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Cortejo

Publicado por Wesley Pioest em Poesia
data: 21/09/2018

Cortejo

Diogenes com sua lanterna – Jacob Jordaens

ofereço um minuto de silêncio
à noite negra da minha memória
para aplacar-lhe a desmedida fome

assim como também o ofereço
àquele dia em que fui feliz
cuja imagem tento agarrar
mas que se afasta lentamente
detrás de apagadas evidências

ofereço um minuto de silêncio
aos companheiros devastados
pela solidão, pelo álcool
pelo desamor e pela saudade

assim como também o ofereço
à irrecuperável soma de perdas
e à sentida ausência de deus

ofereço um minuto de silêncio
aos muitos milagres prometidos
os que, esperados, nunca vêm

assim como também o ofereço
aos que perderam a razão
e vagam pelo abismo sem fim
da loucura e da tragédia
no mais cruel dos abandonos

ofereço um minuto de silêncio
aos ouros de minha lavra
e ao catre onde guardo meu sono
(a poesia)
e aos poetas que vieram comigo
pecar e serem pecados
heróis, porém erodidos
por dentro, mais que por fora

assim como também o ofereço
em pretérito mais que perfeito
a tudo que foi desfeito

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Wesley Pioest - Nasceu em Rubim, estudou em Belo Horizonte, passou por Itacarambi, Muriaé e passa atualmente por Gonzaga. Sempre em Minas. Seu vale é o Jequitinhonha, de onde veio e para onde há de voltar dentro em breve, por bem ou por mal. Publicou a Revista “Liberdade”, os livros “Impressões da Aurora”, “Jequitinhonha – Antologia Poética I e II”, “A Fala Irregular” e “Cabrália”. Parceiro inconstante de Rubinho do Vale, Vagner Santos e Romeu Santos em letras para canções.
Comentário
  1. Antonio Ângelo

    Sim, é preciso nos determos, por um minuto que seja, ante aventuras e desventuras que forjam a vida. Precisamos também deste minuto para decifração do que nos é transmitido – com cumplicidade – pelo poeta. Que nascido no Vale, dele não se aparta. Nem de seu destino de legítimo artífice da Macondo mineira chamada Rubim.

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