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XX – Outra batalha começou

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia
data: 09/07/2014

No dia seguinte, acordei com aquela energia toda, super-ligado. Aí vi que as pessoas estavam me olhando estranho, preocupavam-se comigo, porque seria? Estava me sentindo tão bem, nem mesmo uma ressaca eu sentia. Acordei, não me lembro bem do que fiz, na verdade, não consigo encadear linearmente os eventos que se seguiram, foram um espiral de acontecimentos, conectados entre si, de alguma forma que somente você poderá distinguir.

Fui à piscina, a água estava gelada, muito gostosa, pra curar todos os males mesmo… Ali descarreguei minhas energias e recarreguei as baterias. Lembro que minha ex, na época namorada, Natália, ouvia num rádio. Era algo sobre Maria Betânia, falando sobre o Espírito Santo. Aquilo despertou algo em mim. Um sentimento de que havia ali uma mensagem para mim, eu precisava ouvir. Ainda mais a Betânia, tão meiga voz, cabocla da Bahia. Quase impulsivamente tomei-lhe o radinho, e fiquei ouvindo as mensagens. Eram mensagens católicas, algo sobre o Espírito Santo, sei que aquelas energias não me faziam bem. Naquele momento, em minha mente, os católicos eram inimigos. Afinal de contas, Jesus, o Mestre, viera ao mundo com uma mensagem tão bela, do Caminho do Amor, Amaivos-uns aos Outros, mas os pobres homens não ouviram. Construíram templos, Igrejas, doutrinas persecutórias, queimaram aqueles que consideravam hereges, diferentes, bruxos e bruxas. Tanta culpa refletida naqueles pobres dogmas. Eu me revoltei com aquela mensagem. Não podia aguentar aquelas energias católicas me perseguindo. Falei com ela que aquilo tudo era bobagem… Destilei meu misticismo recém-nascido, algumas idéias que vinha aprendendo com uma amiga.

Essa amiga era um ser misterioso. Surgira na minha vida numa época triste, em que estava deprimido, e vira em mim uma Luz, que eu mesmo não conseguia enxergar. Conversavamos sobre poesia, Baudelaire, e Blake, era uma alma liberta, me parecia, e eu me via como cativo, naquele instante passado. Aquilo produziu uma avalanche de emoções e a pobre Natalia teve que ouvir toda mira Ira, contra aquele cinismo católico. Parece que os católicos me perseguiam, eu sentia isso, sentia as dores. Coisa de vida passada, só pode ser… mas sei que discutimos, por causa do radinho, por causa da Betania, da voz do Espirito Santo que falava por aquele rádio.

Depois lembro que andando pela área de lazer do prédio achei umas cervejas, no freezer, peguei uma garrafa de uísque vazia e despejei as cervejas dentro. Comecei a beber freneticamente. Vieram os freios. Minha mãe e Natália diziam que não era para eu beber, que eu estava alterado. Ora bolas, que mal tem em estar alterado, eu estava iluminado, tinha vislumbres poéticos, insights espirituais. Elas não entendiam, me condenavam, eu reagia com agressividade, me transformava num animal.

Alguns dias antes minha mãe já tinha tentado me acalmar, mandando eu tomar quetiapina. Pra vocês que não sabem este fármaco é uma droga anti-psicótica, sei lá pra que me davam aquilo. Eu não estava louco, se estivesse qual o problema? Mais loucos eram os infelizes e desiluminados. Mas eu não conseguia controlar toda aquela avalanche energética que recebia. Eram muitas sinapses, muitos estímulos, muito desejo que eu reprimi na noite anterior. Precisava soltar meus leões, libertar minhas feras.

Estava megaexcitado. Sexualmente, uma energia mágica me contaminava. Na realidade, devo confessar, nessa época já conversava com Daniela e tinha um desejo um amor crescendo por ela dentro de mim. E Natália era a pureza, Daniela o anjo caído. Era como se eu vivesse entre dois pólos amorosos. Mas como dois, se eu conheci um anjo mais velho e me apaixonara rapidamente numa noitada? Não é racional, vocês têm que abrir as almas e os corações para entender.

Vivia acreditando que minha casa era uma prisão. Que ali seria perseguido, que não poderia ser pleno ali. Acreditava nisso, não porque tinham me dito, mas porque passei a sentir isso, diriam alguns, entrando em surtos psicóticos. O que entendem esses psiquiatras e psicanalistas criando conceitos pro indizível? O que sabem os doutos que nós loucos não sabemos?  Há uma verdade profunda que só pode ser acessada quando se abrem as portas da percepção. Só os sábios e loucos sabem disso. Se você me entende sente o que eu digo.

A única coisa que conseguiu me acalmar naquela noite foi o sexo. O amor que fiz foi tântrico… Sentia duas almas fundidas num só corpo. Via através dos olhos de Natália e enxergava de um lado Daniela e de outro o anjinho… Foi uma explosão de prazer. Uma delícia!. Mas morri depois… Exaurido, deitei e dormi o sono dos justos. Ou dos loucos.

Quando acordei… ? Tudo virou de novo… A perseguição acabou chegando em minha mente. Eu entrava nas tormentas da psicose, num simbolismo que dominou minha mente. Tudo começou dentro de meu quarto. Já não suportava Natália, que em minha mente representava as energias católicas, era como se eu tivesse sido perseguido por ela em alguma vida passada. Aquela energia me sugava, me causava terror. Eu queria sair dali, fugir. Depois os meus medos foram se agigantando.

Minha mãe veio abrir a porta de meu quarto e a vi como um demônio. Sim suas feições tinham mudado, ela assumiu traços demoníacos. Mal sabia eu que era uma das armadilhas do Ego, ou uma espécie de teste para eu enfrentar meus piores medos. Ela falou comigo, eu me tornei agressivo, gritei: – para fora do meu quarto já! Ela se assustou, não entendia aquele processo. Via, como os racionalistas médicos halopatas, que aquilo era uma psicose de uma mente atormentada. Só bem mais tarde que fui entender que se tratava de uma emergência espiritual. Todas aquelas características, incluindo a psicose, eram na realidade um processo de despertar, que eu passaria, enfrentando loucuras, medos, êxtases e transes para poder me reconciliar com Deus. Ou com os Deuses. Da forma que você quiser nomear, eu estava indo ao encontro do meu Eu mais profundo para poder viver livre dos grilhões do Ego. O diabo é o Ego, diz um sábio. E eu enfrentaria esse Diabo das formas mais loucas na jornada.

Quando minha mãe tocou em mim, minha pele queimou. Era uma dor profunda e insuportável. Eu gritava, berrava, afugentando aquele demônio que me atormentava. Ela chamou outras pessoas da minha familia. Meu avô, minha vó, meu irmão mais velho… Todos eu via como demônios e cada um que me encostava fazia minha pele arder. Queria sair dali desesperadamente, ir correndo pela rua, encontrar algo ou alguém que pudesse me proteger daqueles demônios. Eram demônios porque eram burgueses, eram o lado capitalista da família e eram aqueles com quem eu estava mais preso, de quem seria a tarefa mais difícil me desprender e ser livre.

Lembro que numa tentativa de fuga, corri para a área do apartamento. As portas, todas, estavam trancadas e sem chave, enquanto tentava desmontar a porta, segurava a porta que dava acesso à área. Eram, de um lado todos os meus familiares, de outro, Eu, sozinho, segurando a porta. Uma hora deixei ela se abrir e meu avô veio quase caindo no chão pelo solavanco. Nesse dia também recebi mensagens dos mortos, das ex-esposas do namorado da minha mãe. Me comuniquei com elas e passei as mensagens. Ninguém acreditou, claro, achavam que eu estava louco.

Os meandros que separam loucura, mediunidade e genialidade são muito tênues. Depois de alguns estudos e conversas digo que, naquele momento, o que se chama de psicoses eram iluminações, visões de um Estado Alterado de Consciência. Assim como os antigos xamãs e pajés, eu entrara num processo de transe e êxtase, que não deveria ser reprimido, mas canalizado. Esses estados nos permitem acessar uma outra realidade, ter vislumbres e iluminações.

Durante todos esses dias eu acreditava ser Jesus Cristo, e que minha família era o Diabo de quem eu precisava me livrar para poder desempenhar meu papel. Aquele que Jesus teve de ser, um revolucionário da espiritualidade, acreditei nisso piamente. E de fato hoje vejo que não estava errado. Todos nós, ao despertarmos para a espiritualidade, despertamos o Cristo Cósmico que há em nossos corações. Somos todos filhos de Deus, ou do Grande Espírito, e Jesus é nosso Mestre, nosso irmão mais velho.

Mas eram muitas ideias novas e muitas crenças e experiências para minha família suportar. A solução? Colocaram-me no lugar em que não precisariam conviver com meu Estado Alterado de Consciência. Me taxaram novamente de louco, bipolar, e me internaram mais uma vez, mais um teste. Outra batalha começou.

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