconsciente.

Registros das palavras e orientações, doutrinas e ordens ficam guardados na memória e aos poucos somos conduzidos a fazer o que nos ordenam, pois a ordem tem que ser obedecida. Aquele que não obedece estará infringindo as leis da seita religiosa, mesmo sendo estas ordens conflitivas com as Leis Constitucionais. É obrigatório obediência, quão mais elevado o galardão maior o comprometimento de obediência ao mandante guia, o guru supremo.

Me refiro a Leis Internas de opressão, pressão, impostas, veladas, que não estão escritas, até mesmo por não ser conveniente ser tão explícito, são lidos documentos durante o ritual que nas entrelinhas consagra os poderes dos “mestres”.

Com o passar do tempo, meses, somos afastados dos familiares, amigos, a sociedade exterior ao uso do chá. A desconstrução e reconstrução de uma nova identidade passa imperceptível, passamos inconscientemente a sentir-nos superiores, o Ego inflado, a ilusão de fazer parte de uma elite iluminada, de estar cumprindo uma missão grandiosa. Passamos a acreditar estar em condições excepcionais de expansão da consciência, de ser bom, de pregar a Paz, fazer o bem.

Passamos a viver em uma bolha, sociedade discreta e secreta, fechada, nada do que ocorrer dentro do templo, igreja, comunidade, grupo, sessão, ritual, gira, pode ser dito ou comentado com quem não está esclarecido, falamos a mesma linguagem, enquadrados e despersonalizados, robotizados em um sistema de lavagem cerebral, manipulação mental, patriarcado opressor em que o mantra é a dominação do mundo pela Paz.

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7 Comentários
  1. Sânia Campos

    Esta é uma experiência muito particular e que pena … Ao contrário, há quinze anos consagro esta “bebida sagrada” e só tenho a agradecer os ensinos que recebi. Contribuiu para que hoje me sinta mais livre e consciente/presente. Quantas ilusões foram desfeitas, quantas curas! Lições sobre o desapego, a humildade, a fé, a paz! Resignificar a vida, as relações e compreender com o Coração! Coragem para seguir o caminho do coração!

  2. Sânia Campos

    Como é o relato de uma experiência pessoal, acho mais adequado dizer por exemplo passei a viver e não passamos a viver em uma bolha, sociedade discreta e secreta, fechada: sou afastada e não
    somos afastados dos familiares, amigos. Aqui também: passei inconscientemente a sentir-me superior, Passei a acreditar estar em condições excepcionais de expansão da consciência. Porque acredito que é imprudente generalizar a sua experiência… Afinal quem passamos?
    Já ouvi relatos opostos: Reconciliei com amigos, construí uma relação mais amorosa com meus pais e familiares, percebi que nada sei e que a fé pressupõe humildade confiança e entrega… Muitos relatos de vivências de conexão espiritual e humana amorosa.
    Não estou duvidando de que possam distorcer e fazer uso inadequado de um conhecimento sagrado… Mas para os leitores que desconhecem o tema, podemos criar preconceitos e julgamentos que não contribuem para o diálogo.
    “Que nos cure Que nos cure Madre Terra!!!!

  3. Sânia Campos

    Por último gostaria de comentar que nas instituiçoes da sociedade sejam religiosas, políticas ou de qq outra natureza há situaçoes de abuso de poder, manipulação … O Brasil recente assistiu a triste história do João de Deus. Há denúncias cotidianas de pastores, padres,políticos, médicos e até professores com práticas abusivas, assedio moral e sexual, corrupcao etc. As sombras egoicas de cada um refletem na sociedade. Importante ter canais sérios de denuncia e apuração. Entretanto isto requer sabedoria… num contexto de tanto ódio e intolerância, qualquer generalização é perigosa. Sabemos que ainda temos no país muito desrespeito às diversidades,intolerância religiosa. Por isto acho que é preciso estar atenta a forma e conteudo de uma denuncia necessária e legítima. Esta segunda versão nao contextualizou bem a situacao de opressão vivida e acabou passando a falsa ideia de que o problema está no chá e nos rituais, como se todos grupos e religiões que consagram o ayahuasca fossem opressores, manipuladores. Eu acredito que a maioria faz um trabalho amoroso e sério.

    • Anadir de Freitas Dias

      Este é um relato de uma parte da minha experiência de vida que ao estar inserida em uma sociedade / comunidade/instituição que faz uso ritualustico e religioso da ayahuasca, ao galgar graus hierarquicos dentro da instituição, não há como separar-se do todo. Passamos a viver o “Um”, pensar para e no coletivo, todas as ações são voltadas para a irmandade. Vida pessoal, profissional, religiosa, social, lazer, viagens, tudo voltado ao coletivo.
      Somos afastados da família, amigos..os familiares e amigos que nào fazem parte da instituição vão ficando distantes, Alguns casais se separam por não seguirem no mesmo caminho espuritual (tem que seguirem juntos, é a orientação! A mulher tem que acompsnhar o marido! Tem que obdecer!), tantas são as tramas que faz parte deste relato que é escrito em varias materias.
      Não generalizo! Mas tenho a certeza que uma celula doente, prolifera e adoece o tecido que prolifera e adoece o orgão que adoece e prolifera adoecendo o sistema, que adoece e contamina todo o organismo, adoecendo o corpo. A causa precisa ser sanada.

      • Anadir de Freitas Dias

        Estive atuando no ativismo no caso do João de Deus, assim como inumetos outros casos de violação e violencia contra mulheres. No meu caso, as denuncias foram feitas no devido tempo, documentadas, registradas.O Estado esta corrompido!As autoridades são bem vindas para fazerem parte da instituição e bebem ayahuasca, legislam em causa propria. Coloco à disposição em publico, a minha vida para aqueles que queiram investigar, examinar, revirar, virar, desvirar e eu ter o direito em expor a minha vida dessas experiências do inferno da escuridão da luz da ayahuasca! Ser obrigada a calar por falar a VERDADE, ou seja: alertar que há manipulação!
        A pedido de inumeras vitimas que vem sofrendo e
        devido à Pandemia do Covid, venho registrar esta real história de vida que infringe leis divinas e constitucionais no meio ayuasqueiro. Além de estar auxiliando as vitimas que se encontram em estado vegetativo e sabem o quão precioso é saber que há saída.
        Vida aberta! Nada a esconder! Tudo à declarar!
        Despertar da consciência é mudar e transformar a dura realidade.
        Não sou a primeira, nem a ultima!
        Lanço uma pergunta: – Como desatar um nó espiritual?

  4. Ludmila Alcântara

    Concordo plenamente com a Sania, as minhas experiências com o chá e com a religião e com a comunidade religiosa, sempre foram boas, como.em.todo lugar existe exceção, mas nesse lugar fiz muitos amigos,durante os anos que lá estive, que são meus amigos até hoje, e nunca me afastei dos meus amigos e parentes por causa da religião, isso ai tem a ver com a personalidade (ou falta dela) em cada pessoa… nunca fui obrigada a nada! Inclusive no momento em que quis me afastar, foi super tranquilo, todos continuam a gostar de mim e tenho certeza se um dia eu quiser voltar, serei bem vinda. Talvez a pessoa que escreve esses textos tenha passado por algum trauma muito pessoal e esteja de alguma forma em busca de vingança, mas como aprendi messe lugar “o mal se paga com o bem, outra paga o bem não tem”.

  5. Anadir Feitas

    Interessante e comum a forma de interpretação do julgamento que é culpabilizar o seguidor/ discípulo, quando este traz a desconstrução da ilusão de estar em um lugar perfeito. São inúmeras criticas para não se aceitar e enxergar a realidade, até mesmo citar como falta de personalidade por expor tais abusos e violações de direitos humanos. O desvio de caráter dos dirigentes que são encobertos pelas instituições são válidos quando não atinge a quem nada vê além de mirações e burracheiras (visões) superficiais. Os bastidores são pesados e antagônicos, quem eleva de grau hierárquico encontra com tais aberrações até onde é permito a cada um ver. A ordem é calar! Pois caso não o faça, as consequências são graves. Há quem permaneça nas beiradas, sem chegar ao centro do conhecimento, muitos cegos a andar em círculos, poucos que acessam os bastidores se manifestam, quem quer ficar sem a dose de chá para viajar nas mirações? Inocência, cegueira, ingenuidade ou conivência? A quem mais é dado mais é cobrado. Não é falta nem excesso de personalidade, isso chama-se caráter! Quem sofre as violações de direitos humanos, o ciclo continua pois a não aceitação dos seguidores da existência de tamanha escuridão que guia às trevas da imperfeição desumana, confunde o caminho da retidão com o caminho da ignorância da vingança. Coragem para enxergar! Coragem para seguir na Luz da Verdade! Coragem para conseguir desvincular! Coragem para viver a realidade!

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