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Roda moinho, roda pião

Publicado por Sebastião Verly em Devaneios
data: 05/08/2014

Título: A menina e o pião, óleo sobre tela.
 Autora: Marina Jardim

Tem horas que eu me perco a divagar. Lentamente minha lenta mente solta-se do corpo e começa a viajar. Vou longe até por lugares nunca dantes navegados, lugares desconhecidos. Relembro a infância. Relembro ou revivo. Revivo e reavivo com saudade às vezes, com alívio outras. Brincadeiras de crianças, tanta, que a mente lança em golfadas e eu me perco no caleidoscópio de varias idades. Até pião tento jogar. Só meu irmão, logo mais velho do que eu, sabe rodar aquele brinquedo que piorra. Piôrra eu já sabia fazer e sabia pôr a girar. E gira o mundo por longos anos. Anos que mais parecem séculos. E muita alegria na roda da vida.  Vida que rodava e não parava e nem pára hoje em dia. Dia e noite a mente engolfa cada momento e faz de tudo lembranças como se fosse presente. E na presença chega a ausência. Ausente, daqui de agora, mas uma presença lá longe bem distante. Distância que a gente nem sabia calcular, mas nem carecia. Carecer não havia para a gente. A gente ia daqui de perto ao lonjão sem cansar nem pedir arreglo. Pedir, nada quase, a gente não pedia. Pedia a benção e era o bastante. Bastante era a coragem de caminhar sem rumo até pelos cerrados, campinas, campos e matas virgens ou erradas.

Vêm de lá pessoas amigas. Amigas que ficarão para sempre na memória, muitas delas sem mesmo saber que estávamos gravando. Gravamos imagens, detalhes que passariam despercebidas, até mesmo aos gravadores. Grava tudo. Tudo parece ser interessante e, nos entremeios, ficaram imagens e falas que, no momento, nem dávamos tanto valor. Valia a pena tudo que fazíamos. Pena que o tempo passa mais rapidamente do que a gente poderia imaginar naqueles tempos. Tempos que fugiam quando o tentávamos segurar. Fugiram apressadamente. Sem obedecer à pressa da mente.

Crianças, sorríamos de quase tudo e coragem sobrava para enfrentar de frente, de lado, de cima para baixo e de baixo para cima. Rimas e poesias preenchiam os espaços. Vazios não ficavam. A cada hora a gente inventava um pouco mais. Inventava o que já existia, sem saber que já sabíamos. Era um saber interior que, parece, repetia apenas. Apenas ou somente só, a gente renovava a cada instante. E esbanjava momentos. Tínhamos tempo de sobra. Sobravam segundos, minutos, horas, dias e anos. Anos que não queríamos repetir, nos bancos escolares. A escola era divertida, mas às vezes nos desafiava. Desafios ou dez a fios, a nota que sonhávamos ter para ser o primeiro da classe. Classe era o que tentávamos nos ensinar a ter. E a gente desdenhava este aprender. Desenhava um outro mundo de sabedoria. Buscávamos o riso fácil e o divertir apenas. Amizades sim eram todas muito agradáveis. Mas também guardamos poucas e boas. O tempo as consome ou as recria. Amigos de muitos anos tornaram-se irmãos. E quando a gente contava com dezenas de irmãos, carecia sim lembrar de vez em quando o tanto de bom que era tê-los. Mesmo sem sabê-lo. Tudo passa. Tudo passou tão de repente.

Vou dos demorados primeiros passos às rápidas correrias censuradas. Sem censura, está minha mente a vasculhar recantos que naqueles tempos me proibiram ou eu mesmo censurei-me. Quantas belezas deixadas nos cantos da vida. Quantas delícias gozadas às escondidas, hoje livres da proibição exagerada dos anos dourados. Douramos a pílula para viver melhor.

Tento organizar os pensamentos. Quem sou eu! As mensagens de outrora chegam aos turbilhões. É uma verdadeira loucura. Ou será loucura este momento louco que foge sem cessar e repassa como uma brincadeira de passar anel: vai e volta. Volta e meia algo mais agradável, pause! Nessas pausas recriam-se os arredores e detalham-se acontecimentos. Mas, de súbito, nos roubam as cenas e parte para outras apresentações, umas bem distantes das outras, que se misturam e confundem os pensamentos.

Pensamentos que se passam e aumentam nossa vontade de ficar. Ficar, só nos bons momentos, naqueles que nos trouxeram amor, risos, alegria, triunfos e vitórias. Hei de encher a vida com essas memórias, lembranças, recordações seja lá o que for, e não sei por que tenho de lembrar-me de tantas coisas para reavivar a saudade sem que possa, por mais que eu queira, poder matá-la.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. verly

    MUITO OBRIGADO, Milton. Fiquei muito feliz.

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