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XIX – O Zé Ninguém e a Flor da Noite

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia
data: 13/06/2014

O fato de eu ter tido protusões de hérnias em todas as minhas vértebras cervicais aos 27 anos de idade pode ser sinal de várias coisas… Postura incorreta ao trabalhar ou dirigir, excesso de stress no trabalho ou em relacionamentos familiares, ou, no meu caso fantasmas do passado voltando a me assombrar. Eu completava quatro anos e cinco meses de ter tido uma profunda experiência de surto psicótico, profundamente transformadora, segundo as estatísticas, cinco anos após a primeira crise as chances de outra ocorrer eram mínimas. Eu não precisava mais de remédios estava decolando na vida profissional, me tornando um executivo do ramo livreiro, misturado com um poeta historiador, tinha um lado afetivo sólido, com uma linda e doce namorada, que me satisfazia em todos os aspectos. Estava bem com minha família, amigos. Tudo, tudo mesmo parecia perfeito. Eu dava o valor que as coisas tinham, sabia valorizar cada instante vivido depois de ter sido trancafiado em clinicas psiquiátricas, depois de ter tido delírios, ouvido vozes, ter tido paranóias. Eu valorizava a vida, o trabalho, o amor, profundamente. Por que diabos, esses fantasmas iriam reaparecer? Mas reapareceram.

Uma noite resolvi pegar o carro e sair sozinho. Não queria ninguém, namorada, mãe, nenhum controle externo. Queria beber, sair do limite, abrir minhas asas. Extravasar. Saí de casa em direção ao bairro da Serra. Lá tem um bar muito bom, boteco mesmo que tem um Chorinho, mas não era dia de chorinho. Eu sabia que lá perto do chorinho tinha era outra coisa, uma zona boêmia … Mas não fui pra lá. No caminho, minha namorada me ligando querendo saber onde eu estava eu inventei que ia na casa de um amigo que morava na Serra, realmente tenho um amigo que mora lá, e que depois iria num show de um outro amigo nosso com ele, não a levaria pois ela morava bem longe da minha casa, desculpa perfeita. Voltando, no caminho da zona boêmia tinha um boteco com um violeiro, daqueles que parecem pretos-velhos com violões, tocam o que pedirem na hora, tirando literalmente de ouvido. Ficam tocando com a coluna curvada e uma orelha encostada no tampo do violão como se houvesse uma magia que fundisse a madeira do violão com aquele espírito humano. Quando vi aquele camarada parei meu carro e desci por ali mesmo.

Sentei numa mesa ao lado do violeiro, perguntei seu nome, ele me disse que era o Zé Ninguém. Perguntei onde ele morava, ele disse que morava onde não morava ninguém, e já começou a entoar essas palavras numa música. Eu entrei numa empolgação muito grande, peguei o tablet que ficava comigo da empresa que trabalhava e filmei ele tocando. Moro onde não mora ninguém. Aquelas palavras me tocaram profundamente no meu coração. Porque realmente aquela figura não era um violeiro mendigo que morava nas ruas. Devia ser um ser iluminado. Não, realmente ele não morava onde morávamos nós humanos, ele devia morar em algum reino astral encantado, era certamente um ser encantado.

Pedi logo um copo de cachaça, cana barata mesmo, uma para mim e outra pro Zé Ninguém, e uma garrafa de cerveja. A noite parecia que ia ser boa, e tinha que começar a turbinar meu cérebro, minha mente e meu espírito. O caso é que, dizem os espiritualistas, é que quando bebemos e fumamos demais atraímos espíritos pouco evoluídos que podem nos influenciar. Acredite-se ou não, aquele ali era bem evoluído e íamos cantando um repertório de sambas-canção lindos, lembrando os tempos de boemia, Noel Rosa, Cartola e Carlos Cachaça. Músicas saindo e goles e tragadas entrando.

Reparei que na mesa em frente estava um senhor, com cara de empresário e uma mulher nos seus trinta e muitos anos, com um belo decote. Olhei para trás, várias mulheres com saias curtas, alguns empresários, outros senhores… Parece que sem querer eu havia parado num bar próximo ao local que tinha pensado em ir primeiro, o reino da luxúria. Meus instintos se aguçaram, imaginei o que fazer depois dali, se iria saciar minha sede, cometer um dos sete pecados, mais um adultério, ou se iria para o show. Em meio a todo esse fluxo de pensamentos pedi ao meu já amigo Zé, que tocasse uma música mais que especial para mim. O Mundo é um Moinho. Liguei o gravador para registrar e comecei a cantarolar junto a ele:

“Ainda é cedo amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora da partida

(…)

Ouuuuuççaaa me bem querida

Preste atenção o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”

Foi lindo. Virei um copo de cana e as lágrimas quase rolaram. Mal sabia eu que eram meus sonhos quixotescos que estavam por voltar. Que em breve estaria lutando com meus moinhos de novo. Mas naquela hora nada me importava nem as mensagens no meu celular perguntando onde eu estava se estava tudo bem, muito menos a quantidade de álcool que eu tomava. Turbinava minha mente, expandia meus horizontes. Era o super-homem voltando. Era o pássaro querendo voar, ou apenas a mente querendo enganar?

Depois da apresentação triunfal do Zé finalizando com Cartola, contive meus instintos primitivos e carnais e resolvi ir ao show, encontrar com amigos, um samba-rock. Cheguei cedo, e curiosamente, resolvi equilibrar com uma garrafa d’água. O lugar estava vazio, quase ninguém que eu conhecia aparecera. Mas é nessa hora que os anjos aparecem. Sim, você pode me dizer que anjos não existem, mas que há, há! Um deles foi esta mulher.

Ela se aproximou da mesa em que eu estava sentado perto do palco e perguntou se podia se sentar ali também. Eu, claro, disse que sim. Ali começamos uma conversa deliciosa, como se nossas almas se conhecessem há milênios. Meu amigo e a turma toda chegaram, cumprimentei todos eles, mas não deixava aquela misteriosa mulher, ou aquele misterioso anjo, sozinha. Acabei abandonando meus amigos e ficando conversando com ela toda a noite.

Vez por outra, um amigo dela a tirava para dançar e eu ficava admirando os movimentos, o bailado, o corpo perfeito em sintonia e harmonia com o ritmo do samba-rock. Como eu queria poder dizer para ela: ensina-me! Mostra-me tua arte. Vez por outra tomava uma cerveja, ou uma cachaça, mas sempre uma água acompanhando. Parecia que minha fúria interior estava se acalmando.

Me lembro que conversamos sobre nossas vidas e quantas semelhanças tinham apesar dos quase vinte anos de diferença. Ela sofreu uma depressão grave. Superou e mudou sua forma de encarar o mundo, de viver a vida. Assim como eu. Eu estava me apaixonando por ela em algumas horas, mas ainda havia algo dentro de mim que me impediu de dar o passo final, aquele tocar dos lábios, ou o momento em que eu passaria meu braço em sua cintura e abraçaria ternamente para mostrar o quanto ela significava para mim naquele instante. Seria um bloqueio? O medo de trair novamente? Repetir uma história que trouxe sofrimento? Seria meu Ego, testando quão livre realmente eu era para demonstrar o que sentia por ela naquele momento? Ou ainda poderia ser a Serenidade dizendo, você já mostrou seu sentimento por ela, não precisa dar o outro passo que machucaria outras pessoas, talvez até a você mesmo.

Nunca terei a resposta para essas perguntas. Sei que não cometi o pecado capital nesta noite. Me embriaguei, cantei, dancei, me apaixonei por um anjo. Um anjo cujo nome nunca mais me lembrei…Mas nada disso impediu que o turbilhão viesse nos dias que se seguiram…

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