Romaria de Santo Antônio do Boqueirão: 278 anos

Neste artigo quero enfatizar a Romaria de Santo Antônio do Boqueirão, uma tradição que em 2026 completa 278 anos de peregrinação realizada anualmente na comunidade do Distrito de Santo Antônio do Boqueirão, no município de Unaí no noroeste do estado de Minas Gerais, onde a festividade acontece em meio a um clima místico de muita fé e devoção, que se expressa com uma grande Romaria, celebração de missas, trezenas e cultura popular.
A Igreja católica celebra em todo o Brasil no dia 13 de junho a Solenidade de Santo Antônio de Pádua, também conhecido como Santo Antônio de Lisboa, uma referência a cidade onde nasceu. Santo Antônio, ao longo dos séculos foi se tornando um grande Santo de devoção popular no mundo inteiro. Nascido em 1195, em Lisboa, o jovem Fernando de Bulhões Taveira de Azevedo, nome de batismo de Santo Antônio, ingressou na Ordem dos Agostinianos aos 15 anos. Dez anos depois, já em Coimbra, foi ordenado sacerdote e adotou o nome de Antônio ao ingressar na Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco de Assis.
O santo português, que foi presbítero e ainda hoje é considerado doutor da Igreja, ao longo dos anos ganhou a fama de ser o santo casamenteiro. Diz a tradição que em certa ocasião intercedeu por uma jovem que teria conseguido fazer um ótimo casamento. A sua fama de santo casamenteiro correu o mundo e as crendices populares permanece até nossos dias, como colocar a imagem do santo de cabeça para baixo ou retirar o Menino Jesus do colo dele para conseguir um bom casamento, as crenças estão ainda hoje vivas e presentes na tradição de devoção ao Santo.
A Devoção ao santo português se enraizou fortemente no interior brasileiro, formando uma identidade única onde o sagrado se encontra com o profano, como por exemplo as romarias, folias, Rezas do terço e cultura religiosa popular, contrasta com forró, quadrilhas, shows e muitas outras diversões do povo sertanejo.
A forte ligação do povo mineiro com o “santo casamenteiro” nas regiões Norte e Noroeste de Minas Gerais é uma das expressões de fé católica mais antigas. As Romarias de maior concentração de fieis devotos de Santo Antônio na região é realizada no Distrito de Serra das Araras, no município de Chapada Gaúcha e Santo Antônio do Boqueirão no município de Unaí, também no noroeste do Estado.
O Distrito de Santo Antônio do Boqueirão é um povoamento histórico e um dos mais antigos do município de Unaí, localizado às margens do Rio Preto, a cerca de 44 km do centro da sede do município. A comunidade se tornou conhecida por acolher a tradicional Romaria de Santo Antônio do Boqueirão e que já ultrapassa os 270 anos de história, mesclando fé e tradição, religiosidade e cultura sertaneja.
Todos os anos, por ocasião da celebração do dia do Santo, uma grande peregrinação Religiosa se desloca de varias regiões ao encontro de santo milagreiro, para fazer seus agradecimentos, pagar suas promessas e pedir a intercessão do santo por algum motivo de sobrevivência, na maioria das vezes questões de saúde e vida financeira.
A lenda de sua criação, foi a da aparição de uma imagem do Santo sobre um toco, a pouco mais de cem metros das margens do Rio Preto, a qual teria sido recolhida e levada para a paróquia de Paracatu. No entanto pouco tempo depois, a imagem desapareceu da paróquia e voltou a surgir no mesmo local sobre o toco.
A Festa e a Romaria de Santo Antônio do Boqueirão, é organizada pelos Frades Carmelitas da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Diocese de Paracatu, em conjunto com a prefeitura local. A festividade conta com a uma extensa programação religiosa, sem faltar a tradicional bênção e distribuição de pães, pois Santo Antônio ficou conhecido por sua caridade e amor aos pobres. A festa acontece em meio as empolgadas diversões, como as cavalgadas, desfiles de carros de boi, apresentações de violeiros e feira de comidas típicas.
A Vida do homem do sertão está profundamente ligada a espiritualidade das romarias. A confiança em dias melhores se expressa num forte sentimento de proteção de seus santos de devoção. Em Santo Antônio do Boqueirão e Serra das Araras, que estão situadas em uma região onde a escassez de água e a lida no campo testam os limites físicos e emocionais, a espiritualidade das romarias entra como um alento e uma forma de resignação e esperança na convivência com as adversidades.
Por meio das suas fortes devoções e espiritualidade de romeiros, o sertanejo vai encontrando formas de se comunicar com o sagrado, expressar suas angústias e mantendo vivas as suas tradições. Neste sentido a espiritualidade das romarias é mais do que uma prática religiosa é um modo de vida que une as pessoas, fortalece a missão, impulsiona a superação diária e dá sentido à sua existência na passagem por este mundo.
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