
Foto: Livres Clube
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Bem, hoje nós vamos odiar o primeiro que nos ameaçar…
Espero que já tenham notado a relação próxima entre o medo e o ódio. Quando se espalhou a pandemia de COVID, a partir de dezembro de 2019, a reação imediata foi de medo. Noticiado que o surto tivera início na cidade de Wuhan, na China, logo correram agressões contra asiáticos em várias cidades dos E.U.A., ainda que as vítimas fossem cidadãos de origem japonesa ou coreana.
O medo me eriça. O gato ameaçado ataca. Nós também…
Por volta de 1980, acompanhei um sacerdote até a prefeitura da cidade de Valença, RJ, para um encontro com o prefeito local. O padre liderava um grupo de jovens católicos que se dispunha a criar uma casa de acolhida e acompanhamento para dependentes de drogas. Não me esqueço dos olhos esbugalhados do senhor prefeito e de sua reação áspera. Ainda que o local escolhido fosse em área rural, em um distrito bem distante da sede do município, o governante fincou pé e proibiu a iniciativa.
Estive relendo um dos livros da Dra. Elisabeth Kübler-Ross, onde ela relata uma experiência terrível. Em 1985, já celebrada em todo o mundo por seus estudos sobre os doentes terminais, a autora adquiriu uma fazenda em Head Waters, na Virgínia, e manifestou a intenção de adotar bebês contaminados pela AIDS – na época uma peste incurável! – e fazer de sua herdade uma clínica onde os pequeninos pudessem ser cuidados ou, pelo menos, morrer em paz.
Como reagiram os vizinhos? Com medo. Medo de contágio. E imediatamente suas janelas começaram a ser alvos de tiros como uma espécie de alerta. Em outubro de 1994, ela estava no aeroporto de Baltimore, em uma de suas numerosas viagens para palestras e ensinamentos, quando recebeu a notícia de que haviam incendiado sua fazenda. Ali viraram cinza todos os seus fichários e notas científicas, além do acervo sentimental da família. Era o ódio em ação…

Foto: Gazeta do Povo
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O ódio que brota do medo é dirigido também contra a ciência. Em março de 2006, em Santa Teresa do Oeste, PR, membros da Via Campesina/MST destruíram uma instalação de pesquisa agrícola, onde a Syngenta Seeds mantinha laboratórios e estufas estudos que incluíam sementes transgênicas. Em sua ignorância odiosa, os agressores viam na pesquisa uma ameaça para a agricultura familiar.
Hoje – porque é hoje que precisamos odiar -, nas redes sociais, escorre um riacho lamacento de ódio, cuja nascente é a polarização política. Acusações, zombarias grosseiras, “memes”, antigos erros desenterrados, sem falar nas “fake news” – tudo serve na tentativa de equilibrar o medo que faz as noites insones.
Já não é o antigo medo do ladrão que pode pular o muro. Nos anos 50, o rádio anunciava que um presidiário havia fugido da Ilha Grande, e logo minha mãe corria a fechar as janelas, em pleno Sul de Minas. Era o medo.
Hoje, é o medo do próximo governante. Você tem medo dele? Pois então, comece a odiar…
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