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O Nagual

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 03/01/2012

A mente, a alma, os pensamentos, um estado de graça, o céu, o intelecto puro, a psique, energia, força vital, imortalidade, o princípio da vida, o Ser Supremo… Tudo é tonal, até Deus. Deus é parte do nosso tonal pessoal e do tonal dos tempos. O tonal, como já disse, é tudo o que pensamos que compõe o mundo, inclusive Deus, é claro. Deus não tem outra importância a não ser a de ser parte do tonal de nosso tempo.

Deus é apenas tudo em que você pode pensar, e portanto, a bem dizer, é apenas mais um artigo na ilha. Deus não pode ser visto à vontade, só pode ser mencionado. O nagual, ao contrário, está às ordens do guerreiro. Pode ser visto, mas não pode ser mencionado.

O nagual está ali, onde paira o poder, rodeando a ilha. Sentimos, desde o momento em que nascemos, que existem duas partes em nós. No momento do nascimento, e durante algum tempo depois, somos todos nagual. Depois sentimos que, a fim de funcionar, precisamos de um complemento ao que temos. Falta o tonal e isso nos dá, desde início, uma sensação de deficiência. Aí o tonal começa a se desenvolver e torna-se muito importante para o nosso funcionamento, tão importante que ofusca o brilho do nagual, dominando-o.

Desde o momento em que nos tornamos completamente tonal, não fazemos outra coisa senão incrementar aquele antigo sentimento de deficiência que nos acompanha desde o momento de nosso nascimento, e que nos diz incessantemente que há uma outra parte para completar-nos. Desde o momento em que nos tornamos completamente tonal, começamos a fazer pares. Sentimos nossos dois lados, mas sempre os representamos com elementos do tonal. Dizemos que nossas duas partes são a alma e o corpo. Ou o espírito e a matéria. Ou o bem e o mal. Deus e Satanás. Nunca compreendemos, porém, que estamos apenas juntando as coisas na ilha, assim como se junta café e chá, ou pão e torradas, ou pimenta e mostarda. Estou lhe dizendo, somos uns bichos estranhos. Somos transportados e em nossa loucura acreditamos que estamos fazendo sentido.

Explicar tudo isso não é assim tão simples. Por mais espertos que sejam os pontos de verificação do tonal, o fato é que o nagual vem à tona. Sua emersão, porém, é sempre inadvertida. A grande arte do tonal é reprimir qualquer manifestação do nagual de tal modo que, mesmo que sua presença seja a coisa mais óbvia do mundo, não seja notada pelo tonal dos outros.

O meu tonal se está utilizando a fim de compreender a informação que quero que fique clara para o seu tonal. Digamos que o tonal, como sabe bem como é difícil falar de si, criou os termos eu, eu mesmo, e assim por diante, como equilíbrio, e graças a eles pode conversar com outros tonais, ou consigo mesmo, sobre si mesmo. Ora, quando digo que o tonal nos obriga a fazer alguma coisa, não estou afirmando que aí existe uma terceira parte. Obviamente, ele se obriga a obedecer às suas próprias opiniões. Em certas ocasiões, porém, ou em circunstâncias especiais, algo no próprio tonal toma consciência de que há mais alguma coisa em nós. É como uma voz que vem das profundezas, a voz do nagual.

Entenda, a totalidade de nós é uma condição natural que o tonal não consegue obliterar completamente, e há momentos, especialmente na vida de um guerreiro, em que a totalidade se torna aparente. Nesses momentos, pode-se supor e avaliar o que se é, realmente. Nesses momentos, o nagual toma consciência da totalidade do ser. É sempre um choque porque essa consciência perturba a calma.

Chamo a isso a consciência de totalidade do ser que vai morrer. A idéia é que no momento da morte o outro membro do par verdadeiro, o nagual, se torna plenamente ativo e a consciência e as recordações e percepções guardadas em nossas pernas e coxas, nossas costas e nossos ombros e pescoço, começam a expandir-se e a desintegrar-se. Como as contas de um colar sem fim arrebentado, elas caem por todos os lados, sem a força aglutinante da vida.

O nagual é a parte de nós com a qual não lidamos de todo. É a parte de nós para a qual não existe descrição – nem palavras, nem nomes, sem sensações, nem conhecimento. O nagual não é experiência, nem intuição, nem consciência. Esses termos e tudo o mais que você possa dizer são apenas itens na ilha do tonal. O tonal começa ao nascer e termina na morte, mas o nagual nunca termina. O nagual não tem limites. Já disse que o nagual está onde paira o poder, isto foi apenas um meio de me referir ao assunto. Por causa de seu efeito, talvez o nagual possa ser mais bem compreendido em termos de poder.

As coisas do nagual só podem ser presenciadas pelo corpo energético, não pela razão. Essa é a nossa natureza, como seres luminosos. Quando o tonal se encolhe, coisas extraordinárias são possíveis. Mas só são extraordinárias para o tonal. Para o nagual é uma coisa à-toa.

Pode-se dizer que o nagual explica a criatividade. O nagual é a única parte de nós que consegue criar. O nagual é capaz de feitos inconcebíveis. Digamos que um guerreiro aprende a sintonizar sua vontade, a dirigí-la para um certo ponto, a focalizá-la onde quer. É como se sua vontade, que vem da parte média de seu corpo, fosse uma única fibra luminosa, fibra que ele pode apontar para qualquer lugar concebível. Aquela fibra é o caminho para o nagual. Ou então eu poderia dizer que o guerreiro se afunda dentro do nagual por aquela única fibra. Uma vez afundado, a expressão do nagual é coisa de seu temperamento pessoal.

O nagual, depois que aprende a emergir, pode causar grandes danos ao tonal, aparecendo sem qualquer controle. Aqui temos uma pergunta estranha. O que está sendo conduzido ao nagual pela fibra luminosa? A resposta é: A percepção!

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Comentário
  1. Bill Braga

    somos mesmo bichos estranhos… e quando se abrem as portas da percepção, talvez nos tornemos inadaptados, e o nagual que aflora, reencontra algo que não podíamos acessar… mas continuamos sendo estes bichos estranhos…

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